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2 Narkotikasituasjonen i kommunene

2.2 Problemomfang

O êxtase do valor é apenas parte do funcionamento do capitalismo contemporâneo. Ao que tudo indica, não foi superada ainda a necessidade periódica de desvalorização, como Harvey (2009) salienta. Entretanto, na vigência da hipervolatilização financeira glocalizada, esse processo ganha traços próprios, em decorrência especialmente da velocidade mediática dos signos autorreferenciais.

No segundo capítulo, ficou evidente como a economia mundial passou a funcionar a crédito através da glocalização dos valores. O crédito, de fato, tende a ser estendido até mesmo aos que não têm condições de assumir as obrigações de dívida. No caso das hipotecas

subprime, o esquema funcionou relativamente bem enquanto os preços dos imóveis residenciais subiram indefinidamente. O capital fictício disponível fomentou a oferta do

imóveis. A especulação em torno dos valores dos imóveis foi facilitada também pelas baixas taxas de juros mantidas pelo Federal Reserve (Reserva Federal, nome do banco central dos Estados Unidos).

No entanto, a partir de 2006 a bolha habitacional começou a se esvaziar, com a diminuição no número de venda das casas. Lembre-se que era o valor crescente dos imóveis que sustentava o subprime, porque era através dessa perspectiva de valor mais alto que as hipotecas eram renegociadas. Esse é fenômeno típico da autorreferencialidade do valor glocalizado.3 Como Castells (1999, p. 201) adverte, o mercado financeiro contemporâneo gera valor unicamente “por meio da expectativa de valor mais alto”.

A combinação de alta inadimplência dos mutuários e queda no preço das casas foi o colapso da hipoteca subprime. Instituições financeiras que se haviam comprometido excessivamente com os títulos do subprime, mais rentáveis do que a média do mercado e extremamente seguros na avaliação das agências de risco4, notaram que estariam em problemas se os cotistas disparassem uma onda de saques.

No mundo mediático, da transparência total e do expurgo do segredo na imediaticidade do tempo real, não há como informação de tal relevância permanecer retida. O primeiro anúncio de suspensão de saques foi do BNP Paribas, banco francês que havia adquirido grande quantidade de títulos subprime (KRUGMAN, 2009, p. 173). Lembre-se ainda

que a “onda de saques” na civilização tecnológica avançada, em que o dinheiro é signo digitalizado acessível e movimentado em tempo real, é muito mais dramática, porque é mais

veloz. A onda de saques no mundo pré-mediático era literal corrida aos bancos, como ocorreu em 1929. Agora pode-se falar em corrida de clicks, em que, em poucos minutos, instituições financeiras gigantescas podem ser arrasadas ao estar completamente sem crédito. A menos que tenham caixa para assegurar os clientes de que seu dinheiro estará seguro, não subsistem.

3 É verdade que, no caso da bolha imobiliária – diferentemente de bolhas no mercado de ações –, o valor glocalizado não é imediatamente signo mediático. Isso não significa, contudo, que ele não seja glocalizado. A maioria das pessoas não descobre que o preço das casas está subindo a partir de consultas a imobiliárias, somente aquela primeira leva de consumidores que já pretendia adquirir um imóvel, independentemente do

boom. As demais, que fizeram a bolha se sustentar por tanto tempo, o souberam através da divulgação maciça pelos veículos jornalísticos e pela publicidade do discurso – direto ou indireto – de que imóveis se tornaram repentinamente excelente negócio, fazendo sugerir que os preços subiriam para sempre. A condição glocal está aí fortemente implicada. Não obstante, o valor dos imóveis torna-se, sim, signo mediático no momento em que é digitalizado e convertido em crédito pela instituição financeira, inserindo tal signo na intricada trama de circulação financeira em tempo real.

4 Os títulos eram mais rentáveis porque os juros cobrados dos mutuários, em virtude do risco do negócio, eram mais altos do que a média praticada no mercado. Quanto ao baixo risco do investimento, as agências de classificação de risco chegaram a dar a nota AAA – nota máxima no sistema financeiro mundial – às cotas privilegiadas das hipotecas subprime, graças ao esquema de remuneração dos CDOs, explicado no item 1.6.

Quando eventualmente um banco se encontra na iminência de perder todo o seu caixa, pode recorrer ao crédito de outras instituições financeiras e até mesmo do banco central. O problema ocorre quando o sistema financeiro inteiro é contaminado pelo receio de não haver dinheiro disponível e passa a reter crédito. E foi exatamente esse o caso em 2008, uma vez que, na civilização tecnológica avançada, graças ao acesso a diferentes produtos financeiros a partir de redutos glocais, instituições financeiras de todo o mundo podem investir virtualmente em qualquer dívida do planeta. É sintomático o fato de a crise norte-americana haver eclodido em um banco francês.

A partir da suspensão de saques no BNP Paribas, uma série de grandes investidores institucionais debandou de aplicações mais arriscadas em busca de investimentos seguros. Entretanto, a corrida de clicks foi contida durante alguns meses pela sinalização, da parte dos diversos bancos centrais do mundo desenvolvido, de que o governo disponibilizaria crédito para instituições em situação de emergência. Crédito, nesse caso, pode significar duas coisas: [1] a compra de títulos “podres”, ou seja, que encontram-se inviabilizados pelo baixo retorno; e [2] o empréstimo de dinheiro para os bancos cobrirem os saques, cujo real objetivo é assegurar a investidores temerosos o resgate dos recursos depositados quando quer que o desejarem. Com tal segurança, pretende-se que os investidores não retirem o dinheiro e, assim, mantenha-se o fluxo de crédito no qual a economia mundial se alicerçou.

Entretanto, em setembro de 2008, o Federal Reserve decidiu não socorrer uma das instituições mais afetadas pela posse de títulos “podres”, o banco de investimentos Lehman Brothers. Com a quebra da instituição, abalou-se in totum a confiança no mercado financeiro, e os ativos se desvalorizaram rapidamente, prostrando a economia mundial (KRUGMAN, 2009;

SISTER, 2009).

No caso dos mutuários norte-americanos, o fim do crédito significou a impossibilidade de refinanciar a dívida. Com o preço das moradias em queda livre, eles perceberam que a dívida para com os bancos era superior ao valor do imóvel, levando-os a abandonar as casas – a própria garantia do investimento –, o que só contribuiu para deflacionar ainda mais os valores, com o aumento da oferta de casas disponíveis.

De acordo com epistemologia adotada nesta reflexão, empregos e salários de milhões de pessoas dependem do êxtase do valor financeiro, isto é, da velocidade mediática atuando em prol da expansão do crédito. Número cada vez maior de pessoas, corporações e governos depende economicamente do crédito em expansão, logo, do êxtase do valor glocalizado. No momento em que se perde a confiança nos valores em êxtase, a velocidade mediática atua no

sentido inverso e promove a deflação acentuada, contraindo o crédito e repercutindo de forma inequívoca na economia produtiva.

Nos Estados Unidos, 8,8 milhões de empregos foram perdidos no setor privado. Desse total, cerca de 40% eram considerados de alta remuneração e 23% de baixa remuneração. Até o início de 2011, o déficit havia sido reduzido em apenas 1,26 milhão e, em relação aos novos empregos criados, a tendência se inverteu: apenas 14% são de alta renumeração, enquanto 49% dos salários dos novos empregos são considerados baixos, forte indício do impacto negativo da deflação dos valores financeiros na economia produtiva norte-americana (NELP,

2011). A Organização Internacional do Trabalho (OIT) afirma que, em todo o mundo, ao menos 20 milhões de empregos foram cortados de 2007 até o final de 2009, e nos países desenvolvidos o número não deve voltar aos patamares pré-crise antes de 2013 [embora, em relatório recente, a OIT (2011) já tenha admitido que, nos ritmos atuais, tais empregos nunca serão recuperados, integrando a contagem do desemprego estrutural]. Além disso, 43 milhões de trabalhadores continuarão sob o risco de exclusão do mercado de trabalho, sendo que, desse grupo, os menos qualificados, migrantes e idosos quase certamente perderão de fato a fonte de renda (OIT, 2009).5

Esse último aspecto adiciona às repercussões da hipervolatilização mediática dos valores perspectivas mais sombrias, como confirma relatório apresentado em painel de discussão da ONU (SIRIMANNE, 2009). A redução de crédito em períodos de deflação

acentuada de valores financeiros como o de 2008 atinge de forma desigual os diferentes segmentos da população. Em geral, os mais prejudicados são justamente os que já se encontram em posição de vulnerabilidade, como pobres e mulheres: eles perdem mais empregos, demoram mais a recuperá-los, dificilmente atingem o nível de renda pregresso (como a própria estatística de emprego norte-americana evidencia), têm menos qualificação profissional para reagir às perdas e são compelidos a tomar decisões que somente aprofundam suas mazelas, como reduzir o número e a qualidade das refeições, adiar gastos com saúde e retirar filhos da escola.

Para o capitalismo, o risco da desvalorização é sempre o de provocar incômodos tão grandes que levem as massas às ruas, manifestando-se contra as elites internacionais que usufruem da hipervolatilização financeira e adicionando instabilidade ao contexto

5 Para efeitos de comparação, de acordo com o IBGE (2009), a população brasileira economicamente ativa em 2009 era de 101 milhões de pessoas. Em termos de emprego, portanto, quase “1/5 de Brasil”, a 7ª maior economia do planeta, desapareceu com a deflação acentuada de valores de 2008.

internacional. Nos últimos anos, por exemplo, uma sucessão de protestos nas ruas tem eclodido, com destaque para as manifestações em Londres, na Islândia e os distúrbios na Grécia, países dos mais afetados pela virada do crédito. O temor de Michael Bloomberg, prefeito de Nova York, é sintomático a respeito. Ele crê que, caso o desemprego nos Estados Unidos não recue em breve, revoltas e protestos nas ruas do país devem se acentuar. Bloomberg chega ao ponto de comparar o cenário temido ao de Cairo, que liderou revolta no Egito responsável pela derrubada em 2011 da ditadura vigente no país havia décadas (SAXE-

FERNÁNDEZ, 2011). O movimento “Occupy Wall Street”, que se traduz por “Ocupe Wall

Street”, iniciado em setembro deste ano, é o mais recente exemplo, até a data de finalização do presente volume.6

Portanto, a hipervolatilização dos valores glocalizados não conta apenas com a fase extática, na esteira da qual o valor autorreferencial se precipita na especulação. É preciso ver a deflação dos valores igualmente como parte da hipervolatilização e, como tal, também regida pela lógica da velocidade mediática. O que ocorre é que a velocidade opera levando o valor a uma direção para, em seguida, acumulada a força cinética do pêndulo, trazê-lo de volta em direção à outra extremidade, reduzindo a pó – metáfora imprecisa, é verdade, visto que o valor, nesse âmbito, sempre foi mero signo – o que havia constituído.

A crise financeira deve ser vista, no âmbito da hipervolatilização glocalizada, como

deflação acentuada dos valores, velocidade mediática atuando em sentido reverso ao do êxtase, implodindo completamente os valores digitalizados, assistida nas telas com pavor pelos impotentes agentes financeiros. Sob a batuta da velocidade, o valor encontra seu êxtase. A mesma velocidade rege também a deflação acentuada dos valores glocalizados. Dessa forma, a deflação dos valores no sistema financeiro se insere como condição intrínseca da lógica mediática articulatória das finanças e da economia. A crise, portanto, não é um elemento isolado ou disfunção sistêmica. É parte do processo de hipervolatilização dos valores, na esteira do qual se faz a reprodução do capitalismo.