• No results found

Principles and Recommendations

4.6 16 May – Conclusions and recommendations

4.7 Principles and Recommendations

Como já foi comprovado por vários autores (Greenhalgh, 2012; Gracia-Arnaiz, 2010; Honeycutt, 1999; Poulain, 2009), são as mulheres e os jovens quem mais sofre pressões para corresponder aos modelos de estética corporal e é para estes que estar adequado se torna mais importante para a construção da sua identidade. Assim sendo, achamos por bem dedicar uma parte deste capítulo para refletir sobre as especificidades da juventude enquanto categoria social e também sobre o género na construção da identidade.

Como sabemos, a juventude é uma etapa importante na moldagem de comportamentos e atitudes, existindo adaptação e ao mesmo tempo construção, sendo uma etapa particular da vida de muitos questionamentos e indecisões, e uma fase particularmente importante na construção da identidade em que a imagem corporal tem especial importância.

A juventude é vista por alguns teóricos como uma etapa de passagem para a vida adulta cada vez mais complexa e heterogénea nas sociedades modernas, devido à crescente individualização, em que os indivíduos devem ter responsabilidade na construção da própria biografia. No entanto, é imposto aos jovens que correspondam aos ideais e padrões sociais, havendo assim ao mesmo tempo seletividade e regulação (Augusto, 2006).

A juventude é assim ao mesmo tempo uma unidade, visto que diz respeito a uma fase da vida em particular, mas também uma diversidade, havendo diversas questões que podem ser motivo de diferenciação entre os jovens, como o corpo (Pais, 1990).

Segundo Campos (2010), a visualidade acaba por ter extrema relevância, isto porque aparece como elemento fundamental para a vida social, porque a imagem enquanto forma de comunicação e representação tem acompanhado o homem ao longo da história. Ou seja, os diferentes grupos sociais, e dentro destes, as subculturas juvenis, têm diferentes formas de se relacionar no quotidiano, devido aos diferentes valores que têm, e por isso o uso da imagem e da visualidade na juventude está inteiramente ligada a uma construção identitária. E ainda de acordo com Campos (2010), na juventude a imagem é entendida como o modo como os jovens se mostram visualmente ao mundo, utilizando diferentes elementos no corpo, o vestuário e apetrechos diversos, objetos de consumo diferenciados, que é algo imprescindível à organização simbólica desta categoria social (Feixa et al., in Campos, 2010). Os jovens querem distinguir-se pela diferença, e por isso é importante o consumo, neste caso as formas diferenciadas de consumo em relação à cultura dominante, que revelam aparências exteriores diferenciadas e que muitas vezes provocam reações por parte das outras pessoas (gerações anteriores) de “anormalidade”, devido às representações sociais existentes sobre o que é considerado normal (Campos, 2010), que acontecem mais em relação ao vestuário. Por exemplo, hoje existe a cultura da magreza, mas nem sempre assim foi, e por isso não foi de um momento para o outro que esta se implementou e a passou a ser a norma. No entanto ser magro enquanto dado cultural foi-se generalizando quase a todas as faixas etárias da população e provoca hoje menos sensação de anormalidade do que por exemplo um vestuário diferente. Mas existem ainda pessoas de gerações anteriores que criticam por vezes a magreza, porque no seu tempo esta não tinha o mesmo significado e a consideravam negativa, no entanto, atualmente, esta é aconselhada medicamente (Pena Pena, et al., 2015).

Os jovens na atualidade, apesar de se poderem diferenciar uns dos outros a nível de vestuário, existe uma questão que a juventude no geral já tem interiorizada, que é a magreza como ideal de beleza, e que ter um corpo magro e belo é importante na interação inter- grupal e na aceitação social, e por isso deve-se fazer os possíveis para eliminar a gordura (Stenzel e Guareschi, 2002).

No estudo de Stenzel e Guareschi (2002) com raparigas jovens adolescentes é possível verificar que as jovens já têm interiorizado o ideal de beleza e consideram que uma mulher é valorizada acima de tudo pela estética e que é a sua obrigação ter um corpo saudável e bonito. As jovens parecem ter um desejo de atingir a perfeição, e na maioria expectativas irrealistas em relação aos seus próprios corpos e por isso também em relação à sua identidade (Stenzel e Guareschi, 2002). Já se denota aqui uma certa diferenciação de género, visto que as próprias jovens têm apenas em conta o corpo da mulher e não o corpo do homem.

O estudo de Alves et al., (2009) que consistiu na análise de vários artigos científicos, concluiu que existe uma maior preocupação por parte das mulheres em relação à imagem e

beleza corporal e também que existe uma maior pressão relativamente ao sexo feminino para atingir estes ideais de beleza. Alves et al., (2010) também chegaram à conclusão que a cultura tem um papel fundamental na avaliação da imagem corporal, porque por exemplo ao se comparar a Espanha com o México chegou-se à conclusão que no México existe uma maior satisfação corporal do que em Espanha, e isto deve-se às diferenças sociais e culturais, visto que nos países contemporâneos ocidentais a medicina tem um papel muito mais ativo de controlo corporal, e os media também têm um papel muito mais relevante ao nos invadir com imagens de como atingir o corpo perfeito em que a mulher é quase sempre a protagonista e o destinatário.

Um outro estudo, realizado por Teixeira, Freitas e Caminha (2014) com mulheres que frequentam o ginásio, revelou que elas consideram que as mulheres terem um corpo cuidado é uma forma de conseguirem transitar melhor pelos ambientes sociais e terem mais confiança e sucesso e que isso é principalmente importante para as mulheres e muito menos para os homens (Giddens; Foucault; in Teixeira, Freitas e Caminha, 2014). Consideram ainda que as pessoas, principalmente as mulheres, querem chamar a atenção do outro e por isso buscam um corpo belo que é a forma de estar numa posição positiva nas sociedades contemporâneas (Foucault; in Teixeira, Freitas e Caminha, 2014). Greenhalgh (2012) atesta também que cada vez mais um corpo bonito e tonificado se destina tanto a homens como a mulheres e torna-se o valor supremo da essência humana e essencial para o sucesso social.

As mulheres do estudo de Teixeira, Freitas e Caminha (2014) também consideram que ser linda é uma forma de sedução e de dominação, tanto em relação aos homens como em relação a outras mulheres, em que ser linda e magra são as únicas características que importam. Consideram ainda que através da beleza física conseguem alcançar mais facilmente a felicidade e a realização pessoal. Altera-se de certa forma o sentido da vida, havendo assim uma lógica biopolítica na construção da beleza, como se a beleza fosse algo que as protegesse da vida. As mulheres deste estudo referem ainda que a beleza corporal é a uma forma de se dominarem a si mesmas, sendo que através do trabalhar o corpo no ginásio, o tentam constantemente reconstruir, mudando o que acham que está mal, e consideram que esta questão é uma forma de liberdade. Em suma, a aparência corporal “representa uma via para maximizar o exercício de dominação dos sujeitos nas relações sociais, ao mesmo tempo em que atua como alternativa para reconstrução das suas próprias existências” (Teixeira, Freitas e Caminha, 2014:498).

Para concluir, Lipowetsky (in Ferreira, 2008) refere também que estar em forma é a nova obsessão da atualidade e que a ansiedade das mulheres que consideram que estão gordas demonstra isso claramente.