A criança 3 tem 11 anos de idade é do sexo masculino. Foi internado no hospital devido a uma infecção no rim e estava acompanhado da mãe. Já estava internado há dois dias quando foi feita a entrevista inicial. A criança estava na sala de recreação e não quis sair dali, mas concordou em participar da pesquisa e a entrevista foi realizada ali mesmo, na sala.
3.1) Entrevista semi-estruturada:
Na entrevista, o sujeito falou que sabia estar no hospital por conta da infecção no rim. Disse que essa é a primeira vez que vai a um hospital e o achou “bacana”. Ao ser perguntando sobre o que ele tinha de “bacana”, respondeu que eram as brincadeiras, a convivência, com os enfermeiros e outros pacientes. Disse que ali era o ambiente que mais gostava de ficar no hospital (a sala de recreação) e acredita que brincar ajuda a se recuperar a saúde. Disse que é bom porque distrai e quando as pessoas estão com raiva vão ali (na sala) e até esquecem que estão doentes. Ao contrário das duas primeiras crianças, a criança 3 já relata a satisfação em estar interagindo com outras crianças e com os funcionários do hospital.Foi no jardim do hospital no dia anterior, mas estava chovendo. Só olhou da porta, porque estava tudo molhado. Ao ser perguntado se gostaria de voltar lá, prontamente disse que queria. Que gostou do jardim e o achou bonito. Não soube dizer que faltaria alguma coisa lá porque não chegou a entrar e não quis responder por achar que falaria algo que já tem e não viu. Disse que não tiraria nada do que viu no jardim e encerrada a entrevista combinamos um horário no período da tarde para a observação no jardim.
3.2) Observação no jardim do hospital:
A observação foi realizada no mesmo dia da entrevista, com início às 15 horas. O dia estava nublado, não fazia sol, mas a temperatura era agradável.
A pesquisadora os esperou no jardim, conforme combinado ao término da entrevista, e às 15 horas em ponto o paciente e sua mãe compareceram ao jardim e iniciou-se a observação.
Os dois entraram e foram para o canto esquerdo. A mãe ficou de pé ao lado do banco e a criança sentou-se no banco e ali ficou por cerca de 10 minutos, sem falarem nada, apenas cumprimentaram a pesquisadora ao chegar. Depois o garoto se levantou e começou a caminhar pelo jardim, como pode ser visto na figura abaixo:
Figura 4: Mapeamento da criança3 no jardim do hospital no período de observação.
Pôde ser notada a alegria da criança em estar em um espaço aberto, quando disse que o jardim é pequeno mas só de estar aqui fora é tão bom. Fica registrado o bem-estar físico que o ambiente lhe proporcionou. O “estar do lado de fora” denota o efeito reforçador de sair do ambiente fechado que é o hospital, que apesar de ter uma estrutura que provoca uma sensação de amplitude, ainda assim é um lugar fechado.
Rodeou o canteiro de pedrinhas de baixo, tocando-o por toda a volta e elogiando o fato de estar do lado de fora do hospital. Disse que adora “cheiro de mato”. Depois subiu e entrou no outro canteiro, onde tem um vaso com uma planta. Ficou lá por cerca de cinco minutos parado, elogiou o cheiro do jardim novamente e tocou na planta, alisando suas folhas. De onde estava voltou até o banco onde estava sua mãe e os dois resolveram voltar para o quarto.
Foram feitas as questões referentes jardim novamente, até porque da primeira vez ele não as respondeu por não ter tido um contato mais direto com o jardim por conta da chuva. Sobre o que ele gostaria de tirar, disse que tiraria a cesta de basquete e que isso deixaria o jardim mais bonito. Queria colocar uma árvore no lugar da planta que está dentro do canteiro e trocá-la de lugar, segundo ele para o lugar da cesta de basquete que ele retiraria do local. Foi oferecido papel e lápis coloridos para que desenhasse o jardim como ele gostaria que fosse, mas não se interessou.
Antes de subir ele contou que o médico havia dado alta a ele. Foi pedido então que concluísse a pesquisa, respondendo o inventário de qualidade de vida naquele momento e foram os três para o quarto para fazê-lo.
3.3) Resultados da Escala de Qualidade de Vida:
Os exemplos dados pela criança estavam diretamente relacionados a sua situação no hospital. Como “muito infeliz” foi colocado como exemplo achar que poderia morrer. Como exemplo de um momento em que ficou “infeliz”, colocou que “ficar internado, sem ver os amigos” não era bom. Disse que fica “feliz” quando vê que está melhor de saúde e “muito feliz” quando o médico deixou ele ir para casa (alta).
Neste caso, os resultados dos 4 fatores foram relativamente semelhantes. A criança colocou grande número de respostas como “feliz”, apenas marcando “infeliz” apenas na questão 12, sobre fazer lição de casa a 20, quando toma remédios. Marcou “muito feliz” para as questões 18 (quando alguém pede que mostre alguma coisa que você sabe fazer) e na 27, a questão acrescentada, sobre quando está no jardim do hospital - ele colocou que fica muito feliz e desejou boa sorte na pesquisa, pedindo que outros hospitais tivessem jardim também.
O Total do escore desse paciente foi de 51. Para poder afirmar que tem uma boa qualidade de vida teria que fazer mais de 52 pontos.
3.4) Análise geral da criança 3
Foi interessante constatar que a criança 3tem uma percepção da sua saúde e do que lhe faz bem. Na entrevista já colocou a satisfação em estar interagindo com outras
crianças e com os funcionários, como os enfermeiros. Também é uma criança que elegeu a sala de recreação como ambiente favorito. Percebe também que as atividades de recreação distraem as pessoas, fazendo com que elas “esqueçam que estão doentes” e está aí o efeito das brincadeiras no bem-estar dentro do hospital.
No jardim também foi constatado o bem-estar percebido por ele, quando diz que apesar do tamanho pequeno já é bom ficar do lado de fora. A mudança de ambiente é reforçadora para ele.
Na escala, novamente relatou a necessidade de estar entre amigos, dizendo que fica infeliz ao estar internado porque não vê os amigos. Deixamos marcado mais uma vez a pouca freqüência de pessoas no jardim do hospital, principalmente comparada ao grande número de crianças que vão à sala de recreação no horário indicado. Talvez atividades programadas no jardim garantam um número maior de crianças no local.