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Kommunenes organisering av rusmiddelarbeidet og

2 Narkotikasituasjonen i kommunene

2.6 Kommunenes organisering av rusmiddelarbeidet og

Se a desvalorização dos ativos é, muito mais do que elemento isolado ou disfunção sistêmica, parte da própria dinâmica de funcionamento da hipervolatilização financeira, a reflexão aqui encampada mostra como a crise financeira de 2008, na verdade e por mais paradoxal que seja, não existiu. Como tal, integra-se plenamente no rol dos fenômenos dissuasivos. A deflação acentuada dos valores só existe como parte do próprio sistema, ou melhor, como pólo alternativo da encenação ritualística da hipervolatilização financeira, sendo o outro lado de uma mesma moeda que insiste em se apresentar como se pudesse existir cara sem coroa (a exuberância econômica sem a crise de depuração de valor). Nesse sentido, a crise de 2008, pela abrangência e pela “gravidade”, é energia para a sobrevivência do princípio de realidade, de que falou Baudrillard (1991), quando a exuberância dos valores, predominante até então, pode começar a falhar na tarefa. O princípio de realidade precisa ser mantido a todo custo, como Baudrillard (1991) ensinou.

“Qualquer sistema unitário, se quer sobreviver, precisa encontrar uma regulação

binária”, afirma Baudrillard (1993, p. 69). Na simulação, a conversibilidade dos signos impõe essa necessidade. Quando a civilização tecnológica atinge a fase de maturação, a violência se sutiliza mediante a coexistência pacífica, em que duas potências – sejam elas países, partidos ou facções – se alternam como vetores de um único processo, dissuadindo as massas da continuidade das regras básicas. Forma-se um duopólio como “divisão tática do monopólio” (BAUDRILLARD, 1993, p. 68). De fato, Baudrillard (1993, p. 69) sustenta que “o

poder só é absoluto se é capaz de difratar em diversos equivalentes, se sabe como se dividir para se tornar mais forte”. A fórmula se encaixa perfeitamente para pensar a crise.

A hipervolatilização glocalizada dos valores, conduzida pela lógica da velocidade mediática, abriga o êxtase do valor, que se multiplica ad infinitum, o que significa, na prática, crescimento absurdo da riqueza mensurável pela disponibilização do crédito. É como o período pré-crise de 2008, quando acreditava-se haver encontrado a fórmula mágica de crescimento econômico constante, com alta taxa de emprego e baixa inflação (KRUGMAN,

2009, p. 146-159). Isso era conseguido às custas do crescente aumento do valor de ativos, que sustentava esse crescimento. No caso norte-americano, aumento de ativos imobiliários. Na linha de raciocínio de Baudrillard, se o cenário de êxtase do valor perdurasse eternamente, estaria desmascarado o fim do vínculo necessário entre produção de valor e materialidade

produtiva. Daí que a hipervolatilização dos valores – como modelo de simulação, lembre-se, que traz no seu bojo o simulacro da antiga ordem – precisa engendrar também a desvalorização dos ativos, isto é, a deflação acentuada dos valores. Dessa forma, valorização e desvalorização dos ativos formam o duopólio do código capitalista contemporâneo, na mesma acepção de Baudrillard. Ambas as tendências se equilibram na tarefa de reproduzir o capitalismo como forma de relações sociais. “É a forma divina da simulação”, diz Baudrillard (1993, p. 69).

É por isso que se pode dizer que a crise é, na realidade, o pólo oposto (ao êxtase) no processo de dissuadir massas e seus governantes de acreditarem que a economia material já não existe mais na sua determinação do valor, dissuasão cuja finalidade é reproduzir a dominação típica da forma capitalista no social, agora sob a forma do consumo e da glocalização da existência. Se a hipervolatilização glocalizada dos valores como um todo já desempenha certa função dissuasiva na era da simulação, através dos períodos extáticos, a deflação acentuada dos valores coloca as coisas no devido lugar, por assim dizer, ao fazer os contemporâneos “lembrarem-se” de que o mundo não mudou (sustentando o princípio de realidade: o valor continua sujeito à materialidade da economia, é preciso avançar com a produção material), ao reacender a luta pelo poder (governantes surgem como a grande solução para a crise) e ao se responsabilizar por fazer a censura sem rosto, despersonalizada, daqueles que não se precaveram para os “momentos difíceis”, os párias que a época transformou, para a sua própria sobrevivência, numa “raça de devedores”, para lembrar a metáfora de Bauman (2010a, p. 18).

A época necessita a cada dia dos “irresponsáveis” do consumo, que comprometerão suas rendas futuras para aumentar o padrão de vida presente; a ampla oferta de crédito se põe justamente para cobrir tal finalidade. Entretanto, quando os consumidores experimentam com toda a força o narcótico oferecido pela época, esta os responsabiliza individualmente pelos excessos que redundam no seu próprio fracasso. Nos sistemas em expansão, a repressão e a dominação dos párias é feita pelo aparato policial ou pela guerra. Não é assim na civilização tecnológica avançada, da superprodução de objetos e da hipervolatilização glocalizada dos valores.

Nesse contexto, é a crise que desempenha papel repressivo despersonalizado. A crise é momento de exercício legitimado da violência à distância, sem rosto, (violência) cuja forma arcaica é a guerra e que a época exerce de forma muito mais sofisticada e imperceptível através da simulação e da dissuasão. Através da deflação acentuada dos valores, os incautos

são punidos, perdem em instantes a riqueza que acreditaram construir e o capital se vê purificado para novas rodadas de êxtase financeiro.

Vale ressaltar que a transformação dos consumidores em “raça de devedores” é feita através da glocalização da vida humana e dos valores. É pelo estabelecimento da cultura mediática como código referencial que é possível fazer o valor transcender a materialidade da mercadoria. Ao mesmo tempo, é através da conversão do valor em signo mediático que o capital passa a explorar o crédito como “mais um pasto” da sua trajetória incessante (BAUMAN, 2010a, p. 10). O êxtase do valor digitalizado encenado nas telas subsidia a fluidez

do crédito para indivíduos, empresas, nações e blocos multinacionais. A dívida glocalizada é, portanto, a própria estratégia hodierna do capital para “fixar” as pessoas, para retomar a ideia de Baudrillard.

Bauman (2010a, p. 10) afirma que “a atual contração do crédito não é um sinal do fim do capitalismo, mas apenas da exaustão de mais um pasto”. Levando-se em conta a impossibilidade prática de superar a condição glocal da vida humana nas próximas décadas – pelo menos –, a hipervolatilização mediática dos valores reúne todas as condições para continuar sendo vetor de reprodução do capital. Se assim o é, a deflação acentuada dos valores (a “contração do crédito”) não aparenta ser sequer o esgotamento de uma era no capitalismo. Ela é parte do processo de manutenção do princípio de realidade. Do ponto de vista do capital, portanto, não é crise. Sequer é a exaustão de mais um pasto, visto que, no duopólio da hipervolatilização, a deflação é o outro lado do êxtase. A deflação acentuada é apenas o pólo alternativo da encenação ritualística da hipervolatilização glocalizada dos valores. Portanto, a financeirização da economia e as crises financeiras, talhadas do início ao fim pela supremacia do desenvolvimento tecnocientífico realizada na glocalização da existência, não são a crise em si. Se há uma crise, esta é a da materialidade da existência como locus prioritário de vida.

Esta é, sem dúvida, a mais importante constatação derivada da reflexão sobre a hipervolatilização financeira glocalizada e a deflação acentuada dos valores: valorização e

desvalorização são, na vigência da hipervolatilização financeira glocalizada, o modus operandi de reprodução do capital, isto é, de transferência da riqueza social para o capital e reprodução das relações capitalistas, que atualmente se põem para além do trabalho e da produção. A deflação dos valores, com a contração do crédito, somente sela a operação.