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Vetor 2 - discutir a aplicabilidade do conceito de forma da Psicologia da Gestalt às idéias neurocientíficas, tal como Merleau-Ponty o fez com a fisiologia. Na verdade, um passo anterior se faz necessário, que seria analisar em que medida o emprego desse conceito já se encontra no pensamento neurocientífico.

Uma vez que parece ter sido fundamental para o pensamento de Merleau-Ponty em seu livro “A Estrutura do Comportamento” empregar e discutir o uso do conceito de forma da Psicologia da Gestalt, pretende-se analisar no pensamento neurocientífico se há indícios desse conceito. O uso do conceito de forma para pensar o sistema nervoso e suas relações com o comportamento foi muito eficiente para o pensamento do filósofo, tal como apresentado no primeiro capítulo46.

Considera-se apropriado resgatar, em linhas gerais, a definição desse conceito e a razão de seu emprego no estudo do sistema nervoso pelo filósofo. O conceito foi criado para tratar de sistemas denominados totais, para os quais as suas partes são consideradas interdependentes, ou seja, quando uma parte do sistema sofre uma modificação todas as outras também se modificam buscando manter as relações conservadas, essa propriedade é conhecida por auto-organização. O princípio mais conhecido do conceito diz sobre a impossibilidade de igualar o sistema total com a soma de suas partes componentes. Em alguma medida, situa-se no mesmo movimento de se opor a metodologia de decompor e isolar. Para o filósofo o sistema nervoso corresponde a um sistema total, por isso acreditou que seria valioso pensá-lo sob o olhar desse conceito.

Quando se analisa os assuntos apresentados no segundo capítulo, a perspectiva de Damásio sobre as lesões corticais traz fortes indícios da presença dos ecos desse conceito. Utiliza-se a idéia de eco, pois não foi possível encontrar nenhuma citação direta ao conceito, entretanto, a estrutura do seu pensamento parece trazer implícito o mesmo. No tópico anterior, o esforço em mostrar a presença da análise ideal no pensamento de Damásio contribui à argumentação aqui pretendida. Naquele momento foi dito que a consideração do sistema nervoso como um todo, onde as partes se encontram em relação de interdependência já indica que alguma influência do conceito de forma da Escola da Gesltat permanece ecoando na neurociência.

Outro ponto interessante a ser abordado diz respeito à possibilidade de reorganização do sistema nervoso após uma modificação de uma de suas partes, como no caso de uma lesão cortical. Essa análise foi conduzida por Merleau-Ponty e apresentada no primeiro capítulo47. Como foi apontada naquele momento, a busca por indícios de reorganização do sistema nervoso estaria em acordo com a concepção deste em termos do conceito de forma, especialmente em sua dinâmica orientada ao equilíbrio funcional.

O estudo da reorganização neural em neurociência parece ser o mais apropriado para analisar esse ponto. O sistema nervoso concebido como um sistema dinâmico passa por modificações constantes devido ao fenômeno da plasticidade. Assim, cada input sensorial e cada atividade motora produzem o fenômeno no sistema nervoso. Esse ponto parece ser favorável à tentativa de encontrar ecos do conceito de forma. No segundo capítulo, apresentaram-se algumas idéias do artigo de Teixeira (2008) sobre reorganização neural que defendiam essa visão de que a mudança plástica do sistema nervoso é contínua, assim, sua ocorrência após uma lesão não seria a novidade, mas apenas uma propriedade permanente, inclusive executada em cada sensação ou movimento. Retomando a idéia de autodistribuição presente no conceito de forma, fica evidente a possibilidade de especular a presença implícita desse conceito no desenvolvimento do conceito de reorganização neural.

Entretanto, é preciso ressaltar que frente a uma lesão, a reorganização nem sempre é funcional ou observável comportamentalmente48. A neurociência explica os casos de pacientes com sensações fantasmas de membros amputados pelo princípio da reorganização neural das áreas somestésicas inativadas após a perda do membro (LENT, 2010, DAMÁSIO, 1996). Uma vez que as sensações podem ser relatadas como um sintoma e podem ser acompanhadas de dores fantasmas, este fenômeno do membro-fantasma se caracteriza por uma reorganização não-funcional.

Um ponto que chama a atenção é a possibilidade do processo de reorganização gerar um arranjo disfuncional. Ao tê-la em consideração, seria possível supor que esses processos não sejam orientados pelo valor biológico de Damásio, entretanto, poderiam continuar orientados pelo sentido biológico proposto pelo filósofo. Para o primeiro, a meta final é a manutenção dos processos vitais e a reorganização neural não-funcional pode dirigir-se contrariamente a meta. Enquanto ao segundo, antes de possuir uma meta, importa o horizonte das experiências do organismo condensadas numa matriz de significações, “o campo prático”

47 Cf. no primeiro capítulo p. 31-32.

48 Vale lembrar que é possível haver reorganização neural observável por imageamento cerebral, entretanto sem

(MERLEAU-PONTY, 2006b, p. 122) no qual os atos ganham seus sentidos. Este assunto será aprofundado no quarto capítulo com o estudo do fenômeno dos membros-fantasmas.

Retomando a proposta desse tópico, verifica-se que nos autores pesquisados da neurociência o conceito de forma não se encontra em aplicação de modo direto e explícito, entretanto, foi possível mostrar que ao menos implicitamente há indícios de seus ecos no pensamento neurocientífico.