C.2. COEFFICIENTS
C.2.1 Probabilities
Quivy e Campenhoudt (1992) apresentam as linhas genéricas de abordagem a projectos de investigação em Ciências Sociais cujas etapas são descritas na Figura 1.
Figura 1 – Linhas Genéricas Orientadoras de Projectos de Investigação em Ciências Sociais
No nosso caso, por conveniência do percurso de investigação, essa abordagem foi desdobrada e refinada de acordo com a Figura 2.
Figura 2 – Percurso de Investigação
Uma identificação preambular da complexidade do problema autorizou a selecção da abordagem sistémica e a opção metodológica pelo estudo de caso. Estas escolhas, que os
Análise inicial de dados e indícios
Definição de objectivos e trabalho exploratório Enunciação do objecto de investigação 1 Questões de partida e modelo preliminares 2 Exploração preliminar do objecto Definição de níveis contextuais 4 Clarificação metodológica prévia 3
Formulação do Projecto de Investigação Definição da opção epistemológica 5 Exploração teórica de temas 6 Questões e proposições do estudo 7 Unidade de análise 8 Clarificação metodológica 9
Execução de Estudo de Caso Estrutura da investigação 10 Recolha de Dados Realização de trabalho de campo 11 Relatório e Conclusões 12 Documento final da dissertação 13 Fonte: adaptado de Quivy e Campenhoudt (1992, p. 24, 90 e 108)
Construção do Modelo de Análise Pergunta de Partida
Exploração Problemática Observação Análise das Informações
A descrição, que adiante se expõe, permite ilustrar um percurso em que a caracterização do problema de investigação e os meios postos em marcha caminham a par. A coerência desta opção, que desenvolveremos nos pontos seguintes, é determinante para a validação dos resultados.
No percurso de investigação podem ser identificadas duas fases. Uma primeira fase com uma ênfase indutiva, em busca de conceitos operatórios isolados (Quivy e Campenhoudt, 1992, p. 124) e que sublinha a necessidade de “definir o problema” Creswell (1998, p. 94), oferecendo modelos e questões preliminares, para uma exploração posterior mais aprofundada. Neste caso, embora pudessem estar subjacentes, as relações entre conceitos não foram trabalhadas. Numa segunda fase, de destaque dedutivo, um sistema de análise foi desenvolvido com as características descritas nos próximos pontos.
A. Análise inicial de dados e indícios
Para dar seguimento a este propósito, numa fase anterior à apresentação formal do projecto de investigação, foi criada uma grelha de recolha de dados, isto é, foram identificadas as principais fontes de informação, sobre as quais passou a incidir uma atenção e uma recolha sistemáticas. A parte principal dos documentos recolhidos encontra-se descrita em anexo (Tabela 179, p. 538 e Tabela 180, p. 542). De um modo geral, integram esta lista os principais jornais da região, os sites das organizações locais, o site do grupo PSA, diversos jornais especializados (Automotive News, Automotive News Europe), os serviços de clipping (just- auto, autoindustria), as bases de dados e os serviços ARDÁN Galicia (Zona Franca de Vigo) e diversos documentos oficiais ou encomendados por entidades oficiais.
A partir desta recolha emergiram estratégias de descodificação, ou seja, metodologias destinadas a construir uma imagem da rede de instrumentos e de relações estabelecidas a nível regional, espanhol e macroregional, a extrair dos discursos, ou das suas referências na imprensa, a essência subjacente à espuma dos dias e a interpretar o restante material informativo de acordo com um propósito extensivo. Deste trabalho emergem resultados de natureza mais monográfica do que interpretativa.
B. Definição dos objectivos e trabalho exploratório 1. Enunciação do objecto de investigação
Na realidade, trata-se de uma decisão a partir da qual se delimita o objecto a ser investigado, o que, no essencial, requer que se avalie se existe material novo para investigação, se o investigador está habilitado, ou poderá desenvolver competências, para o tratar e se, com uma
probabilidade razoável, poderá vir a dispor dos meios e das vias de acesso ao objecto de investigação. Esta fase contemplou uma auto-avaliação do autor, que envolveu, quer o seu
background e trabalho anterior, quer contactos preliminares com actores-chave identificados.
2. Questões de partida e modelo preliminares
No momento da apresentação da proposta de projecto doutoral em 2002, foram colocados, embora com uma estruturação e uma sistematização ainda fracas, quatro campos de abordagem: 1) as mudanças estruturais na indústria, contemplando a consolidação, a desverticalização e a integração de mercados; 2) a reconfiguração da indústria e as novas condições de operação, com particular relevo para a estrutura de produto, a externalização e a transferência de responsabilidades; 3) as redes inter-organizacionais regionais, consideradas espaços de implementação de estratégias e de adaptação estrutural e 4) os novos padrões de internacionalização e a importância do IDE na definição de estratégias empresariais viáveis. Neste último caso, área em que os atributos nacionais interagem com a dinâmica global produzindo resultados particulares, situação que aponta para a globalização entendida como um processo com potencial para produzir diferenciação e novas especializações.
3. Clarificação metodológica prévia
O resultado das fases anteriores autorizou uma primeira clarificação metodológica – estudo de caso – desenvolvido em torno do cluster da Galiza e dos processos de especialização da indústria automóvel espanhola.
4. Exploração preliminar do objecto e definição de níveis contextuais
Esta avaliação decorreu em duas grandes etapas. Em primeiro lugar, foi realizado um levantamento exaustivo da informação disponível sobre a PSA e o cluster através do recurso a fontes secundárias (Tabela 179, p. 538 e Tabela 180, p. 542, em anexo).
A análise permitiu conhecer em profundidade a constituição e a evolução do cluster da Galiza e do grupo PSA, incluindo a história e o desenvolvimento da indústria em Espanha.
Ao nível do cluster da Galiza, foi constatada a criação e o desenvolvimento de um quadro institucional complexo. Tal facto prende-se com o estabelecimento de uma estratégia
é possível constatar uma forte progressão da produção de componentes, em particular na componente exportadora. Esta etapa deu lugar à produção, no essencial, de três deliverables: o relatório entregue em 2003, o artigo apresentado em 2004 à Conferência do GERPISA e o artigo publicado em 2005 (cf. bibliografia).
Em segundo lugar, procedeu-se à definição do enquadramento internacional e industrial do objecto de investigação. Esta tarefa permitiu clarificar, parcialmente, as grandes questões de enquadramento, em particular:
a) A definição da macroregião europeia como a fronteira do objecto de investigação mais abrangente, ou seja, o sistema a partir do qual é possível estabelecer as relações de interdependência entre subsistemas. Esta definição reflecte a existência de três macroregiões, a nível mundial, de integração de mercado e de produção. Além desta Tríade, existem outros mercados e espaços de produção emergentes;
b) As características da integração macroeuropeia:
− a expansão geográfica de mercados e de sistemas produtivos periféricos: primeiro a Oeste e Sul e em seguida a Leste;
− a hierarquização e a especialização de trabalho, segundo critérios de mercado, de recursos e custos e de conhecimento;
− a permanência dos espaços nacionais como elementos de referência: − na localização de actividades e na especialização produtiva; − na caracterização de mercados;
c) a existência de um subsistema espanhol, com características e papel específicos.
C. Formulação do projecto de investigação 5. Definição da opção epistemológica
A definição da opção epistemológica resulta de uma avaliação, realizada pelo investigador, sobre a pertinência do modelo, a capacidade, os meios e o acesso às fontes que tem ou julga poder vir a usufruir durante o processo. Neste ponto da construção do percurso de investigação, avaliando os elementos caracterizadores do objecto inserido nos diferentes níveis contextuais, torna-se viável identificar as linhas gerais que a epistemologia deve satisfazer. Deste modo, uma abordagem sistémica e dinâmica, cujo detalhe e defesa são desenvolvidos no ponto 2.2, emerge como a opção que satisfaz as exigências do problema de investigação. Esta escolha avaliza a definição, nesta fase de desenvolvimento da macroregião,
definida como sistema integrador, de três tipologias de dispositivos de investigação, articulados de forma sistémica:
a) Um dispositivo de nível territorial nacional. Este nível é considerado com suporte no acesso e na análise de dados de comércio internacional e na especificidade das estratégias empresariais;
b) Um dispositivo de base empresarial, que viabiliza modelação, quer dos processos de expansão internacional de actividades, quer das estratégias de negócio, de OEM e de fornecedores, específicas da indústria automóvel;
c) Um dispositivo de nível regional, que possibilita o estudo da implantação, da hibridação e do desenvolvimento dos processos de investimento e da sua interacção com os actores-chave regionais / locais.
6. Exploração teórica de temas
A escolha dos temas teóricos a serem abordados resulta da caracterização preliminar que foi realizada e da definição dos dispositivos de investigação anteriores.
Assim, a Dinâmica Industrial, tema tratado no ponto 3.1, aponta-nos os elementos mais importantes do processo de adaptação industrial: a natureza da actividade económica e a ligação da dinâmica da oferta ao crescimento económico; o nível e o tipo de interdependência entre empresas; a função da mudança tecnológica e da dinâmica institucional; e o papel da política industrial.
O ponto 3.2 enuncia os arquétipos contemporâneos de comércio internacional e integra, igualmente, num segundo ponto, os modelos de impacto nas localizações. Estes aspectos são indispensáveis para a caracterização macro, quer da especialização produtiva dos espaços em análise, quer das variáveis de input e de output.
No ponto 3.3 é equacionado o papel do Investimento Directo Estrangeiro – IDE – na perspectiva da internacionalização da empresa e a sua articulação: 1) com as estratégias de produto; 2) com as escolhas da localização que combinam as vantagens competitivas da empresa, os factores específicos de localização e os benefícios da produção internalizada; e 3) com os modos de desenvolvimento das MNC como redes de actividades integradas, as quais
compromissos de governança tentativamente estabelecidos para as implementar. Os formatos estudados ocupam-se do modelo específico das OEM da indústria automóvel que inclui a organização e a dinâmica interna, a estratégia e a oferta, e os aspectos dos compromissos da empresa que tomam forma para que estas se tornem viáveis nos espaços socioeconómicos pertinentes.
As dinâmicas e as interacções subjacentes ao desenvolvimento de clusters são abordadas no ponto 3.5, em que são enumerados os processos de construção das vantagens competitivas e salientadas as especificidades do caso em análise: unidade de MNC integradora / produtora de bens finais, determinante no estabelecimento dos formatos das interacções locais / regionais. No último ponto do capítulo dos campos teóricos envolvidos (3.6) são abordados, no campo específico da indústria automóvel, os processos de ajustamento que ocorreram para implementar um modelo de negócio exógeno a uma configuração socioeconómica, cujas características sejam diferentes das existentes na origem.
7. Questões e proposições do estudo
De acordo com a definição dada por Yin (1989), a realização de estudos de caso é a estratégia de investigação mais apropriada para o objecto do presente trabalho. Esta escolha é suportada e explicada pelas seguintes razões:
a) Porque é a estratégia mais adequada para questões do tipo “como”, “quais” e “porquê”, procurando explicações ou explorando vias de desenvolvimento;
b) Porque tem em conta o papel crucial do padrão e do contexto na procura de conhecimento e assegura a capacidade para lidar com um conjunto elevado de variáveis potencialmente explicativas;
c) “Os estudos de caso, como as experiências, são generalizados através de proposições teóricas e não para populações ou universos. Neste sentido, o estudo de caso, como as experiências, não representa um conjunto” (op. cit., p. 11). O objectivo da investigação é expandir e generalizar teorias explicativas, no âmbito da generalização analítica, e não enumerar frequências de acontecimentos, caso em que a generalização estatística estaria contemplada;
d) Suportados por uma estrutura teórica e por uma clarificação metodológica, os estudos de caso podem ser fontes importantes para o enriquecimento do conhecimento sobre o objecto de análise;
e) Se objecto de uma definição abrangente, que adoptamos, o estudo de caso integra fontes de informação de características quantitativa e qualitativa e de distinta natureza para estabelecer o encadeamento explicativo.
No âmbito dos estudos de caso, a estratégia de investigação deve incluir quatro3 componentes (Yin, 1998, p. 20): 1) as questões de estudo; 2) as proposições de estudo, definidas como proposições que direccionam a atenção para algo que deve ser examinado no âmbito do estudo, uma vez que, por vezes, as questões de estudo se revelam insuficientes; deste modo, as proposições, de natureza complementar, “forçam” a investigação a seguir uma determinada direcção; 3) a(s) unidade(s) de análise, cuja definição está relacionada com a forma como a questão inicial foi formulada e 4) os critérios para a interpretação dos resultados da investigação e os formatos da sua ligação às proposições.
Nesta fase do percurso, as questões e as proposições de estudo devem contribuir, simultaneamente, quer para uma síntese do conhecimento existente, quer para uma orientação sobre a trajectória a seguir. Os assuntos abordados anteriormente permitiram-nos ter uma visão razoavelmente desenvolvida sobre a realidade existente e sobre o modo de definir o problema e de equacionar a sua necessidade. Deste modo, embora não estejamos em presença de um estudo de raiz comparativa, as suas conclusões podem apontar caminhos para a indústria portuguesa, inserida nos mesmos níveis contextuais, ibérico e europeu, mas divergindo na tipologia das maiores OEM instaladas e no ambiente local / regional existente. O percurso realizado permite-nos refinar as nossas questões de investigação:
1. Qual é o papel da indústria automóvel espanhola na dinâmica macroregional? 2. Como se realizou e quais foram os elementos principais do processo de adaptação?
3. Como se articularam as estratégias empresariais e regionais, presentes no cluster da Galiza, com estes formatos de ajustamento?
Estas questões são, no entanto, insuficientes para direccionar o percurso de investigação. De forma complementar, em face do identificado até esta fase, é ainda possível estabelecer as seguintes proposições:
b) A PSA e os actores-chave regionais desempenham papéis decisivos no desenvolvimento de uma articulação diferenciada entre os níveis macro e micro, conferindo ao cluster da Galiza características particulares na forma como o ajustamento se realiza. Contudo, esta última asserção pode ainda ser desenvolvida nas seguintes direcções:
− os processos de adaptação regionais viabilizam a produção de veículos competitivos no quadro do posicionamento da PSA na macroregião;
− estes processos, que emergem nas áreas: 1) das relações laborais, 2) da organização da produção, interna e externa, e da interacção entre actores; e 3) no âmbito das iniciativas políticas e industriais endógenas à região, devem revelar um nível de congruência suficiente; − aos compromissos construídos deve corresponder a uma condição de dupla viabilidade, interna e externa, da unidade local da PSA.
Embora assente num contexto histórico-evolutivo4 mais amplo, que é objecto de análise mais detalhada no âmbito do cluster, do Estado Espanhol e do percurso empresarial da PSA, vamos estabelecer o “focus” da investigação no período entre 1995 e 2005. Este intervalo de tempo é relevante, quer ao nível da macroregião, quer dos subsistemas cujo comportamento é objecto de análise e viabiliza a articulação com a dinâmica dos espaços mais alargados.
8. Unidade de análise
O conjunto das considerações anteriores autoriza a redefinição do título da dissertação para “A Espanha e o Cluster da Galiza na Dinâmica Macroeuropeia da Indústria Automóvel: 1995 a 2005”. Esta opção define de forma clara as características do estudo de caso: processos de ajustamento que ocorrem ao nível do Cluster e da indústria espanhola como formatos de integração, industrial e de mercado, na macroregião europeia.
C. Execução do Estudo de Caso
Ao contrário de algumas definições restritivas da noção de estudo de caso, na nossa abordagem emerge uma concepção de estratégia de investigação que procura, acima de tudo, encontrar fontes múltiplas de provas e dados e estabelecer ligações entre os vários níveis contextuais e as acções dos actores-chave.
Yin (op. cit., p. 80), descreve seis fontes de prova: a documentação, os arquivos, as entrevistas, a observação directa e os objectos físicos. No essencial, Yin (ibid.) recomenda uma utilização múltipla com vista a obter linhas convergentes de investigação. A triangulação, como refere, destina-se, do mesmo modo, a resolver problemas potenciais no
âmbito da validade de construção, uma vez que disponibiliza diversas fontes para a avaliação do mesmo facto.
O trabalho de campo incluiu a estadia do autor na Galiza por duas vezes, em períodos de tempo alargados. Estas estadias destinaram-se a recolher material de investigação, dados e documentos e a realizar diversas entrevistas com actores-chave. A Tabela 181 (p. 545, em anexo) apresenta os pontos principais de abordagem das entrevistas.
Estes encontros tiveram lugar durante esses dois períodos, em diversos momentos, e, com alguns dos entrevistados, em múltiplas ocasiões. As entrevistas foram realizadas num formato semi-estruturado. Os actores de política pública, os fornecedores, a PSA, a Universidade, o CEAGA e o CTAG foram os alvos destas entrevistas.
Embora os fornecedores tivessem sido segmentados em subgrupos alvo, de acordo com a origem do capital e a tipologia de produtos ou serviços, não foi possível realizar entrevistas personalizadas, embora tenha sido recolhida informação específica de cada uma das empresas. Deste modo, estes contactos foram delegados em António Vega, proprietário da empresa VIZA e presidente do CEAGA.
Vários quadros e responsáveis do CEAGA, como Israel Pérez e Alberto de Cominges, participaram de forma empenhada na concretização deste estudo, uma vez que disponibilizaram dados, debateram questões e fizeram recomendações.
Pedro Merino, anterior5 Director Xeral de I+D+i, responsável pela elaboração da primeira versão do Plan Galego de I+D+i, 2006-2010, e professor na Universidade de Vigo foi, igualmente, entrevistado.
Luís Moreno, Director-Geral do CTAG, foi outro dos intervenientes a ser entrevistado e forneceu-nos a sua visão sobre o sector e o papel do CTAG na sua evolução.
Castro Varela, director de Promoción e Innovación do IGAPE, disponibilizou-nos o seu tempo para a discussão dos aspectos referentes ao Instituto e para nos relatar a sua perspectiva sobre o desenvolvimento da indústria automóvel na Galiza.
Por último, Javier Riera, responsável do Centro de Vigo da PSA, e um actor-chave indispensável na abordagem do cluster e do desenvolvimento regional, foi igualmente objecto
As entrevistas6, que se realizaram todas num ambiente de grande cordialidade e franqueza e que ultrapassaram sempre o tempo previsto inicialmente por disponibilidade adicional dos entrevistados, foram gravadas7.
Com Jose António Orza, anterior Conselleiro de Economia e Facenda, foram trocados diversos contactos e informações, mas a entrevista não se chegou a realizar por desfasamento, mútuo, de agenda.