Um volume significativo de obras historiográficas sobre Lucien Febvre e Marc Bloch investiga-os a partir de sua relação com a “Escola dos Annales”. Nessas obras Febvre e Bloch são apresentados como “pais fundadores” de um novo paradigma historiográfico, como promotores de uma revolução no interior da historiografia moderna. Nesse sentido, o foco é o novo programa intelectual, o “paradigma dos Annales”, e não os autores em si.
A história nova, organizado pelos historiadores franceses Jacques Le Goff, Jacques Revel e Roger Chartier, é um dos primeiros e mais importantes trabalhos que compõem esse painel.17 Essa obra reúne uma série de textos publicados em 1978 e produzidos por importantes nomes da “Escola dos Annales”, como Michel Vovelle, André Burguière e Philippe Ariès. Os textos se dedicam a refletir sobre temas que de alguma maneira envolviam a discussão sobre os Annales na década de 1970, tais como longa duração, estruturas, mentalidades e imaginário. Trata-se
de uma obra organizada com o objetivo de produzir algo como o estado da arte dessa “escola”, e que, em grande medida, consolidou a vinculação do termo “história” nova com “Escola dos Annales”. É do próprio Jacques Le Goff um dos textos mais relevantes da obra, e que nos interessa particularmente aqui.
Com o mesmo título da coletânea, o primeiro capítulo de A história nova propõe um balanço da historiografia que o autor chama de “história nova”. Le Goff inicia o texto definindo sua compreensão de história nova pela associação com a ideia de história total. Assim, Lucien Febvre, Marc Bloch e Fernand Braudel seriam seus grandes mestres. O argumento do autor é que o projeto de história total se delinearia já em Marc Bloch e Lucien Febvre, com o lançamento da Annales d’histoire économique et sociale. Le Goff busca em um discurso de
Febvre dos anos 1950 e na amplitude do termo “social”, presente no título da revista, a justificativa para essa designação.18 Para esse autor, Febvre e Bloch possuíam como projeto construir uma nova história de âmbito internacional, projeto que, se não foi pleno, teria alcançando dimensões ocidentais.19 O que se afirma, portanto, é que a história nova foi forjada pelo grupo de intelectuais organizados em torno da revista.20
Caracterizando esse grupo como promotor do “espírito da história nova” contra a história tradicional, e vislumbrando Febvre e Bloch como seus mestres, construiu-se uma imagem “revolucionária” para ambos. Entre 1924 e 1939 Bloch e Febvre teriam travado uma luta, um combate contra a história política, narrativa, dos acontecimentos. Para Le Goff, esses historiadores eram movidos pelo desejo de afirmação de duas direções inovadoras para o conhecimento histórico: a história econômica e a história social. Ainda que reconheça como fontes inspiradoras da Annales a Revue Historique, a Revue de Synthèse, dirigida pelo belga Henri Berr, e a Vierteljahrschrift für Sozial-und Wirtschaftsgeschichte - Revista Quadrimestral de História Econômica e Social, Le Goff reivindica para o trabalho de Bloch e Febvre uma originalidade sem precedentes.21
18 LE GOFF, In: CHARTIER; LE GOFF; REVEL (Org.), 2005, p. 34-35. 19 LE GOFF, In: CHARTIER; LE GOFF; REVEL (Org.), 2005, p. 45. 20 LE GOFF, In: CHARTIER; LE GOFF; REVEL (Org.), 2005, p. 74. 21 LE GOFF, In: CHARTIER; LE GOFF; REVEL (Org.), 2005, p. 38-40.
Esse mesmo esforço de apresentação de Marc Bloch e Lucien Febvre como revolucionários intelectuais, arquitetos de uma nova forma de se produzir conhecimento histórico, pode ser encontrado na obra de Peter Burke, A Escola dos
Annales (1929-1989): a revolução francesa da historiografia, de 1990.22 Nesse texto o historiador inglês pretende fazer uma reconstrução da história dos Annales, oferecendo, em poucas páginas, condições para a compreensão do movimento como um todo. Burke diverge da argumentação de Le Goff ao afirmar que um novo estilo de história já se gestava a partir de trabalhos isolados; na Alemanha com Gustav Schmoller e Karl Lamprecht, na França com Henri Sée, Henri Hauser e Paul Mantoux. No entanto, como já sugere o título da obra, para Burke os
Annales não têm precursores como um grupo, como um movimento com novas propostas para a historiografia. Os anos em que Bloch e Febvre estiveram na direção da Annales d’Histoire Économique et Sociale são descritos nos seguintes termos:
Esse movimento pode ser dividido em três fases. Em sua primeira fase, de 1929 a 1945, caracterizou-se por ser pequeno, radical e subversivo, conduzindo uma guerra de guerrilhas contra a história tradicional, a história política e a história dos eventos.23
Peter Burke argumenta que a revista Annales foi planejada, desde seu início, para ser mais que uma revista histórica comum. Ela pretendia exercer liderança intelectual nos campos da história social e econômica, sendo porta-voz da nova abordagem histórica interdisciplinar.24 Assim como Le Goff, 25 Burke parte do relato de Lucien Febvre para afirmar que os Annales “começaram como uma revista de seita herética”, que pouco a pouco se converteu no centro de uma escola histórica. As transferências de Bloch e Febvre de Estrasburgo para Paris,
22 BURKE, 1997.
23 BURKE, 1997, p. 12. 24 BURKE, 1997, p. 33.
nos anos 1930, representariam sinais evidentes do sucesso do movimento dos
Annales.26
Entre esses textos que enfatizam a revolução intelectual produzida por Bloch e Febvre, nos parece estar também o estudo produzido por Jacques Revel. Em 1979, Revel publicou na Annales. Économies, Sociétés, Civilisations artigo intitulado Histoire et sciences sociales: les paradigmes des Annales, que apesar de contemporâneo ao artigo de Le Goff, traz quanto a ele diferenças importantes.27
Jacques Revel se propôs a discutir um ponto polêmico que também circundava o grupo dos Annales na década de 1970, a unidade desse movimento intelectual.28
Seu argumento é que os Annales reclamam para si uma identidade coletiva, reivindicam uma preservação da origem que parece esconder verdadeiros desacordos.
No que se refere à abordagem dos primeiros anos dos Annales, e particularmente de Lucien Febvre e Marc Bloch, Revel segue na direção apontada pelos autores supracitados ao afirmar que a origem dos Annales está na ruptura fundacional de 1929, cuja matriz teórica seria a obra do sociólogo François Simiand, Método histórico e ciência social (1903). Contudo, Revel distancia-se, por exemplo, de Le Goff, ao admitir que a generalização “positivista” e “historicizante”, proposta por Simiand e repetida sistematicamente para falar de uma suposta história tradicional, é uma incorreção.29
Esse autor segue também a direção que Peter Burke tomará mais tarde, reconhecendo que a tentativa de organizar a produção historiográfica em torno das ciências sociais não era original, e já estava presente na Revue de Synthèse com Henri Berr. No entanto, Revel também se distancia de Burke na justificativa do sucesso dos Annales. Burke refere-se aos primeiros anos da revista como uma “guerra de guerrilhas”, que só alcançará o establishment historiográfico após a
26 BURKE, 1997, p. 38-43.
27 REVEL, 1979, p. 1360-1376.
28 Essa discussão sobre a unidade, ou não, do movimento dos Annales em torno de um paradigma,
proposta por Jacques Revel, encontra-se também em Stoianovich. Cf. STOIANOVICH, 1976.
Segunda Guerra.30 Jacques Revel, por outro lado, sustenta que a legitimidade acadêmica faltara à Revue de Synthèse, que estivera às margens das instituições universitárias, mas não à Annales.31 Enfatiza ainda que seus fundadores não eram marginais, mas historiadores reconhecidos, que se beneficiaram também do apadrinhamento prestigioso de Henri Pirenne.32
Para nossos interesses, um dos aspectos mais substantivos desse texto é a afirmação de que ainda não havia se produzido uma efetiva “história do movimento”. Segundo Revel, a maior parte dos estudos consagrados aos Annales parte dos discursos que os membros produziram sobre si mesmos, compondo assim estudos ideológicos e abstratos.33 Esse rótulo nos parecer definir bem o
texto de Jacques Le Goff, e mesmo a obra de Peter Burke, escrita mais de uma década depois. Especialmente no que se refere aos primeiros anos da Annales
d’histoire économique et sociale, um dos recursos mais utilizados como fonte são
os comentários de Lucien Febvre sobre a revista, retirados de discursos e conferências. Revel admite ser seu próprio ensaio constituído apenas por hipóteses gerais, que não são fruto de pesquisa histórica, e segue seu diagnóstico apontando que,
[...] nous ignorons presque tout de la sociologie du mouvement, de la composition des reseaux successif et sedimentés qui ont été, à un moment ou à un outre, en tout ou en partie associés aux Annales ... Cette recherche n’est pas faite.34
30 BURKE, 1997, p. 11-15.
31 REVEL, 1979, p. 1360-1367.
32 Faz-se necessária uma observação. Em 1977, como comunicação para um encontro do Fernand
Braudel Center, nos Estados Unidos, Jacques Revel produziu um texto com a mesma estrutura do texto publicado na revista Annales em 1979, o qual utilizamos aqui. Entre os dois textos há pouquíssimas diferenças, no entanto, uma se revela mais substantiva. Enquanto no artigo de 1979 Revel é enfático ao apresentar Febvre e Bloch como historiadores reconhecidos e não como marginais, no texto de 1977 admite exatamente o contrário, nos seguintes termos: “small marginal group of professors of the Univerity of Strasbourg, who at the end of the 1920’s, took up arms against the citadel of the university”. Cf. REVEL, 1978, p. 10.
33 REVEL, 1979, p. 1361. 34 REVEL, 1979, p. 1360-1376 .
O diagnóstico de Jacques Revel sobre os estudos dedicados aos Annales é semelhante ao de seu colega André Burguière. Burguière, em texto também publicado na revista Annales, em 1979, afirmava que a escrita dos Annales adquirira um carisma surpreendente, transformara-se em tradição. Esse carisma motivou o aprisionamento das análises a vulgatas, sem o devido tratamento como objeto de pesquisa histórica.35 Nesse sentido, novamente afirma-se a necessidade de investigação desse “movimento historiográfico”, e o próprio Burguière se propõe a iniciá-la, resgatando alguns aspectos da paisagem intelectual do nascimento dos Annales.
Burguière inicia suas referências a Marc Bloch e Lucien Febvre procurando afastar a ideia de que fossem autores marginais, excluídos do
establishment historiográfico e universitário. Distanciando-se das análises de Jacques Le Goff e Peter Burke e aproximando-se de Jacques Revel, Burguière sustenta que Bloch e Febvre eram “herdeiros” de posições importantes, eram historiadores “incluídos”. O reconhecimento de ambos poderia ser visualizado no fato de publicarem em revistas importantes e lecionarem na Universidade de Estrasburgo, no momento a segunda mais importante instituição universitária da França, tanto numérica quanto simbolicamente.36 Burguière insiste que a marginalidade em torno dos fundadores da Annales seria mais tática que real. Argumenta-se que Febvre e Bloch buscaram meios extrauniversitários não por estarem à margem da estrutura acadêmica, mas por visualizarem nesses meios um
lócus privilegiado para interpelar a comunidade de historiadores, para criticar suas certezas.
Ao que nos parece, há maior distância entre o texto de Burguière e os demais trabalhos referenciados. Esse autor afirma a presença de um projeto de hegemonia acadêmica nos anseios de Febvre e Bloch. Associado a isso, defende que não se tinha um grupo formado por orientações comuns, reunido em torno de proposições. Tratava-se, antes, de um grupo que definiu as diretrizes que recusava, particularmente a história política, mas que não traçou com a mesma ênfase propostas, parâmetros teórico-conceituais e metodológicos. Febvre e Bloch teriam feito referências ao “espírito dos Annales”, mas não exposto sua “linha
35 BURGUIÈRE, 1999, p. 40. 36 BURGUIÈRE, 1999, p. 42-43.
doutrinal”. Nesse raciocínio justifica-se, por exemplo, a importância da seção de resenhas para a revista Annales, assim como o tom de polêmica nelas empregado.37
As apresentações dos textos de Revel e Burguière como últimas referências do primeiro bloco são propositais.38 Apesar de serem artigos do final da década de 1970, montados na mesma estrutura dos demais textos, eles apontam para aspectos relevantes, que nos encaminham para a organização de um segundo bloco. Revel e Burguière já retratavam a necessidade de produzir estudos propriamente históricos sobre os Annales, que se baseassem em pesquisa, levantamento de dados e reflexão crítica. De tal maneira que seus trabalhos podem ser pensados na transição dessas duas categorias, pois criticam o cenário historiográfico em torno dos Annales e reconhecem a necessidade de um novo campo de investigação, mas ao mesmo tempo não assumem essa tarefa, limitando-se, nos próprios termos de Revel, a expor hipóteses gerais.