As palavras de Ilya Prigogine112 na Carta para as futuras gerações,113 quando o mesmo se expressou dizendo “A ciência une os povos. Criou uma linguagem universal.”; expressam o otimismo de um cientista e pensador que contribuiu para o estabelecimento de algumas das políticas científicas da União Européia. Ao lado, entretanto, do confessado otimismo – “contínuo otimista”, diz ele na carta –, Prigogine não economiza raciocínios que protestam os efeitos por vezes danosos do conhecimento científico, do progresso e da chamada globalização. A ciência ofusca potencialidades e propriedades virtuosas, ainda que tais propriedades se localizem submersas pelo poder dos discursos de verdade sobre o mundo. Para o físico-químico, o apelo à criatividade humana, a crítica à verdade absoluta, a aposta nas ações individuais, a consciência da insuficiência da sociedade da informação, a aceitação da ambigüidade e, a cima de tudo, o discernimento de que a incerteza faz surgir brechas para novas possibilidades e apostas deveriam estar na base da formação das futuras gerações. Unidos, esses princípios constituem, hoje, a esperança que estávamos aguardando. É sabido que a constituição de uma forma hegemônica de falar sobre as coisas libera forma de ser e agir nos contextos e meios da contemporaneidade. É neste sentido que a linguagem imanente da ciência une os povos. Admite o estabelecimento cristalizado de espaços para o diálogo e a complementaridade das pesquisas e produção do conhecimento
111 MORIN, Edgar. Educação Ambiental na Escola, História e Contexto. In: MILANEZ, Francisco (Org.). Educação Ambiental. São Paulo: Paulus, 2008. 36 min., Digital.
112 Físico-químico russo (25/1/1917), nascido em Moscou e naturalizado belga em 1949. Prêmio Nobel de Química em 1977 por suas contribuições à termodinâmica e, em especial, pela Teoria das Estruturas Dissipativas. Faleceu em 28 de maio de 2003 aos 86 anos de idade.
científico atinentes aos fenômenos e problemas gerais que incidem sobre as diferentes sociedades e populações inseridas no modelo civilizacional hegemônico. Vinculada entre si pelos valores da sociedade da informação, do mercado real e virtual, tanto quanto por estruturas educacionais formais padronizadas, parte considerável dos habitantes do planeta vive uma viagem cheia de peripécias e aventuras, seguida de uma série de complicações e ocorrências variadas e inesperadas. Uma espécie de Babel (confusão) da visibilidade.
É importante ponderar, entretanto, que a linguagem comum que une os povos é o subproduto de secularização iniciada, sobretudo a partir do século 17, com o surgimento das ciências modernas e acentuada com o poder da ciência sobre os demais saberes não- científicos (sabedoria). Qualquer um, com o mínimo de lucidez discernirá que existe um certo desprezo e olhares cheios de empáfia – por parte do cientificismo – em relação aos saberes milenares da tradição nos recintos predominantes de ideação civilizacional da humanidade, principalmente nos processos educacionais da maioria das nações do ocidente. Esses saberes outros, fruto da sabedoria milenar (tradição), na prática e experiência de um mundo dominado pelo mito do progresso, são vistos como saberes que não alimentam a serventia mercantil, operacional, objetivista e capitalista. E, consequentemente são relegados ao desprezo. A esse respeito, uma importante nota deve ser feita: a que diz respeito a um posicionamento paradigmático que se desdobra em instrumentos de ações práticas: devemos conceber tal processo como irreversível e, por conseqüência, fazermos nossas apostas num tipo de organização à parte desses saberes? Ou, ao contrário, mesmo reconhecendo os obstáculos e problemas devemos insistir numa atitude de troca, complementaridade e reorganização do conhecimento que leve em conta a mestiçagem e hibridação entre ciência e tradição?
A utopia transdisciplinar advoga essa última opção como a sua grande delineadora na caminhada. A esse respeito é decisivo assinalar que, se vivemos sob o signo da incerteza, isto é, se não nos é possível predizer a sociedade do amanhã, no mínimo as ações e produções utópicas melhoram em muito a caminhada, pois, na busca por um ideal sempre se semeia sementes de esperança, e consequentemente, o amanhã é melhorado. Na busca esperançosa de uma reorganização do saber podemos e devemos ensaiar, a partir do interior mesmo da ciência, estratégias de pensamento e produção do conhecimento que favoreçam a dialógica entre saberes diversos e distintos entre si. O renomado Francisco de Biasi, professor de Física Quântica e Neurociência, comenta sobre a importância da integração ciência e espiritualidade sapiencial. Diz ele que enquanto a Física Quântica comprova a
união todo/partes e partes/todo, as religiões espiritualistas já evocavam tal conceito.114 Fala ainda que a linguagem mítica sobre as origens do universo, são simplesmente uma forma de linguagem para expressar aquilo que a Física Quântica vem também dizendo e comprovando. E na ânsia da busca por uma visão que integre ciência e tradição, Biase ainda vai dizer que anela pelo dia em que um cientista ao ser interrogado sobre Deus e tradições milenares ele responda: é claro que eu acredito em Deus e reconheço o valor das tradições, eu sou um cientista! Ainda dentro desta perspectiva, Biasi lamenta ainda o fato de não haver espaço para essas idéias sobre a união Ciência e Tradição na grade curricular das grandes universidades.
Certamente, uma ecologia das idéias capaz de fazer conviver distintos modos de pensar constitui hoje um instrumento cognitivo importante para inaugurar “uma nova aliança” do sujeito com seu mundo, ultrapassando o já prefigurado encontro entre cultura científica e cultura humanística (Edgar Morin, Ilya Prigogine, Fritjof Capra). O pensamento complexo talvez consiga, igualmente, construir as bases para um encontro respeitoso entre conhecimento científico e saberes da tradição. Desse encontro, quem sabe, possam surgir novas e mais complexas narrativas sobre o sujeito e o mundo. Indicamos aqui a entrevista feita por Renato Hilário dos Reis com o emérito professor Ubiratan D’Ambrósio durante o III congresso de Transdisciplinaridade, Complexidade e Ecoformação, em setembro de 2008, na Universidade Católica de Brasília – Brasília/DF. 115
Estamos aqui pisando e semeando em um solo, cuja semeadura é clara quanto aos seus objetivos de colheita. Queremos colher fruto de ações e mesmo de um método complexo construídos para uma ciência transdisciplinar. Isto é, trata-se de ampliar o diálogo com outras estratégias de pensar não-científicas. Esses acordos e conjuntos de regras que redundam em práticas de pesquisa regidas sempre pelos desafios da complexidade, retornam aos espaços científicos para injetar fluxos novos de pensamentos, modelos cognitivos, reflexões dialogantes entre o máximo de verdades – independentemente do gênero do saber – que o real nos impuser. Aposta gigantesca? Não, uma vez que se delimitam lugares de partida e algumas questões fundamentais.
114 Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=dNcO9rlWdLg acesso em 10/12/2011 115 Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=wesPNCLCopM acesso em 10/12/2011.
Em relação às ciências da saúde, por exemplo, interessa cogitar e compreender como o saber cotidiano sobre as enfermidades pode reduzir as fraturas ou distâncias entre os modelos e formas dos meios médico-científicos que objetivam curas. Entendemos que sair do âmbito do debate científico e revisitar as práticas não-científicas de tratamento das enfermidades constitui-se numa estratégia do pensamento capaz de interrogar os vícios paradigmáticos internos às ciências da saúde. Várias são as reportagens que já vi, abordando acerca da sabedoria indígena em relação às plantas, ervas e raízes medicinais. A grande empáfia do conhecimento carregado de certa cientificidade é tal conhecimento ser tomado, levado para a academia, analisado, sistematizado em forma de conhecer, e depois, vem a validação como se tais descobertas passassem a existir após os tubos de ensaios e laboratórios de pesquisa: na verdade já havia um prévio conhecimento. A Teologia, por exemplo, é conhecimento que visa conduzir à sabedoria. Em outros termos, a sabedoria é uma de suas dimensões.
Motivados e influenciados pelo otimismo de Ilya Prigogine, empenhamo-nos aqui neste trabalho em revisitar as ciências identificando seus vícios e virtudes, detendo-nos, sobretudo nos focos de criatividade capazes de reorganizar outros modos de viver e conhecer: a sapiência nos acena como um saber sobre o real!
No afã de seguir os passos de outros que o antecederam, sem negar sua originalidade, buscando uma abertura para conhecer o conhecimento científico, Edgar Morin ao longo de sua obra seminal empreendeu obstinada e corajosamente a empreitada sobre o que é conhecer nas páginas de O Método. Além de sua incursão nos grandes eixos paradigmáticos da ciência (ciências do mundo físico, da vida e do homem) para problematizar a insuficiência do paradigma da disjunção/redução e edificar um método complexo, dois outros grandes eixos descortinam-se em sua obra.
O primeiro contempla a reabilitação da noção de sujeito, complexificando a idéia de homem genérico em Marx, este significando aquele que não pode – por não conseguir – se dissociar da cultura, uma vez que reativa elos indissociáveis do sapiens e do demens, revigora as dimensões simbólicas e míticas, tece o rosto de um ser que vacila sempre. Essa reabilitação do sujeito em seu inacabamento e ambigüidade recoloca em uma outra dimensão o estado do sujeito comprometido no conhecimento, concepção esta que exibe as dimensões da subjetividade e incompletude de todo conhecimento e da ciência.
O segundo eixo reflexivo é o da edificação de um método complexo para a ciência. Trata-se na aposta de Edgar Morin na educação. A noção de conhecimento pertinente como aquele que está colocado num contexto age como uma ferramenta importante para religar saberes, contextualizar, ligar parte e todo. Discernindo que é necessário uma reviravolta nos padrões consagrados de ensino-aprendizagem, que é crucial aprender a aprender, que a criatividade na ciência emerge, sobretudo, no manuseio do método como estratégia e não como programa predefinido, Morin nos últimos anos tem investido nos horizontes de uma educação para a complexidade, como se pode ver em livros como A cabeça bem feita:
repensar a reforma, reformar o pensamento,116 Educação e Complexidade: os sete saberes
necessários a educação do futuro,117 Educação e complexidade: os sete saberes e outros
ensaios,118 e Educar na era planetária: o pensamento complexo como método de aprendizagem pelo erro e incerteza humana119.
Bem compreendidas as coisas, uma idealização didático-pedagógica de tal magnitude demanda uma obstinação e uma perseverança capitais por parte de todos quantos se cobrem a tarefa de plantar as sementes do pensamento complexo na lida cotidiana da ciência e na produção do conhecimento – seja nas esferas do ensino, da pesquisa ou da extensão. Por outro lado, entendendo que a vitalidade do saber científico necessita, sempre, de uma atitude exogâmica120 de acolhimento de outras cosmovisões de pensamento (o que reduz os vícios de uma ciência da assepsia e os absolutismos da cientificidade), é igualmente importante reconhecer saberes outros, não-científicos, sapienciais, dos quais se têm valido e ainda se valem numerosas populações do planeta que não se encontram contextualizadas na teia da sociedade da informação e do tão anunciado progresso da alta modernidade.
116 MORIN, E. A cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. 7º edição. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002.
117 MORIN, E.. Os sete saberes necessários à educação do Futuro. São Paulo, SP: Editora Cortez, Brasília, DF: UNESCO, 2002.
118 MORIN, E. Educação e complexidade: os sete saberes e outros ensaios. Organização de Maria da Conceição X. de Almeida e Edgar de Assis Carvalho. São Paulo: Cortez, 2004
119 MORIN, E.; CIURANA, E. R.; MOTTA, R. D. Educar na era planetária: o pensamento complexo como método de aprendizagem pelo erro e incerteza. Brasília, DF: Unesco; São Paulo: Cortez, 2003.
120 Segundo o dicionário Aurélio, palavra que significa Antrop. Costume social que prescreve o casamento entre indivíduos pertencentes a grupos ou subgrupos distintos. Ou ainda no dicionário HOUAISS: cruzamento de indivíduos não aparentados ou com grau de parentesco distante.
Identificar e admitir como certos esses saberes, aprender com eles, não se esquecendo de fazê-los dialogar com a ciência instituída pode ser uma missão importante do pensamento complexo, com o objetivo de facilitar uma ecologia das idéias e da ação.