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Lançada em 10 de dezembro de 1928, a revista O Cruzeiro, publicação dos Diários Associados, circulou até julho de 1975. Revista de informação, cultura e entretenimento, trazia um conteúdo variado e se dirigia a um amplo público leitor: homens e mulheres, jovens e idosos, sem muita preocupação em descobrir as preferências de cada público específico. Era uma publicação, sobretudo, moderna, contemporânea, feita para a família brasileira, como ela mesmo se definia.

Mira (1997) lembra que, em 1950, o Ibope realizou uma pesquisa para identificar quem era a "família leitora" de O Cruzeiro, e concluiu que esta era formada por pouco mais de cinco pessoas, entre homens, mulheres, crianças com mais de 10 anos, crianças abaixo dessa idade, além dos "creados" que viviam nas casas das famílias de classes sociais mais altas. "Cada exemplar encontrava mais de 4 leitores dentro da mesma casa, percorrendo, como se vê, diferentes sexos, idades e classes sociais" (p.20).

No editorial de estreia, os responsáveis pela publicação a descreviam como "a mais moderna revista brasileira", pois, diziam eles, ela nascia em uma época de maior desenvolvimento do país, em que a urbanização já proporcionava um novo visual para as grandes cidades, a industrialização e a economia apresentavam um bom crescimento – ao contrário das principais revistas concorrentes, que surgiram bem no início do século XX, quase que na época do "Rio colonial", como citava o editorial. Aliás, a escolha da

78 denominação O Cruzeiro tinha tudo a ver com essas características, pois a revista representava o novo, a luz, a nova moeda, o novo Brasil que se desenhava:

Cruzeiro é um título que inclue nas suas tres syllabas um programma de patriotismo‖, escreveram os editores, e ―circula desde o Amazonas ao Rio Grande do Sul, infiltra-se por todos os municípios; entra e permanece nos lares; é a leitura da familia e da visinhança. [...] Porque é a mais nova, Cruzeiro é a mais moderna das revistas.

Logo quando surgiu, O Cruzeiro e também as demais publicações semanais enfrentavam grande concorrência dos jornais diários na busca por público leitor e também por empresas anunciantes. O próprio editorial da revista deixava claro essa luta por espaço no mercado da época. A saída encontrada pelo periódico semanal para conquistar o leitor dos jornais foi, já em seu primeiro editorial, apontar para a perenidade do conteúdo trazido pelo impresso diário, que seria algo sem valor nenhum no dia seguinte. "O jornal de hontem é já um documento fóra de circulação: um documento de archivo e de bibliotheca. O jornal dura um dia. Essa existencia, tão intensa como breve, difficulta os grandes percursos". Já uma revista, também segundo os próprios produtores de O Cruzeiro, ainda não era um produto com funções muito bem compreendidas pelos brasileiros, por isso ela trata de explicar a importância do seu conteúdo para as pessoas:

[...] o campo de acção da revista é mais vasto, a sua interpretação dos acontecimentos deve subordinar-se a um criterio muito menos particularista do que o do jornal. Um jornal póde ser um órgão de um partido, de uma facção, de uma doutrina. Uma revista é ums instrumento de educação e de cultura: onde se mostrar a virtude, animá-la; onde se ostentar a belleza, admirá-la; onde se revelar o talento, applaudi-lo; onde se empenhar o progresso, secundá-lo. O jornal dá-nos da vida a sua versão realista, no bem e no mal. A revista redu-la á sua expressão educativa e esthetica. O concurso da imagem é nella um elemento preponderante. A cooperação da gravura e do texto concede á revista o privilegio de poder tornar-se obra de arte. Aliás, o editorial publicado na primeira página, sem qualquer assinatura, seria mais uma marca da diferença entre jornal e revista. Os responsáveis por O Cruzeiro diziam que, enquanto o primeiro podia ser o porta-voz "de um partido, de uma facção, de uma doutrina", a revista devia se prestar a ser um instrumento de educação e de cultura. Exatamente o que aponta Scalzo, como citamos no capítulo anterior.

Confirmando o otimismo do editorial de estreia de O Cruzeiro, a revista se tornou a mais importante do país durante vários anos – em termos de variedade de assuntos, modernidade gráfica, qualidade de texto e imagem, e até mesmo tiragem. Em 1950, a revista por várias vezes ultrapassou a marca dos 250 mil exemplares e trouxe conteúdo diversificado,

79 distribuído por mais de 120 páginas, muito acima das suas concorrentes semanais daqueles tempos.

Segundo informações contidas na edição especial da coleção Cadernos da Comunicação, produzida pela prefeitura do Rio de Janeiro em 2002, os números alcançados por O Cruzeiro são, até hoje, um marco no mercado editorial de revista nacional. A publicação chegou a vender mais de 700 mil exemplares em uma época em que o Brasil tinha cerca de 50 milhões de habitantes. Apesar de parecer algo inconcebível, ao menos uma vez foi comprovado que este veículo semanal, de fato, comercializou 720 mil exemplares. O caso aconteceu na edição sobre a morte de Getúlio Vargas, ocorrida em agosto de 1954, e que provocou uma corrida frenética de leitores em busca de uma edição nas poucas bancas que existiam no país. O número se esgotou e precisou ser reimpresso, lembram os editores de Cadernos.

Além disso, como cita Mira (1997), uma outra pesquisa Ibope realizada em 1945 entre leitores de jornais e revistas no Rio de Janeiro, então a capital federal do país, já indicava a supremacia de O Cruzeiro em relação às suas concorrentes. A revista aparecia em primeiro lugar absoluto com 37,7% da preferência dos entrevistados, mais do que o dobro de votos da segunda colocada, a Revista da Semana, que recebeu 15,5% das indicações. O pódio era completado por Careta, que ficou com 11,3% dos votos.

[...] atingia não só os moradores das grandes cidades, mas também penetrava no interior do país, chegando a lugares onde o Diário Oficial jamais chegou. Os temas de discussão políticas publicados pela revista estavam sempre entrando nos anais do Congresso. Conseqüentemente, nos anos 50, tornou-se um dos meios de comunicação social mais importantes do Brasil. [...] O fato é que a revista penetrava em todos os lugares, das favelas às mansões. [2002, p.10].

Em relação ao conteúdo, o periódico tinha como conceito principal apresentar um Brasil moderno, avançado, e suas páginas, todas coloridas (mais um diferencial em relação ao que já existia no mercado), traziam uma linguagem e uma diagramação diferenciadas – não podemos nos esquecer do que fala Scalzo sobre a importância do visual. Publicava seções, artigos, flagrantes do cotidiano das ruas, contos, novelas, entretenimento, mas a sua grande marca, aquilo que a diferenciava de todas as outras revistas da época, eram as grandes reportagens produzidas em parceria por dois profissionais da comunicação: o responsável pelo texto e o responsável pelas imagens. O Cruzeiro abriu um espaço único para as fotografias em suas páginas. Assim, uma reportagem era sempre narrada em duas linguagens: a de texto e a

80 fotográfica. Uma revolução para a época, e um feito narrado pelos livros de jornalismo de revista até hoje. E ao assumir a importância do visual para as matérias, sem, é claro, prejudicar o tamanho dos textos, a revista passou a publicar reportagens que muitas vezes ultrapassavam a extensão de 10 páginas, outro feito inédito para aquela metade de século.

As matérias analisavam a evolução da própria comunicação enquanto indústria, dos meios de transporte, da construção civil, da educação, da indústria e agricultura, da arte e da cultura brasileiras. Uma das primeiras reportagens de O Cruzeiro, por exemplo, já alertava para a necessidade de investimentos por parte do governo em recursos naturais para dar conta do aumento da demanda e do crescimento populacional do país. No ano analisado nesta pesquisa, 1950, a revista publicou reportagens sobre a vida indígena no interior da Amazônia, os negros e a escravidão, os avanços da agricultura no sul do Brasil, além de matérias investigativas e policiais. E, da mesma maneira que as outras revistas, também explorava aspectos da vida europeia, seus hábitos e belezas, as estrelas do cinema norte-americano e a moda ditada por esses países, assim como as celebridades da música e do teatro brasileiros, mas sempre com uma nova roupagem e um casamento perfeito entre repórter e fotógrafo.

O mundo esportivo também ganhou uma nova perspectiva com o nascimento desta revista. Se nas demais semanais o esporte aparecia de maneira esporádica, principalmente associado a grandes eventos, como campeonatos brasileiros ou mundiais, em O Cruzeiro não apenas o futebol, mas várias modalidades tinham destaque ao longo de todo ano. Em 1950, competições e personagens de jiu-jítsu, boxe, natação, vela, turfe, vôlei e até levantamento de peso foram retratados. No futebol, títulos estaduais e rivalidades regionais tiveram espaço em edições do fim de 1949, como o Gre-Nal (Grêmio x Internacional, clássico disputado no Rio Grande do Sul). E, como veremos mais adiante, a Copa do Mundo de Futebol de 1950 proporcionaria a O Cruzeiro um farto material a ser trabalhado. A revista acompanhou desde a preparação da seleção brasileira (amistosos, torneios, treinos e concentrações) até o último jogo do Mundial, passando pela reta final da construção do estádio do Maracanã, o grande palco da competição, iniciada pelo menos dois anos antes.

Apesar das especificidades de cada revista citadas até aqui indicarem diferenças fundamentais entre elas, até mesmo por uma questão mercadológica, em que cada publicação se voltava para um público consumidor próprio, todas as quatro – embora em menor grau em O Cruzeiro – tinham semelhanças em relação ao leitor que procuravam atingir. André de

81 Seguin des Hons considera o elitismo como marca principal dessa primeira geração de revistas da imprensa brasileira.

Ainda que estas revistas sejam endereçadas a um público variado, que incluía burguesia e classes médias, elas eram ainda impregnadas pelo elitismo cultural [...]. O emprego de uma linguagem pesquisada, o cuidado com as 'belas letras', o conformismo moderador, o interesse pelos acontecimentos mundanos dão seu estilo a essas revistas do entre-guerras... Elas são profundamente ligadas a uma sociedade burguesa segura de seus valores. Um leve esnobismo em relação à província e às classes populares, uma preocupação com os bons costumes, referências às discussões mundanas da época ou às intrigas dos gabinetes ministeriais, em suma esses magazines indicavam tudo o que se devia saber para fazer parte da 'boa sociedade'" (DES HONS apud Mira, 1997, p.25)