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Neste estudo nos propusemos a compreender como as rimas em poemas infantis impulsionam os comportamentos de consciência linguística e as estratégias de processamento de compreensão da linguagem durante o período de alfabetização. A abordagem metodológica utilizada para isso foi qualitativa, a fim de proporcionar uma análise mais detalhada e com dados originais sobre o assunto, acrescentando-os aos estudos já realizados nesse campo pela Psicolinguística. Na abordagem de intervenção utilizada, a partir dos textos poéticos, o conceito de consciência fonológica foi ampliado nas considerações sobre as relações entre comportamentos deste próprio nível de consciência, e da consciência fonológica com os demais níveis de consciência linguística.

Na primeira etapa da pesquisa, partimos da reflexão sobre a possibilidade dada pelas rimas de relacionar palavras nos versos, e encontramos os diferentes planos linguísticos (morfológico, sintático, semântico, textual, pragmático) associados a esse processo desencadeador de consciência fonológica. O fio condutor que o plano fonológico representa na costura de tecidos dos poemas infantis foi espelhado nos processos reflexivos das crianças. Assim, a interação entre as várias habilidades de consciência linguística no desenvolvimento dos diferentes níveis da leitura, ressaltada por Gombert (1992), foi averiguada a partir dos textos poéticos. Esses comportamentos de integração dos diferentes níveis de consciência linguística detectados mostram-se bastante apropriados como suporte ao professor para as intervenções que favoreçam as bases para o aprendizado da leitura e da escrita. Os níveis fonológico, semântico e sintático foram os mais demandados nesse processo, assim como apontado por Gombert (1992), sendo que o morfológico mostrou-se muitas vezes presente de forma espontânea durante as reflexões fonológicas, talvez evidenciando uma inter-relação bastante intrincada, como proposto por Bowey (2005) e Fowler & Liberman (1995).

Reconhecer e mobilizar comportamentos de consciência linguística exige conhecimentos aprofundados sobre o assunto. Dessa forma, o levantamento realizado durante as oficinas em sala de aula, que gerou a identificação de categorias de comportamentos de consciência linguística vinculados à detecção da rima, especialmente, favoreceu na segunda etapa da pesquisa a montagem de um instrumento de avaliação de consciência fonológica integrado aos demais níveis de

consciência linguística. Este evidencia de forma mais concreta os comportamentos infantis mobilizados na descoberta de como funciona a linguagem, sendo um referencial sobre o desenvolvimento da criança a serviço do professor. Como apenas verificar resultados e identificar comportamentos tem seus limites na sua aplicação prática em prol da aprendizagem, foram também identificados e selecionados parâmetros para o desenvolvimento de metodologia de trabalho pedagógico com poemas no período de alfabetização, no que se refere à exploração das rimas como impulsionadora da consciência fonológica e linguística.

Dessa forma, a pesquisa inicia na sala de aula e volta para ela, com uma proposta de intervenção de base psicolinguística para beneficiar estudantes em fase de alfabetização a partir de seu contato com a linguagem poética.

Os fundamentos da importância da interação entre oralidade e escrita na alfabetização foram aqui reafirmados no trabalho com poemas. O caminho para o domínio de um sistema e outro tem em comum a capacidade de linguagem de cada indivíduo, e a referência da oralidade faz parte da iniciação na escrita. Ler e escrever se relacionam à conversão do registro alfabético em sons, e a ponte entre essas duas modalidades da linguagem apoia-se fortemente nos fundamentos de desenvolvimento de linguagem de cada um, através do diálogo, jogo, música, além dos modelos de leitura fornecidos, que funcionam como referenciais de produção textual. Os poemas são essencialmente um texto escrito para ser oralizado, por seu ritmo e construção de sons e sentidos tecidos com a linguagem. O leitor dos poemas em sala de aula tem o papel de ressaltar os elementos sonoros e rítmicos poéticos, que instigam este jogo de linguagem oferecido às crianças. Esse papel de brincadeira verbal do poema, como elemento de arte e cultura, favorece o contato mais leve com a linguagem, e ao mesmo tempo desafia a criança cognitivamente, convidando-a a montar e desmontar os jogos de palavras propostos, comportamento bastante desejável e bem vindo nessa fase da alfabetização. Mesmo as crianças com algum prejuízo no seu desenvolvimento de linguagem sentiram-se convidadas ao embalo dos textos poéticos, no caso desta pesquisa, envolvidas em descobrir especialmente como rimar.

Os aspectos de atenção à estrutura sonora da palavra despertado pelas rimas foram bastante documentados durante a pesquisa, ressaltando-se, especialmente, a descoberta do início e final de palavra, as sequências sonoras, as possibilidades de segmentação da linguagem e aspectos relacionados à temporalidade dos sons.

Esses ingredientes, quando confrontados com a escrita, favorecem a explicitação de fatos da língua que auxiliam no processo de se alfabetizar, ou seja, conhecer o funcionamento da linguagem escrita e poder apropriar-se do mesmo, com todas as suas potencialidades linguísticas.

Esses aspectos de atenção à estrutura sonora também apontaram para o importante movimento de ir e vir da palavra ao texto e do texto à palavra. Estes aspectos mostram-se bastante relacionados com as consciências sintática e semântica, especialmente, e favorecem que a criança realize inferências de sentido e de organização da linguagem escrita.

O desenvolvimento desta pesquisa exigiu circular em áreas afins, sendo esta enriquecida pelas interfaces com a Literatura, Psicologia, Educação e Fonoaudiologia. Não buscamos discutir conceitos oriundos dessas outras áreas, mas apenas nos afinarmos a elas nas leituras dos temas tratados, possibilitando melhor compreensão do assunto e a expansão dos limites da própria Psicolinguística, que possui uma vocação interdisciplinar desde sua origem.

O desenvolvimento de critérios metodológicos constituiu-se em outro desafio empreendido nesta pesquisa, a fim de dar consistência às análises qualitativas realizadas e permitir criar um instrumento de avaliação com uma proposta totalmente nova e fornecer subsídios para o trabalho do professor alfabetizador. Todos esses passos exigiram uma postura de identificação e engendramento de dados e de critérios conjugados dentro do compromisso de manter a validade das informações qualitativas como base do trabalho.

Por fim, ressaltamos as contribuições desta pesquisa à área da linguagem e da educação, trazendo elementos para a formação do professor e sua instrumentalização para o trabalho com linguagem na sala de aula, como contribuição a um panorama de muitas dificuldades no processo educacional em nosso país. O objetivo é o enriquecimento do processo de alfabetização, que necessariamente passa pela decodificação, mas que precisa ir além, associando a esta o estímulo às inferências dos engendramentos da linguagem, favorecendo o desenvolvimento da leitura com compreensão e da escrita com competência. A fonoaudiologia escolar também recebe este benefício, pois não são poucos os desafios que o profissional desta área enfrenta para amparar professores e equipe pedagógica no processo de alfabetização e no incremento das vivências de linguagem das crianças na escola.

Que os achados desta pesquisa, iluminados por olhinhos brilhantes de crianças envoltas em palavras que rimam e alimentam sua curiosidade e vontade de brincar com esse brinquedo que “quanto mais se brinca mais novo fica”, parafraseando José Paulo Paes, seja um convite para que a poesia entre mais na sala de aula e seja vista com todo seu potencial literário e linguístico. Como dito na introdução desta pesquisa, essa relação com a leitura poética fornece um espaço significativo para a reflexão sobre a língua, em suas várias dimensões, num contexto de envolvimento ativo e afetivo, como se a criança brincasse de “casinha” ou de “carrinho”, sentindo-se autorizada a mergulhar nesse jogo de linguagem.