1. Objetivos da Investigação
Consideramos importante relembrar os objetivos da nossa investigação, já que eles estão na base das opções metodológicas que foram feitas, e que a seguir apresentamos. O objetivo geral da nossa investigação é o seguinte:
1. Compreender qual a influência da construção social da obesidade e do saudável na auto-perceção corporal dos jovens
E temos como objetivos específicos, que guiam a nossa investigação, os seguintes: 1.1. Perceber quais os significados que atribuem à obesidade e ao saudável
1.2. Analisar as perceções dos jovens em relação ao corpo, à imagem corporal e à obesidade (lipofobia; auto-controlo sobre o corpo)
1.3. Perceber em que medida esses significados influenciam as suas interações quotidianas e os seus comportamentos
1.4. Perceber como entendem o próprio corpo (auto-perceção).
2. Opções metodológicas
A minha opção metodológica faz parte das metodologias de base qualitativa, porque pretende-se perceber como os indivíduos produzem significados em torno de um dado fenómeno (neste caso a obesidade), como essa produção de significados é influenciada pela construção social desse fenómeno, e como ambas moldam as interpretações, as experiências e o comportamento dos indivíduos. Como é evidenciado por Martins (2004b) são as metodologias de base qualitativa que permitem a análise de micro-processos presentes nas ações sociais, individuais e grupais. Esta análise de micro-processos só é possível através de uma análise intensiva de dados, característica fundamental que diferencia as metodologias qualitativas de outras metodologias, e por isso a minha opção por esta metodologia.
Pretende-se fazer esta investigação com jovens entre os 15 e 30 anos, por se tratar de indivíduos, uns que estão numa fase particular da sua vida, num momento chave da construção da sua identidade de adultos, e outros, que poderão ainda também ter interrogações sobre a sua identidade e que poderão contar a sua experiência (recente ou atual), relativamente a temas como a obesidade, o corpo e a imagem corporal. Além disso, trata-se de jovens que podem estar a passar por novas realidades e vivências, e por isso, poderão dar muita importância à sua imagem corporal na construção de novas amizades e de novos relacionamentos. Ou seja, as suas experiências poderão ser muitos importantes para o presente trabalho.
Dentro das metodologias qualitativas, optei pelos testemunhos biográficos. A ideia foi retirada do estudo de Susan Greenhalgh (2012:475), sendo que esta lhes chamou de “ensaios auto-etnográficos”. Ela deu aos seus alunos um conjunto de palavras, e pediu-lhes que escrevessem um texto sobre a sua experiência pessoal em relação a essas palavras. Tal como Greenhalgh (2012), também eu pretendo que os indivíduos se sintam à vontade para escrever sobre temas como a gordura/obesidade, sobre os seus sentimentos e possíveis embaraços. Embora uma entrevista pudesse cumprir os objetivos pretendidos, a verdade é que um tal nível de exposição, de reflexão e mesmo de auto-confrontação exigiria tempo, ganhos de confiança, sucessivos contactos, que as limitações temporais necessariamente condicionariam. Assim, mantendo o completo anonimato, minimizando o grau de exposição ao outro, que lhe é estranho, esperamos potenciar a auto-reflexão e a partilha de sentimentos, acontecimentos e emoções que por vezes são difíceis de ser assumidas mesmo para si próprios. A exposição ao outro é sempre algo a ter em conta, e por vezes difícil de ultrapassar. Greenhalgh (2012) considerou que estes ensaios etnográficos tiveram uma função terapêutica, de empowerment e de experiência.
Como o registo biográfico é escrito, através de um blog, que iremos explicar a seguir, permite ainda uma maior reflexão acerca das questões que se propõem abordar. Como o tema é sensível e por vezes até íntimo, porque se pede aos jovens que falem dos seus corpos, consideramos que os testemunhos biográficos por escrito seria uma mais valia tanto para os jovens que se sentem mais à vontade e essencialmente para nós que temos assim a possibilidade de ter dados mais ricos e sinceros.
3. Instrumento de recolha de dados
Para esta investigação, e como opção metodológica, optou-se por criar um blog, onde se explica a investigação, e onde se pede a jovens entre os 15 e os 30 anos que deem o seu testemunho. Para isso, solicita-se que reflitam e escrevam um texto livre, e anónimo, onde abordem as seguintes questões: A obesidade e o excesso de peso; O corpo e a imagem corporal; Pressões que já possas ter sentido para ter um determinado tipo de corpo, e o modo como lidaste com elas; Como te sentes em relação ao teu corpo.
Assim sendo, comecei por enviar email para todos os contactos que tinha, e pedir a amigos que divulgassem, mas não obtive grandes resultados. Desta forma, optei por mandar mensagens em forma de comentário para outros blogs, que falavam sobre a temática, que publicavam frequentemente, que estavam na idade alvo (informação que estava nalguns perfis), e também para blogs que eram muito visitados e que por isso apareciam na página da sapo.pt, para assim termos o maior número de visitas ao nosso blog e também de testemunhos. A maioria dos blogs encontrei por bola de neve, através de uns encontrei outros (por exemplo: ir aos seguidores de determinado blog), ou mesmo através das visitas que tinha ao meu blog. No comentário pedia-se que divulgassem e que, se estivessem na idade alvo,
dessem o seu testemunho. Assim, comecei a ter resultados, inclusive, alguns bloggers fizeram posts onde divulgaram a minha investigação.
Também tive alguns testemunhos de pessoas que já não se encontravam na idade alvo, mas que mesmo assim decidiram fazer o seu testemunho, e que, com muita pena, não pudemos utilizar nesta investigação. Eram muito interessantes e relevantes para a nossa investigação, mas a partir do momento que impusemos um critério de exclusão – ficar fora do intervalo etário definido – sabíamos que teríamos de ser fiéis a esse critério.