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1 INTRODUCTION AND POSITIONING

1.3 Problem definition

ESTABILIDADE

Examinamos a indústria brasileira de transformação, do mesmo modo, que a partir de dados gerais – sobre a estrutura de custos / despesas e receitas – procedemos em relação à indústria brasileira de calçados. Contudo, até então, não nos detivemos em examiná-las num quadro conjuntural mais amplo, suscetível de, pelo menos captar, com dada simplificação, as mudanças experimentadas e vivenciadas pela economia brasileira na década de 90, sobretudo pelo período compreendido entre os anos de 1994 até o ano de 2002, para não divergir do período em que a indústria de calçados também foi submetida à apreciação.

A conjuntura que se instalou na economia brasileira, a partir de 1994, marcou a transição da economia da era da inflação com proteção dos anos oitenta, para uma nova fase, na qual, entre outros objetivos da política econômica, podemos, com certa notoriedade, identificar a questão da estabilidade com abertura comercial.

No quadro vivido pela economia brasileira na década de 80, de economia fechada ao exterior e vigência de taxas elevadas de inflação, “as firmas possuem um viés altista na determinação dos markups desejados. A pressão altista exercida sobre o nível dos markups desejados pode ser explicada pela existência de uma assimetria na percepção privada do ônus implícito associado ao risco de uma empresa em cometer uma avaliação equivocada – para cima [risco de renda] ou para baixo [risco de capital] – sobre a evolução futura dos preços das mercadorias requeridas para promover a reposição do nível desejado de estoques. [...] Em outras palavras, dada a grande volatilidade das principais variáveis macroeconômicas durante os anos 80, as empresas eram compelidas a constantemente remarcar para cima suas previsões quanto à evolução futura dos seus próprios preços, sob pena de incorrer ou no “risco de capital” ou no “risco de renda”. Aos olhos das empresas privadas, os prejuízos associados ao “risco de capital” tendiam a superar, no contexto dos anos 80, o “risco de renda” decorrente das decisões de preços que tinham de ser tomadas em curtos períodos de tempo, enquanto prevaleciam a instabilidade do cenário macroeconômico e o desconhecimento do futuro, favorecendo a opção por um comportamento defensivo e altista dos markups desejados.55.

55CARDORSO JR. no que trata do risco de capital e do risco de renda oferece-nos a seguinte explicação: “No primeiro caso, a empresa arcaria com uma perda patrimonial real decorrente de uma política de remarcação de preços que teria subestimado a evolução futura dos preços de seus insumos e demais componentes de consumo intermediário. No segundo caso, a empresa obteria um nível de lucros correntes inferior ao esperado devido a uma política de remarcação exagerada de seus próprio preços vis-à-vis a evolução dos preços dos concorrentes, podendo dar origem inclusive a uma perda temporária de seu markt share. (CARDOSO JR., op cit., p. 42).

De fato, o próprio ambiente macroeconômico que se instalou no Brasil, durante os anos oitenta, induzia os agentes econômicos, os produtores, a remarcarem para cima das expectativas inflacionárias, os preços dos produtos. Em razão das incertezas e também da própria volatilidade da economia. Somados a isto, é preciso incluir no rol dos problemas econômicos que, a economia brasileira, independentemente do grau de sua respectiva abertura (medida pela média da soma dos percentuais das exportações e das importações sobre o produto interno bruto), contava com certo protecionismo por parte de medidas adotadas na esfera do governo federal, tais como, Lei da Similaridade Nacional, Lei de Reversa de

Mercado etc; e outros expedientes (como é o caso do das desvalorizações cambiais) que

estimulavam as exportações e inibiam as importações. Aliás, o estímulo às exportações e as restrições às importações decorria da imperiosa necessidade de geração de saldo comercial positivo (exportação menos importação) indispensável para o enfrentamento da crise externa, na qual se encontrava a economia do país. Por sua vez, o próprio circuito no qual se inseriu a economia brasileira nos anos oitenta, como resultado das elevadas taxas de inflação, permitiram que a moeda em curso no país (CR$), face ao movimento geral dos preços, sofresse contínua correção do seu respectivo valor nominal, resultando, deste modo, por parte do governo federal, da adoção no âmbito da política econômica, de uma política de desvalorização56 da própria moeda frente a outras moedas. Assim, em razão da prática de políticas monetárias e cambiais, entre outras, caracterizadas pela adoção do expediente de desvalorização, passaram a estimular o setor externo da economia, mesmo porque, pelo fato da moeda nacional (CR$) configurar continuada depreciação do seu valor, a mesma, ao tornar-se

56 DESVALORIZAÇÃO: Redução oficial do valor real da moeda de um país em relação a moedas

estrangeiras. Na maioria dos casos, essa operação tem o objetivo de eliminar o déficit acumulado no balanço de pagamentos por meio de mecanismos de depreciação cambial. Decidida pelas autoridades monetárias, essa medida tem efeito de tornar mais caras as importações, inibindo-as, e de estimular as exportações, uma vez que o exportador recebe mais unidades de moeda nacional para cada unidade de moeda estrangeiras convertida à nova taxa de cambio. Além disso, a desvalorização tende a produzir fortes pressões inflacionárias. (SANDRONI, op. cit., p. 172.)_

mais barata frente a outras moedas – sobressaindo as moedas de economias mais estáveis e industrializadas, ou seja, do mundo desenvolvido – acaba ficando mais competitiva (no caso, referimo-nos ao conceito de competitividade tradicional baseado principalmente na redução dos custos da produção), tornando-se por sua vez, mais atrativa, traduzindo-se na forma de estímulo à importação por parte de outros países, conseqüentemente promovendo a expansão das exportações da economia cuja moeda fora depreciada.

Contudo, da mesma forma que a desvalorização da moeda produz efeitos significativamente benignos para a economia, no sentido do aumento das exportações (emprego, renda, saldo comercial etc) provoca efeitos também significativamente perversos. Pois, pelo fato da desvalorização da moeda torná-la mais barata em relação a outras moedas estrangeiras, as importações acabam por sua vez, ficando mais caras. Diante disto, o encarecimento das importações, pode inviabilizar a aquisição de máquinas e equipamentos (bens de capital) mais modernos e tecnologicamente mais sofisticados do exterior. Isto, em muito contribuiria negativamente, para que economias atrasadas (em termos de tecnologia) e, dependentes da importação desta categoria de produtos possam melhorar a sua competitividade e, ao mesmo tempo, em razão da obsolescência , (das maquinas , equipamentos) manterem-se de alguma forma atualizadas.

TABELA 37: Brasil, PIB, exportações e importações (em US$ bi) e grau de abertura da

economia segundo décadas – 1950 a 1999

DÉCADAS PIB (US$ BI) EXPORTAÇÃO