CAPÍTULO 4. LA DISCIPLINA DISTINTIVA DE LAS MEDITACIONES:
5.4 M I ESENCIA CONSISTE ÚNICAMENTE EN QUE SOY COSA PENSANTE
5.4.1 El problema de la posibilidad no eliminada de la eminencia
Tal como a tese sobre a indústria da cultura já tornava evidente, o papel dos media em toda esta transformação é absolutamente central, constituindo um triângulo institucional do qual os outros dois vértices são as sondagens e o pró- prio processo político (parlamentos e sufrágio universal). Este alinhamento, porém, motiva uma séria inquietação: «as técnicas de pesquisa [sondagens], a política e os media interligam-se muito intimamente, mas uma interconexão tão estreita destas instituições pode resultar na erosão do seu genuíno signifi- cado democrático» (Splichal, 1999: 222).
Na posição deste autor, para além da crítica aos media, está expressa tam- bém uma insatisfação quanto às sondagens como forma de objectivação da Opinião Pública. Os ecos desta insatisfação já há muito se fazem ouvir (Al- big, 1939; Blumer, 1948; Rogers, 1949), mas só mais recentemente assumi- ram um tom mais radical, com a ideia do fim da Opinião Pública – quando esta acaba por se confundir com os próprios pressupostos das sondagens (todo o
indivíduo tem, sempre, opinião sobre tudo; todas as opiniões se equivalem; é possível, a qualquer momento, formular de modo incontroverso os termos e as questões da Opinião Pública) (Bourdieu, 1973: 222-235). Mas não podemos esquecer a justificação mais rigorosa deste enunciado, tal como o seu próprio autor faz questão: o que está em questão é um certo tipo de Opinião Pública, a das sondagens. Assim permanece em aberto a possibilidade de uma outra(s) afirmação do conceito, nomeadamente de uma Opinião Pública em contra cor- rente a este tipo de acomodação oficial, que pretende afirmar-se numa lógica contra-institucional: uma imensa rede de comunicações, que hoje em dia se torna cada vez mais facilmente disponível, e à qual o Público pode recorrer para contrariar aquelas estratégias que pretendem a sua própria clausura (Ha- bermas, 1992: 462) e para aprofundar a própria Opinião Pública (a expansão praticamente ilimitada dos públicos, a toda a humanidade, e a apropriação de novos temas e assuntos mobilizadores de carácter público) (Ferry, 1989: 21 e 22).
Sem fazer tábua rasa da crítica anterior, cabe reconhecer o papel activo que os media podem assumir nesta dinâmica, enquanto potenciais meios de circulação de resistência social – em função da natureza do bem específico que os constitui, a palavra pública (base de formação de processos de comu- nicação entre sujeitos sociais activos). Na verdade, «por muito poderosos que os media se tenham tornado, eles têm de manter alguma base de reminiscên- cia de diálogo com o público, o que significa que, apesar de tudo, neles existe sempre algum grau de abertura, uma dupla dimensão no processo de comu- nicação – quando um público activo desafia os limites do discurso político [normalizado], os media não podem ignorá-lo, sob pena de porem em perigo a sua própria legitimidade» (Hallin, 1985: 143).
Este é um outro sentido dos media, que Adorno e Horkheimer não alcan- çaram. Sentido constituído a partir da ligação dos media a uma sociedade civil activa, mobilizada na procura de novos conteúdos de modernidade para as actuais condições de desenvolvimento (Cohen e Arato, 1994: 29 e 30). Fa- lamos da Opinião Pública num sentido ainda eminentemente moderno, mas a modernidade entendida como um «projecto interminável» (mais do que um «projecto inacabado»): dado que se encontra «intimamente associada a uma ideia universalista de liberdade, ela não pode assim nunca concretizar-se em definitivo ou num sentido perfeito» (Wellmer, 1990: 250).
como um contributo essencial que os media podem trazer à Opinião Pública: contra o seu próprio estereótipo institucional, os media põem em marcha (ou simplesmente podem apoiar) «um diálogo entre os sub-públicos na esfera pú- blica cívica» (Bohman, 1996: 136), criando assim as «pontes hermenêuticas» capazes de ligar múltiplos pequenos textos (nascidos da ruptura e fragmenta- ção do grande texto institucional) e que permitem uma circulação entre esses textos e uma certa continuidade de escrita da Opinião Pública.
No horizonte de tal possibilidade, que corresponde à reafirmação da Opi- nião Pública como conceito poderoso de renovação social, está «a formação da opinião e vontade do público a partir da sua própria perspectiva, em vez da influência do público para fins de manutenção do poder político, que apenas pretende extorquir do público a lealdade de uma população reduzida a massa» (Habermas, 1992: 460).
Como era inevitável, não foi possível aqui explorar todas as linhas de dis- cussão do conceito. A própria dinâmica social se encarrega de trazer a todo o momento novos dados para a discussão do problema da Opinião Pública. Atendendo à situação tão peculiar do nosso tempo, foi à volta da dimensão eminentemente comunicacional do conceito que nos pareceu mais oportuno realizar esta breve exploração; mas também num sentido prudencial deste mesmo conceito (em termos políticos): a Opinião Pública como um processo de comunicação ao serviço da sociedade, para dar corpo à vontade colectiva e que tem em vista influenciar (apenas) a decisão política. Um sentido mo- desto, questionarão alguns – tal a dimensão dos desafios que um mundo cada vez mais administrado coloca (e ao qual corresponde uma Opinião Pública informe e funcionalmente instrumentalizada). Mas talvez não assim tão mo- desto, se pensarmos na Opinião Pública perspectivada como meio de uma radicalização democrática da nossa vida política, ao serviço da «expansão da liberdade e igualdade sociais, da reestruturação e democratização do Estado» (Keane, 1988: 114) – bem pelo contrário, será mesmo um sentido do conceito extremamente audaz, pelas possibilidades que abre de uma profunda alteração das condições de governabilidade das nossas sociedades.