1. Introduksjon
1.6 Prinsipp for metoder
ANÁLISE:
Essa postagem é realizada no dia em que o pastor da Igreja Assembleia de Deus Marco Feliciano (PSC42-SP) é indicado por seu partido para presidente da Comissão dos Direitos Humanos da Câmara dos Deputados do Congresso Nacional, o que gerou grande repercussão em todo o país, em razão das declarações polêmicas (consideradas homofóbicas, racistas e misóginas) que o pastor fez em suas pregações religiosas (reproduzidas no Youtube), as quais não ocorreram no cenário político, e em seu perfil no Twitter43. A eleição propriamente dita que o nomeará presidente somente ocorrerá dois dias depois dessa postagem (07 de março), realizando-se após retirarem-se da sessão que o elegeria presidente os deputados Domingos Dutra (PT), Erika Kokay (PT), Jean Wyllys (PSOL), Luiz Couto (PT-PB) e Luiza Erundina (PSB), por considerarem a indicação do pastor contraditória em relação aos objetivos da Comissão de Direitos Humanos. O pastor foi eleito por 11 votos a favor e um em branco pelos doze parlamentares que permaneceram na sessão44. Essa postagem humorística, na verdade, traz 11 motivos ilustrados para se amar o pastor Marco Feliciano. Cada motivo é referenciado ou por um vídeo do youtube (contendo pregações do pastor em que ele faz declarações polêmicas) ou imagens dele ou de suas postagens polêmicas no seu perfil do Twitter.
O primeiro motivo traz o suporte imagístico de uma postagem do pastor no Twitter45:
Figura 17
42 Partido Socialista Cristão.
43 Endereço do perfil do Twitter do pastor Marcos Feliciano: https://twitter.com/marcofeliciano. Acessado em 28 de outubro de 2013.
44Fonte: http://g1.globo.com/politica/noticia/2013/03/marco-feliciano-e-eleito-presidente-da-comissao-de- direitos-humanos.html. Acessado em 28 de outubro de 2013.
O grotesco teratológico dessa postagem é evocador dos outros enunciados do pastor nessa mesma linha discursiva: “Africanos descendem de ancestral amaldiçoado por Noé. Isso é fato. O motivo da maldição é a polemica.”; “Sobre o continente africano repousa a maldição do paganismo, ocultismo, misérias, doenças oriundas de lá: ebola, Aids. Fome…”; “Sendo possivelmente o 1o. Ato de homossexualismo da história. A maldição de Noé sobre Canaã toca seus descendentes diretos, os africanos.”; “O caso do continente africano é sui generis: quase todas as seitas satânicas, de vodu, são oriundas de lá. Essas doenças, como a Aids, são todas provenientes da África.”
E ele justifica o conteúdo polêmico de suas postagens e pregações não como racista, mas teológico, por supostamente fundamentá-lo nos versículos 18-27 do capítulo nono da Gênese bíblica, nos quais se lê: “E os filhos de Noé, que da arca saíram, foram Sem, Cam e Jafé; e Cam é o pai de Canaã. Estes três foram os filhos de Noé; e destes se povoou toda a terra. E começou Noé a ser lavrador da terra, e plantou uma vinha. E bebeu do vinho, e embebedou-se; e descobriu-se no meio de sua tenda. E viu Cam, o pai de Canaã, a nudez do seu pai, e fê-lo saber a ambos seus irmãos no lado de fora. Então tomaram Sem e Jafé uma capa, e puseram-na sobre ambos os seus ombros, e indo virados para trás, cobriram a nudez do seu pai, e os seus rostos estavam virados, de maneira que não viram a nudez do seu pai. E despertou Noé do seu vinho, e soube o que seu filho menor lhe fizera. E disse: Maldito seja Canaã; servo dos servos seja aos seus irmãos. E disse: Bendito seja o Senhor Deus de Sem; e seja-lhe Canaã por servo. Alargue Deus a Jafé, e habite nas tendas de Sem; e seja-lhe Canaã por servo.”46 Ao longo de todo o capítulo décimo do mesmo livro bíblico atribuído a Moisés, detalha-se a descendência de Cão e das regiões geográficas em que ele e seus descendentes habitariam, mas em nenhum momento dessa narrativa há qualquer referência sobre a África.
As representações racistas do povo africano têm início entre o final do século XV e o início do século XVI, período no qual a Europa estruturava o processo de escravização dos povos africanos, com a autorização da Igreja, expressa através do Papa Nicolau V, por meio da bula romanus pontifex47. No Brasil, o padre Manoel da Nóbrega48, por exemplo, afirmou: “Por serdes descendentes de Cam e terdes descoberto a vergonha de seu pai deverão os negros serem escravos dos brancos por toda a eternidade”. O texto bíblico apresenta 45 Ibidem.
46 Fonte: Bíblia Online. Disponível em: http://www.bibliaonline.com.br/acf/gn/9. Acessado em: 28 de outubro de 2013.
47 Fonte: Centro Cultural Onúnmila. Disponível em: http://www.orunmila.org.br/blog/?p=221. Acessado em: 28 de outubro de 2013.
inúmeras passagens que conferem naturalidade à escravidão e às maldições, tanto no contexto pré-cristão da produção dos textos que irão compor o Antigo Testamento, como no contexto dos livros do Novo Testamento, não sendo encontrado, porém, nenhum versículo que se refira ao continente africano ou a seu povo ou que a eles vincule essas supostas maldições. Posteriormente, a canonização pela Igreja de alguns “santos” proprietários de escravos, como São Basílio, contribuiu efetivamente para tornar a escravidão natural e socialmente aceita.
A associação da cor negra ao diabo tem raízes no maniqueísmo cristão: Orígenes de Alexandria ou Orígenes de Cesareia (185-253 d.C.), por exemplo, defendia que a cor da pele refletia o seu índice de pecado, quanto mais escuro fosse o indivíduo, mais pecados ele teria (CUNHA & SILVA, 2010, p. 10).
Sodré e Paiva (2002) perceberam a associação do negro ao grotesco teratológico, a partir de discriminações (preconceitos) populares, e o pontuam da seguinte forma:
É bem nítida a tendência de se registrar na paisagem humana do povo o teratológico, esfera, aliás, da qual a cultura oral extraiu figuras imaginárias como o lobisomem, o mão-de-cabelo e outras destinadas a assombrar crianças e adultos desavisados. Nessas elaborações, podia-se infiltrar todo tipo de discriminação, como no personagem Bocatorta, de Lobato: “Um hediondo no físico, mas homem de sentimentos normais por dentro. Afora a teratologia visível, ele é um homem como todos os outros. Não é negro, não é rudimentar de espírito (...)”. No tocante ao negro, aliás, não é uma tendência particularmente brasileira. Está profundamente ancorada no modo de representação da cultura ocidental a percepção do indivíduo negro como grotesco (ibidem, p. 127, grifos dos autores).
A frase de Monteiro Lobato: “Um hediondo no físico, mas homem de sentimentos normais por dentro. Afora a teratologia visível, ele é um homem como todos os outros.49” implica um desvio de norma, uma exceção - Bocatorta era horrível por fora, mas normal por dentro. O prisma pelo qual se vê um povo nacional como desvio da norma dominante, segundo Sodré e Paiva (2000, p. 127-128), proveio das elites eurodirigidas, e terá, a partir do fim da década de sessenta e começo da década de setenta, um forte impacto na programação da Televisão, consideradas por eles um meio de comunicação hegemônico.
Numa linha discursiva caracterizada pelo grotesco chocante, o décimo motivo para se amar o pastor Marco Feliciano vem no suporte imagístico, uma colagem do rosto do pastor em dois momentos: em um momento (rosto da esquerda), ele aparece com cabelo crespo, pele mais escura (há muita sombra nessa imagem) e sobrancelha natural; no outro, com a pele 48 Ibidem.
clara (bastante iluminada), o cabelo alisado e a sobrancelha delineada, num processo de europeização de sua imagem anterior (a da esquerda).
Figura 18
O processo de europeização evidenciado pelo contraste das duas imagens eliminou, na imagem da esquerda, os aspectos que caracterizavam o pastor na primeira imagem como afrodescendente: os cabelos crespos, a pele escura e a sobrancelha grossa, igualmente crespa. O décimo motivo para se amar o pastor faz referência ao primeiro motivo, no qual o humor vem da ironia do enunciado que aparece logo abaixo da postagem do Twitter: Tem dó dos africanos. Quando Cleycianne declara que ele é um homem sem preconceitos que usa até chapinha e pinça para ficar mais galã, traz à superfície o suposto racismo de Feliciano, que é parodiado como capaz de ir ao extremo de se descaracterizar enquanto afrodescendente.
Nos dois motivos, em que o humor é construído através da ironia, temos o discurso grotesco do gênero representado: no primeiro, o suporte é escrito; no segundo, o suporte é imagístico. Enquanto no primeiro motivo temos um grotesco da espécie teratológica, no segundo temos da espécie chocante.
4.10 Salve Jorge
Figura 19
ANÁLISE
A telenovela brasileira “Salve Jorge”, escrita por Gloria Perez e Malga Di Paula e dirigida por Fred Mayrink e Marcos Schechtman, foi exibida pela Rede Globo entre 22 de outubro de 2012 e 17 de maio de 2013, abordando temas como a religiosidade em torno
de São Jorge, o tráfico e a escravização sexual de jovens (ambos os sexos) no exterior, ensejando esclarecimento à população quanto ao modus operandis desse tipo de tráfico. Teve como núcleo central o Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro; uma região da Turquia chamada Capadócia, onde São Jorge nasceu, e a maior cidade desse país, Istanbul. A audiência de seu último capítulo registrou a menor audiência de um último capítulo dos últimos anos - 45 pontos com pico de 4950.
Há mais de 40 anos que as telenovelas ocupam um lugar privilegiado na rotina do povo brasileiro, ganhando espaço também, enquanto fenômeno de comunicação de massa, nas discussões acadêmicas e nas redes sociais da Internet. A telenovela reflete também a proposição do agendamento midiático, segundo a qual a mídia determina o que deve ser discutido e ignorado pela opinião pública, o que é determinado por vários fatores: sociais, políticos, econômicos etc. Alguns exemplos de telenovelas e temas agenciados são51: Fera Ferida (1993): Aborda à violência contra a mulher; História de Amor (1995): o câncer de mama e a reabilitação de deficientes físicos; Pátria Minha (1994) e Zazá (1997): o trabalho infantil e os maus tratos às crianças; Quem é você (1996): abandono aos idosos; Barriga de aluguel (1990): conta a história de uma inseminação artificial; De corpo e alma (1992): transplante de coração; Mulheres de areia (1993): a destruição do meio ambiente; Explode coração (1995): destaca a chegada da internet e sobre crianças desaparecidas; Torre de Babel (1998): deficiência física; O clone (2001): falam da clonagem humana e dependência química; Porto dos Milagres (2001): escândalos políticos; Coração de Estudante (2002): a síndrome de Down e o alcoolismo; América(2005): a cleptomania, deficiência visual e pedofilia; Duas Caras (2007-8): a favelização; A Favorita (2008): lesbianismo, o incesto, a violência contra mulher e a corrupção; Caminho da Índias (2009): a esquizofrenia, psicopatia, a violência de alunos contra professores e as redes sociais; Caras & Bocas (2009-10): o tráfico de animais e a falsificação de obras de arte; Páginas da Vida (2006-7) e Viver a Vida (2009): o autor inseriu depoimentos sobre histórias de superação no fim de cada capítulo.
Nessa postagem de Cleycianne, as dez coisas que o povo de God – alusão aos evangélicos - gostaria que acontecessem no final da novela Salve Jorge são:
1. Morena morrendo devido a uma misteriosa doença na vagina; 2. Bordel virando Igreja;
3. Núcleo do Morro do Alemão virando fiéis da Igreja do Pastor Marcos Pereira;
50 Fonte: http://natv.ig.com.br/index.php/2013/05/17/fim-de-salve-jorge-tem-menor-audiencia-que-avenida- brasil-e-deixa-questoes-em-aberto-mas-consagra-alguns-atores/. Acessado em 29 de outubro de 2013.
4. Théo sendo "pego" por um homem negro de 25 cm para perceber que a passividade não leva a nada;
5. Thammy decidindo ser mulher 24 horas por dia e se mudando para Brasília para ser braço direito do Pastor Marcos Feliciano;
6. Lívia virando uma espécie de Bispa Sônia da Turquia;
7. Dona Helô largando o emprego de delegada lésbica masculina para virar dona de casa;
8. Letícia Spiller sendo presa por ter se separado do marido;
9. Todos os personagens inúteis morrendo em alguma grande tragédia;
10. Mensagem da Glória Perez pedindo desculpas aos telespectadores no final do último capítulo.
A morte em decorrência de uma “misteriosa doença na vagina” para a personagem Morena (escravizada sexualmente na Turquia e obrigada a trabalhar como prostituta) apresenta um humor irônico, por meio de uma hipérbole grotesca e trágica, com que o blog Cleycianne ridiculariza o discurso evangélico-cristão quanto ao sexo. Morena deve ser punida porquanto a sua vagina (metáfora para sexualidade promíscua e/ou que não resulte em reprodução) foi responsável por um grande volume de tensão e expectativa ansiosa dos telespectadores que aguardavam o desenrolar da trama, torcendo para que a jovem tivesse um final feliz. Essa responsabilização culpabilizante à vagina de Morena reflete o realismo grotesco bakhtiniano, na medida em que essas (...) partes do corpo (...) constituem o objeto predileto de um exagero positivo, de uma hiperbolização; elas podem mesmo separar-se do corpo, levar uma vida independente, pois sobrepujam o restante do corpo relegado a segundo plano (BAKHTIN, 1999a, p. 277).
O valor negativo que Cleycianne atribui ao ato sexual realizado por prazer é ainda maior quando esse ato resulta em prostituição, pois a personagem Cleycianne é uma ex- prostituta arrependida que recrimina seu próprio passado, assinalado pelo sexo com parceiros múltiplos, ora por dinheiro, ora por prazer mesmo. Essa culpa quanto ao sexo, na história do Cristianismo, esteve associado longamente ao mal, e assim Foucault a analisa:
O valor do próprio ato sexual: o cristianismo o teria associado ao mal, ao pecado, à queda, à morte, ao passo que a Antiguidade o teria dotado de significações positivas. A delimitação do parceiro legítimo: o cristianismo, diferentemente do que se passava nas sociedades gregas ou romanas, só o teria aceito no casamento monogâmico de uma finalidade exclusivamente procriadora. A desqualificação das relações entre indivíduos do mesmo sexo:
o cristianismo as teria excluído rigorosamente, ao passo que a Grécia as teria exaltado – e Roma, aceito – pelo menos entre homens (FOUCAULT, 1990, p. 17).
O sexo para Cleycianne só pode ser aceito quando se planeja gerar um filho, e o humor irônico dessa sua postura é evocativo de como a hipocrisia de muitos discursos do Cristianismo ainda se infiltra nos discursos protestantes por ela parodiados. É realmente quase difícil de dizer se ela realmente os exagera ou se esses discursos ainda persistem na contemporaneidade em alguns círculos protestantes.
Nas imagens do bordel virando igreja e do Núcleo do Morro do Alemão virando fiéis da Igreja do Pastor Marcos Pereira (2 e 3), o humor grotesco vem com a carnavalização, na medida em que Cleycianne sugere mudanças radicais de polaridade nas imagens evocadas. O entendimento bakhtiniano de vida carnavalizada é por ele expresso na ideia de vida desviada da sua ordem habitual, em certo sentido uma “vida às avessas”, um “mundo invertido” (BAKHTIN, 1998, p. 123). Esses polos assim estariam dispostos: o bordel, associado ao polo negativo, virando uma igreja, claramente associada ao polo positivo e ao elevado em suas postagens; os personagens do Núcleo do Morro do Alemão, núcleo associado ao negativo em razão dos inúmeros e sangrentos confrontos entre traficantes e polícia que ganharam as manchetes dos jornais em novembro de 2010, virando fiéis da Igreja do Pastor Marcos Pereira, associação ao positivo unicamente por se tratar de uma igreja evangélica. Aqui, Cleycianne destila sua ironia e deboche na produção do humor, pois por ocasião dessa postagem, o pastor Marcos Pereira se encontrava preso pela acusação de estupro a várias fiéis da sua igreja, fato a que ela se refere na própria postagem quando enuncia: Adoraria ver o Pastor Marcos Pereira, que infelizmente está preso na vida real, chegando no morro do Alemão e metralhando em Cristo o exú do piranhismo que lá reside! Seria uma bença todas as mulheres do Alemão usando os lindos roupões das varoas da ADUD!!! A namorada do Neymar ficaria linda em Cristo!! A violência com que ela imagina o pastor chegando e metralhando as pessoas, bem como toda violência perpetrada pelos protestantes em nome da moral cristã (em suas postagens, toda violência praticada em nome de Deus é sempre encerradas com a expressão em Cristo), é uma referência humorística às polêmicas passagens bíblicas em que profetas do Antigo Testamento são vistos matando ou cometendo atos condenados pela própria Bíblia em nome de Deus, como no caso do profeta Elias, que degola
450 sacerdotes de Baal, conforme se lê em I Reis 19:152: E Acabe fez saber a Jezabel tudo quanto Elias havia feito, e como totalmente matara todos os profetas à espada.
Essa inversão carnavalizante é proporcionadora do riso, por meio da inversão de polaridade, e Sodré e Paiva a comentam nesses termos:
A partir da moldagem carnavalesca, entende-se porque o grotesco subverte as hierarquias, as convenções e as verdades socialmente estabelecidas. Subverte igualmente as figurações clássicas do corpo, passando a valorizar as vinculações corporais com o universo material, assim como seus orifícios, protuberâncias e partes baixas. Alimentação, dejeção, cópula, gravidez e parturição compõem constantes na imageria grotesca (SODRÉ & PAIVA, 2002, p. 59).
Nos itens 5, 6, 7 e 8, nós temos as seguintes sugestões e imagens carnavalizantes: a)
Item 5 - uma lésbica (a personagem gay interpretada por Thammy Gretchen, homossexual
assumida na vida real) virando heterossexual e se tornando braço direito do pastor Marco Feliciano, pastor sempre recorrente nas postagens de Cleycianne devido às suas declarações homofóbicas e lutas políticas polêmicas nos debates dos direitos dos homossexuais; b) Item 6 - Lívia virando uma espécie de Bispa Sônia na Turquia. A personagem Lívia encabeçava o tráfico de jovens para exploração sexual, e a referência à Bispa Sônia, acusada de estelionato, lavagem de dinheiro, sonegação fiscal etc., ocorre por causa de numerosos escândalos, em que ela figura como personalidade poderosa no mundo protestante, embora a sua decadência tornada matéria de capa na edição nº 2183 da Revista Istoé53; c) Item 7 - Dona Helô largando o emprego de delegada lésbica masculina para virar dona de casa, e item 8 - Letícia Spiller sendo presa por ter se separado do marido. Nesses dois itens (7 e 8), temos nas imagens de mulheres finalizando a novela de modo a atender às expectativas do antigo e machista mundo hebraico retratado na Bíblia, no qual a mulher é considerada inferior ao homem e deve não só comportar-se como tal, mas a ele submeter-se. No Novo Testamento, por exemplo, encontramos nas cartas paulinas, um número bem volumoso de recomendações às mulheres, instando-as a ficarem caladas nas igrejas e serem obedientes aos maridos, e caso tivessem dúvidas em matéria religiosa, não perguntassem na igreja, mas em casa (I Coríntios 14, 34- 35); recomenda ainda a carta aos colossenses que as mulheres se submetessem aos esposos
52 Fonte: Bíblia online. Disponível em: <http://www.bibliaonline.com.br/acf/1rs/19>. Acessado em 29 de outubro de 2013.
53 Fonte: http://www.istoe.com.br/reportagens/158676_O+DECLINIO+DA+IGREJA+DA+BISPA+SONIA. Acessado em 29 de outubro de 2013.
(Colossenses 3, 18), afinal, Paulo (ou o autor da carta) entendia o homem como a cabeça da mulher (Efésios 5, 22-24), razão portanto, para esta reverenciar o marido (Efésios 5:33). Na sua carta a Timóteo, Paulo propõe que as mulheres abram mão de sua vaidade, vestindo-se "não com tranças, ou com ouro, ou pérolas, ou vestidos preciosos" (I Timóteo 2:9), mas modestamente, e que quando aprendessem qualquer coisa, o fizessem “em silêncio, com toda a sujeição (aos homens)" (I Timóteo 2:11-12). Sendo consideradas inferiores aos homens, as mulheres apenas conseguiriam a tão almejada salvação se dessem à luz (I Timóteo 2:15). Entendia, finalmente, o autor das cartas paulinas que as mulheres "aprendem sempre e nunca podem chegar ao conhecimento da verdade" (II Timóteo 3:6-7).
No item 4, se lê: Théo sendo "pego" por um homem negro de 25 cm para perceber que a passividade não leva a nada. Teve alguém mas (grafia original) passivo do que o narigudo Theo nessa novela? NÃO!! Para aprender ser mas homem, para aprender ser um varão valoroso ele teria que levar muito pênis no ânus para ver que a passividade não leva a nada, só faz mal para nossa vida, além de doer muito!! Aqui, temos as imagens corporais preferidas do corpo grotesco: orifícios, protuberâncias, ramificações e excrescências, tais como a boca aberta, os órgãos genitais, seios, falo, barriga e nariz (BAKHTIN: 1999a, p. 23). Cleycianne faz humor imaginando que a suposta passividade (baixa virilidade) do personagem Theo deveria ser punida e transmutada em masculinidade através da penetração anal de um falo de 25 cm de um negro. A grande proporção do falo de um negro e a referência ao narigão de Theo são evocativas do corpo grotesco também na medida em que esse corpo é anormal, deformado e subversivo:
Bakhtin detém-se longamente nas descrições feitas por Rabelais de pessoas com narizes enormes, orelhas desproporcionais, outras com testículos deformados e pênis tão grandes que alguns podiam ser enrolados como um cinto seis vezes ao redor do corpo. Diferentemente do corpo definitivo e acabado, nos termos do cânone clássico, o corpo grotesco presta-se à metamorfose e à mistura (SODRÉ & PAIVA, 2002, p. 59).
Nos itens 9 e 10, o humor vem através do nonsense: 9 - Todos os personagens inúteis morrendo em alguma grande tragédia, e 10 - Mensagem da Glória Perez pedindo desculpas