Com o intuito de desenvolver o conceito de linguagem, Gadamer inicia a sua discussão a partir da obra de Platão O Crátilo, onde duas teorias sobre a relação entre a palavra e a coisa são examinadas. De acordo com a teoria convencionalista uma palavra é um sinal que nós concordamos em fazer o seu uso de modo que esta venha a representar um objeto já conhecido por nós. Já no que diz respeito da teoria da semelhança, o que se diz é que a palavra acaba por ser uma cópia de tudo aquilo que ela (a palavra) nomeia. A questão é que não se pode criticar uma palavra por esta ser uma mera representação do objeto. Contudo, ambas as teorias (convencionalista e de semelhança) pressupõem de um modo não verdadeiro que se pode conhecer o objeto que será nomeado sem que necessariamente se faça o uso da linguagem. Neste sentido, Gadamer tomando como referência o pensamento de Martin Heidegger, defende a tese de que o uso da palavra correta acaba por trazer a coisa à apresentação e, portanto não existe lacuna alguma entre a palavra e o seu significado.
O Crátilo descredita totalmente a legítima pergunta que quer saber se a palavra se reduz a um “signo puro” ou se contém algo de “imagem”. Enquanto ali se leva ao absurdo a tese de que a palavra seja uma cópia, a única possibilidade que parece restar é a de que ela seria um signo. (GADAMER, 2014, p. 535)
A assertiva anterior pode nos levar a direção errada, porque pensamos a linguagem como um sistema de sinais. Se seguirmos a análise de Heidegger do significado e também da experiência em Gadamer tanto a linguagem assim como o pensar sobre os entes estão tão interligados que se considera uma abstração se conceber o sistema de verdades como um sistema pré-dado de possibilidades de ser para o qual o sujeito significante seleciona sinais correspondentes. A experiência não ocorre fora, nem de forma anterior à linguagem, mas dentro da própria linguagem. Somos nós que buscamos a palavra correta, ou seja; - a palavra que realmente diz respeito à coisa – para que nela a coisa venha a ser linguagem.
O sentido da palavra como aquilo que revela o que de fato o mundo é, é exemplificado no conceito cristão de encarnação em que a palavra é pensada como verbo (logos). É por meio da palavra divina que é possível que se traga o ser nomeado para a existência. O que de fato é relevante para Gadamer aqui são as três distinções que Tomás de Aquino faz questão de estabelecer entre a palavra divina e as palavras humanas.
1. A palavra humana é em potência antes de atualizar-se. A palavra pode se formar e estar efetivamente formada. O processo de pensamento tem início de forma precisa quando algo nos vem a mente a partir da memória. Há uma emanação uma vez que isto não implica que a memória chegue a perder algo ou se despoje de algo. Contudo, o que vem a mente não se encontra finalizado e menos ainda está pensado até o fim. De modo contrário, é neste momento que se inicia o verdadeiro movimento do pensar, movimento no qual o espírito se apressa em passar de um elemento para o outro, relutando da cá para lá, em busca da plena expressão de pensamentos pela via da investigação e reflexão. Em síntese, é apenas no pensar que a palavra é de fato formada de um modo pleno, e nos moldes de um
instrumento, contudo quando se apresenta como plena perfeição do pensamento, com ela já não é possível se produzir mais nada.
Levando-se em consideração que a palavra divina é a pura realidade a palavra humana deve passar da potencia para a realidade. O pensamento humano tem início com palavras de nossa mente, e a partir de então passa a considerar como expressar o seu pensar de modo preciso. Ao se encontrar a palavra correta, para Gadamer “a coisa esta então presente nela”. (2014, p. 549). O processo de compreensão tem, pois início com os nossos preconceitos, a linguagem que herdamos, e por meio da interpretação encontramos as palavras corretas para que possamos trazer o assunto para a compreensão legítima. 2. Em relação à palavra divina, a palavra humana é imperfeita. As palavras humanas de um modo geral não expressam o nosso espírito de um modo perfeito. Contudo isso não quer dizer que haja uma imperfeição da palavra como tal. Segundo Gadamer (2014, p. 549) “A palavra reproduz de fato e por completo aquilo que o espírito tem em mente”. A imperfeição do espírito humano consiste em não possuir uma atualidade perfeita de si, pois se encontra disperso tendo em mente uma vez isto e outra aquilo. Da imperfeição em sua essência, a palavra humana não é como a palavra divina, uma palavra única, mas é de um modo necessário muitas palavras.
De modo algum a multiplicidade das palavras significa que cada uma comporte certa deficiência, passível de ser superada, por não expressar perfeitamente aquilo que o espírito tem em mente. Ao contrário, porque é imperfeito, isto é, porque não está inteiramente presente naquilo que sabe, nosso intelecto tem necessidade de muitas palavras. Não sabe realmente o que sabe. (GADAMER, 2014, p. 549)
Por fim, enquanto a palavra humana expressa a essência da coisa de um modo completo, a palavra humana apenas pode fazer isso de um modo incompleto? Mesmo as palavras humanas trazerem o assunto a presença, a finitude humana e
nossa abertura para as experiências futuras implicam que o assunto nunca está totalmente presente. Tais distinções demonstram que o pensar e o falar formam uma unidade interna. O pensar ocorre pela via da linguagem. As palavras humanas, por serem incompletas, podem ser desenvolvidas através da formação de conceitos.