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Os romancistas são tolos que contam por dias e por anos. Os dias talvez sejam iguais para um relógio, mas não para um homem. Há dias montanhosos e difíceis que levamos um tempo infinito para escalar e dias em declive que se deixam descer a toda velocidade, cantando. Para percorrer os dias, as pessoas de natureza um pouco nervosa, sobretudo, dispõem, como os veículos automóveis, de “velocidades” diferentes. (PROUST, 2015, p. 151).

Um devir infernal sempre num entremeio, nem só uma coisa ou outra, assim é o geocorpo. O corpo do paciente terminal, mesmo tendo a doença como constante, suas energias, forças e velocidades variam até a finitude do corpo orgânico. Não há estágios que possam ser classificados e comprovados homogeneamente, mesmo que alguns desses estágios pareçam se repetir em todos os pacientes, os mesmos são vividos nas heterogeneidades dos corpos, na singularidade de cada indivíduo e não são constantes em um tempo cronológico, com início, meio e fim, mas em uma espécie de espiral que vai e que vem, e que, mesmo não tendo um centro, conduz e deixa-se conduzir com movimentos centrífugos e centrípetos em cada fragmento de tempo quase instantâneo de acordo com os corpos que ainda afeta e com esses ou outros que ainda lhe podem afetar. “É que as singularidades do mundo servem de princípio para a constituição de individualidades: cada indivíduo envolve um certo número de singularidades e exprime claramente as relações entre elas, fazendo-o em relação ao seu próprio corpo” (DELEUZE, 2006c, p. 138).

Por mais estáticas, amplas e finitas que possam ter as classificações contidas nos conceitos de corpo humano provindas de áreas como a fisiologia, a biologia, a medicina, entre outras, as mesmas não se adequam totalmente e não têm potencial para imaginar o corpo humano em suas constantes metamorfoses, em seus respectivos acúmulos e desgastes de força, em suas diferenças de velocidades durante todo o tempo de vida orgânica.

A incompletude dos conceitos de corpo nas várias áreas do conhecimento se dá por uma série de questões e de variáveis, dentre as quais, o caráter de inacabamento do próprio conhecimento, a complexidade do corpo humano, a impossibilidade de um único profissional dar conta de todas as dimensões da vida de um indivíduo, a tradição da ciência que trabalha por compartimentalização do conhecimento, a fragmentação histórica dos programas, das políticas e dos currículos escolares, a comercialização

econômica que divide tanto as competências quanto os custos por atendimento aos pacientes de acordo com cada patologia, parte do corpo afetada, idade, gênero e até de classe social; pelo percentual muito reduzido de médicos para atender uma determinada população; pelos programas e pelas especializações acadêmicas sob as quais se operam as várias áreas de atuação dos profissionais de saúde.

Dessa forma, o paciente é atendido de acordo com sua patologia ou área do corpo afetada, ou seja, é encaminhado para um determinado especialista da medicina, de acordo com as políticas e com as organizações dos hospitais e dos centros de saúde e, quando o paciente precisa de “ajuda” ou orientações para dar continuidade ao tratamento e às “andanças” para providenciar exames e outros procedimentos é encaminhado para um profissional de assistência social. Geralmente é de praxe, ou, caso o médico perceba que o paciente precisa, este é encaminhado para um profissional da psicologia que, como tal, cuidará da “parte” psíquica do paciente quanto a aceitar e aprender a conviver com uma doença incurável.

Nesse sentido, há um profissional para cuidar ou tratar da “parte” do corpo afetada diretamente pela doença, por exemplo, a língua; há outro para orientar como se efetivarão os procedimentos de controle da doença (enfermeiro); outro para cuidar da “parte” social e econômica do paciente; outro para os impactos da doença no cérebro, ou na alma, ou no espírito – como se queira denominar – do paciente.

Coisa semelhante acontece na escola. O conhecimento sobre o corpo é compartimentalizado pelas várias disciplinas que se ensinam no decorrer da vida acadêmica do aluno; a Biologia, por exemplo, se ocupa de todos os sistemas, órgãos e aparelhos do corpo do humano, especificando suas funções, as conexões internas, apresentando várias doenças que podem atingir cada um desses órgãos, dando exemplos de como mantê-los saudáveis, providenciando informações para que um indivíduo tenha hábitos saudáveis e atinja o maior índice de longevidade; ainda nessa linha, o corpo aparece como uma máquina que precisa de cuidados para que todas as suas engrenagens funcionem a contento, porque, caso contrário, essa máquina pode vir a parar de funcionar. Apesar de apresentar um número considerável de doenças para cada um dos órgãos, a ênfase dessa área de conhecimento se dá sobre os avanços da medicina sempre direcionando para a manutenção do corpo orgânico vivo. A morte aparece apenas como falência dos órgãos vitais, quando não há possibilidade de transplante.

Um aluno com “problemas” relacionados a alguma doença grave e incurável que acomete seu próprio corpo ou ao corpo de alguém que lhe é muito próximo é encaminhado para o setor de “técnicos” da escola – orientadores, supervisores – e, principalmente para o profissional de psicologia. Quando esse aluno “dá muito trabalho” ou quando se detecta um baixo rendimento, os pais ou responsáveis são acionados e lhes é sugerida a procura por ajuda profissional fora da escola. Na maioria das vezes, os professores nem chegam a saber que o aluno está doente ou que possui algum familiar que está em processo de evolução para o óbito.

Não é que os professores e os médicos não queiram ou não compreendam a totalidade e a complexidade do corpo do indivíduo, de suas afecções e das relações que estabelecem em convívio com os outros. É que tudo foi astuciosamente preparado para que funcionasse dessa forma e não de outra. Nosso pensamento, nossas instituições, nossa formação, nossa história familiar... tudo se emoldura sob a forma arborescente de conceber a vida. Coisa fixada no solo por uma raiz porque ligada sempre a uma instituição, legislação, ou raciocínio central, basilar e com poder superior hierárquico; limitada pelo último galho ou ramo de folhas porque compartimentalizada pelas inúmeras “partes”, estratos, órgãos, ou pensamentos hierarquicamente tomados como inferiores ou subalternos. Essa é a vida sob a forma ou sistema arborescente87. É uma

coisa de cérebro, trata-se de um modo de pensar inclusive o cérebro, como órgão central do corpo, como único capaz de levar o homem ao pensamento e à razão. Talvez Deleuze (2011c) tenha razão quando afirma que não pensamos muito na relação vivida com o cérebro, inclusive a psicologia fala sempre da relação com o corpo, de como se vive com/o corpo, mas do cérebro vivido realmente pouco se fala. As inversões de raciocínios construídas por esse autor sempre me pegam de surpresa, e devo dizer que isso me excita e inspira. E, de novo, deve-se prestar bastante atenção quando ele diz que: “certamente não foi por influência da ciência que mudou nossa relação com o cérebro; talvez fosse o inverso, nossa relação com o cérebro tenha mudado antes,

87 Muito sucintamente, para Deleuze e Guattari, e em suas palavras, “os sistemas arborescentes são

sistemas hierárquicos que comportam centros de significância e de subjetivação, autômatos centrais como memórias organizadas. Acontece que os modelos correspondentes são tais que um elemento só recebe suas informações de uma unidade superior e uma atribuição subjetiva de ligações preestabelecidas. Vê-se bem isso nos problemas atuais de informática e de máquinas eletrônicas, que conservam ainda o mais arcaico pensamento, dado que eles conferem o poder a uma memória ou a um órgão central. (2011a, p. 36). Mais adiante, eles comentam como esse modelo arborescente dominou toda a história Ocidental, começando assim: “É curioso como a árvore dominou a realidade ocidental e todo o pensamento ocidental, da botânica à biologia, a anatomia, mas também a gnosiologia, a teologia, a ontologia, toda a filosofia...: o fundamento raiz...” (Idem, p. 38).

guiando, obscuramente, a ciência... O cérebro torna-se nosso problema, nossa doença, nossa paixão, mais que nosso controle, solução ou decisão”. (DELEUZE, 2011c, p. 253).

Não apenas a título de orientação conceitual, procede invocar o modelo rizoma que Deleuze e Guattari criam para uma nova forma de pensamento que pode contribuir para a compreensão do mundo e da vida a partir de suas multiplicidades, multiplicidades estas que não podem ser acionadas a partir do raciocínio por acréscimo (do tipo 1+1), mas das inúmeras dimensões e intensidades que compõem qualquer campo ou mapa que se deseja traçar ou compreender. Um resumo das características desse modelo é fornecido pelos autores nos termos a seguir:

diferentemente das árvores ou de suas raízes, o rizoma conecta um ponto qualquer com outro ponto qualquer e cada um de seus traços não remete necessariamente a traços de mesma natureza; ele põe em jogo regimes de signos muito diferentes, inclusive estados de não signos. O rizoma não se deixa reconduzir nem ao Uno nem ao múltiplo... Ele não é feito de unidades, mas de dimensões, ou antes de direções movediças. Ele não tem começo nem fim, mas sempre um meio pelo qual ele cresce e transborda. Ele constitui multiplicidades lineares a n dimensões, sem sujeito nem objeto, exibíveis num plano de consistência e do qual o Uno é sempre subtraído (n-1). Uma tal multiplicidade não varia suas dimensões sem mudar de natureza nela mesma e se metamorfosear... o rizoma é feito somente de linhas: linhas de segmentaridade, de estratificação, como dimensões, mas também linha de fuga ou de desterritorialização como dimensão máxima segundo a qual, em seguindo-a, a multiplicidade se metamorfoseia, mudando de natureza... Oposto ao grafismo, ao desenho ou à fotografia, oposto aos decalques, o rizoma se refere a um mapa que deve ser produzido, construído, sempre desmontável, conectável, reversível, modificável, com múltiplas entradas e saídas, com suas linhas de fuga... o rizoma é um sistema acentrado não hierárquico e não significante, sem General, sem memória organizadora ou autômato central, unicamente definido por uma circulação de estados. (DELEUZE E GUATTARI, 2011a, p. 43).

Ambos sistemas – arborescente e rizoma – não se opõem. Tais autores não propõem uma nova dualidade. Tratam-se de infiltrações recíprocas com mutações em ambos modelos. Invoquei o conceito de rizoma, propositalmente, para roubar-lhe algumas relações, características e conexões. Assim como a leitura a Nietzsche convém uma capacidade de vaca, a de ruminar, a de Guattari e Deleuze exige a de imaginação, muito mais do que a simples abstração intelectual. Nesse sentido, o mapa do rizoma ou o rizoma do mapa a mim ressoa com grandes expectativas. É que imagino um corpo com tal complexidade que exige um mapa que funcione tanto como pano de fundo ou

território quanto cama de faquir que espeta, fura, faz sangrar, escorrer, proliferar, misturar e conectar tantos outros corpos que vão além do corpo do faquir e do corpo- cama.

O corpo do paciente terminal, que tantas vezes é tomado pela medicina como o símbolo do game over e para o qual só restam os cuidados paliativos, detém uma potência muito importante para a compreensão do corpo humano para além do modelo orgânico. Pois é justamente quando o corpo não apresenta mais as características e funções mais vitais para ser tomado como objeto de estudo e quando o indivíduo não serve nem mesmo como sujeito, ou seja, que possa sofrer a ação de outrem, portanto, incapaz de qualquer sujeição, é que pode fornecer, às outras áreas de conhecimento, a máxima capacidade de exploração da força, da potência, dos movimentos e velocidades que extrapolam a compreensão orgânica.

O corpo do paciente terminal possui os germes – não no sentido da biologia ou da biomedicina – do que muito bem poderia ser chamado de geocorpo. Como primeiro traço, esse corpo não pode ser conhecido apenas pela história do corpo orgânico sob as perspectivas da ciência moderna Ocidental. Não é o corpo explorado por suas inscrições históricas como a acumulação de registros e casos semelhantes de patologias, como se faz desde a medicina classificatória do século XVIII88. Esses procedimentos de buscar

semelhanças entre os casos foram substituídos pelo avanço da biomedicina que providencia diversos equipamentos e técnicas de diagnósticos mais avançados, mesmo que, a maioria dos casos seja tratada como “tipos”, ou seja, já há uma outra classificação – mais ampla e resultante de estudos sistematizados - das patologias instituída pela comunidade médica. Identificar o tipo de doença, providenciar as técnicas de tratamento – tanto no sentido de cura da doença quanto de amenização de seus efeitos – é colocar em jogo todo um saber disponível, agir tecnicamente de acordo com esse saber, é sobretudo isso que a medicina faz, incorporada no profissional da saúde. O médico - e digo isso sem nenhuma vontade de generalização, haja vista que há espíritos inconformados em todos os estratos da sociedade que possuem uma índole gananciosa em se tratando do conhecimento – segue uma série de cômputos, autômatos, procedimentos, técnicas, códigos, leis... unilateralmente direcionadas para esses fins, ou seja, diagnosticar e tratar a doença. Começa e termina no orgânico.

De certo, essa medicina classificatória do século XVIII propunha um distanciamento entre médicos e pacientes – trata-se do quarto princípio da espacialização primária desse período da medicina, de acordo com a teoria de Foucault (2011). Como demonstrei, tal distância servia para que os queixumes dos pacientes não confundissem ou não deturpassem a sensibilidade médica para identificar a patologia. Notadamente, hoje não há mais essa necessidade pela simples institucionalização daquela tipologia ou nova classificação das doenças, assim também por se contar com tecnologias avançadas de exames que contribuem para diagnósticos mais exatos. Se o distanciamento entre médicos e pacientes é necessário ou não para o estabelecimento do diagnóstico, isso não importa. A questão me parece outra: o distanciamento existe de fato. Com certeza há múltiplas razões que poderiam justificar ou não tal fato, no entanto, as mesmas fogem aos objetivos deste trabalho, de modo que o que me importa afirmar no momento, é que é devido a esse distanciamento, sobretudo, que o geocorpo não pode ser conhecido ainda pela medicina.

A medicina vive à caça da patologia e não do corpo do paciente, o corpo é lido como um atlas que ora revela, ora esconde a doença. Mesmo assim, as afecções entre os corpos de médicos e de pacientes necessariamente existem, independente da vontade ou da concepção desses indivíduos. Não se pode precisar todos os efeitos dessas afecções, mas a verdade é que pacientes e médicos não são mais os mesmos após se encontrarem em uma consulta ou em um tratamento mais duradouro. Todo e qualquer tipo de encontro resulta em uma mudança de fluxos, de sentimentos, de perspectivas. Imagino que deva ser realmente desgastante para os profissionais da saúde minarem todos os dias as suas forças com as dores e com os conflitos alheios, todavia, isso também foge ao que esta pesquisa se propõe. Apenas digo que, em se tratando dos pacientes – como pode ter sido notado nas sessões anteriores – esses encontros os afeta de tal forma que, são levados de um extremo a outro de seus valores morais, como a esperança, levando- os a uma tristeza e a um recolhimento (encolhimento do corpo) insuportáveis que demonstra todo o seu pavor da morte.

Talvez ainda se precise inventar uma outra forma de aproximação entre pacientes e médicos, ou um outro modo de distanciamento. Uma educação acerca da manutenção da inteligência dos espaços necessários entre os indivíduos. Nem perto demais, nem tão longe assim. Afetar e deixar-se afetar sem macular a vida e sem reduzir

drasticamente as forças. Passam-se os anos, as décadas e os séculos e não conseguimos chegar a tal educação. O próprio arcabouço teórico do ensino de ciências, traduzido para os “conteúdos escolares”, de forma fragmentada e orgânica ainda não conseguiu se aproximar de uma perspectiva mais complexa do corpo humano e de suas múltiplas afecções.

Ainda sobre esse primeiro traço do geocorpo, isto é, considerando a incapacidade do mesmo vir a ser conhecido pela história da medicina ou da ciência médica Ocidental, ou seja, pela história do próprio corpo orgânico, refiro-me ao ranço da identidade entre a doença e o doente que mediava a medicina classificatória que ainda subsiste, com certeza, com algumas nuanças de diferença. Com efeito, os pacientes a partir do momento que são diagnosticados ou encaixados em determinada patologia passam a ser nomeados com o sobrenome da mesma: “Cruz: paciente oncológica”. A quase exatidão dos exames permite um atendimento rápido, impessoal, às vezes quase imediato. Ao analisar os exames e as fichas do paciente, um médico sem tempo ou alguma sensibilidade não precisaria sequer dirigir o olhar ao paciente, pois ali naqueles artefatos, o médico consegue ver o mau que afetou o corpo do paciente, os infortúnios e dores e, às vezes, prever até o tempo de vida que ainda lhe resta. E se não há tempo para dedicar ao paciente, basta encaminhá-lo para quem tem a competência para os efeitos e procedimentos pré e pós diagnósticos e tratamentos – psicólogos, enfermeiros e assistentes sociais.

Com o passar do tempo, o próprio paciente – caso não exercite aquela esperança cristã que, inicialmente lhe faz acreditar na possibilidade de continuidade da vida a qualquer custo – passa a se considerar como a própria doença. Inclusive os próprios familiares experimentam um olhar identitário entre a doença e o doente nos momentos mais absurdos de tristeza:

Quando alguém morre, essa pessoa acaba se tornando sua morte. E acho que é mais ou menos isso que está acontecendo com meu pai: ele está se tornando sua própria doença. E é por isso que eu quero deixar registrado quem ele é. (Diário de Regiane Martins, 04 de junho de 2014).

É óbvio que todos queremos e necessitamos de acompanhamento médico quando estamos enfermos e o Estado, tem o dever de providenciar assistência médica a

todos os cidadãos, muito embora não seja isso o que acontece para a maioria da população, levando pacientes e familiares ao desespero:

É muito difícil vê-lo assim como se ele estivesse se apagando a cada dia, o sistema de saúde é muito lento e tudo é muito complicado, é uma demora muito grande para se conseguir uma simples consulta, na minha opinião é isso que deixa a família toda desesperada é o sistema que nunca muda para ajudar os enfermos, quando chamam o paciente para a cirurgia muitas vezes o mesmo já está a óbito.

Nós nos sentimos incapazes, é mais fácil ouvir um NÃO do que um SIM89, nos procedimentos que o paciente aguarda para a internação.

(Diário de D. Maria Martins, 22 de maio de 2014).

Mas a questão acerca da incumbência ou do espaço destinado ao tratamento da doença, que como salientei na primeira sessão, pertence aos primórdios da medicina, hoje passa por uma diferença fundamental: geralmente é o próprio paciente que não quer permanecer no hospital até seu último instante de vida. O hospital institucionalizou-se como o lugar apropriado para o exame e o tratamento da doença, com o tempo, os familiares foram se dissociando da obrigação permanente de cuidados com o moribundo, mesmo porque, a medicina tornou-se o único saber autorizado a cuidar da saúde.

D. Josiane Cruz faleceu no dia 31 de julho de 2015. D. Leda Teles foi quem a acompanhou em seu último mês de vida e me concedeu uma entrevista falando sobre esses dias finais. Quando lhe perguntei se a D. Josiane Cruz havia referido algo sobre o desejo de falecer em sua própria casa, ela respondeu o seguinte:

Ah, ela queria isso. Isso. Ela pediu pra mim, foi que eu liguei pro seu Danilo, eu disse, “seu Danilo, a D. Josiane quer...”, ele tinha acabado de sair de lá... “seu Danilo venha aqui, a D. Josiane quer ir embora”. Aí ele disse, “não, eu vou aí”... foi uns três dias antes da morte, uns três dias antes que ela queria ir embora, ela não queria mais ficar lá, isso aconteceu... (Senhora Leda Teles, entrevista concedida em 27 de outubro de 2015).

Ao hospital destinou-se uma ampliação de suas obrigações: ele não apenas serve para tratar e curar o doente, mas para mantê-lo sob observação e cuidados paliativos até