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3.1 Materials

3.1.2 Phenotypic records

A capacidade de representar o mundo, comparar e dar sentido às coisas, definir medida, quantificar, simbolizar e transmitir valor aos fenômenos da realidade constitui-se na matriz antropológica do processo de viver e conhecer como um axioma cristalizado. Portanto, não se constitui numa competência específica da ciência. As formas de linguagem transcendente, transparente e imanente são alimentadas pela inclinação intrínseca e universal ao conhecer. A humanidade, com o passar dos tempos, tem expressado uma multiplicidade de saberes que denotam estratégias distintas do pensamento.

Progredidos, evoluídos e formados às margens do conhecimento escolar e da ciência, os saberes da tradição são, ao longo da história, repassados de pai para filho pela oralidade e pela experiência. Eles constituem uma “ciência primeira” ou uma “ciência neolítica”, conforme expressões de Lévi-Strauss.

Não se encerrando nos signos culturais do passado, essa ciência primeira coexiste hoje, lado a lado, com o aumento evolucional das tecnociências em um mundo globalizado. E isso porque não se trata de um conhecimento concernente às sociedades do passado, nem de um estado ou maneira primitiva de pensar, mas de um modelo de compreensão do mundo que nutre e constitui a condição humana. O ser humano desde que alcançou o estado sapiens em sua existencialidade, sempre buscou a compreensão, independentemente do contexto ou cultura onde possam estar inseridos. A capacidade de pensar e compreender a realidade, não são diferentes nos urbanóides de São Paulo em relação aos índios do Amazonas. Queremos dizer com isso, que a faculdade de representar o mundo e aferir sentido às coisas; das mais variadas formas culturais, são similares: distinguem-se em formas, não em essência. O ser humano anseia pelo saber.

O mundo, mesmo diante do tão propalado progresso fragmenta-se em duas grandes matrizes epistemológicas. De uma parte, o método científico com sua linguagem imanente tem dado primado às propriedades cognitivas como a linearidade, as relações de causa- efeito e as deduções reguladas pela simetria, harmonia, exatidão e pelo princípio lógico da identidade dos objetos e coisas. Tomando esse tipo de pensamento dentro de uma linguagem

metafórica, poderíamos comparar a relação ciência e tradição como uma régua e um compasso. A régua torna-se a metáfora da ciência. Por outro lado, o saber da tradição (sabedoria) expressa-se pelo pensamento na qual predomina a circularidade e a fraca distinção em separar as realidades dos fenômenos. O compasso seria a metáfora apropriada para compreender essa matriz de conhecimento do mundo. Portanto, o compasso, aqui, representa metaforicamente os saberes da tradição.

Para Edgar Morin, a ciência alimenta-se dos saberes não-científicos e não cortou o cordão umbilical com o senso comum. Diz Morin:

É certo que todos os conhecimentos científicos extraídos da experiência social se emanciparam e transformaram. Nem por isso se separaram totalmente: força, trabalho, energia, ordem, desordem conservam o seu cordão umbilical comum. Como observou Bronowski, o conhecimento científico nem sempre pode passar sem as noções do senso comum, embora tenha, por outro lado, transformado o senso comum impondo- lhe uma nova visão de mundo, primeiro com a concepção mecanicista- determinista do universo, depois, ainda mais hoje, com o big-bang, galáxias, buracos negros, antimatéria.121

De outra maneira, entre os saberes não-científicos dos quais Morin se refere, é essencial aproximar e distinguir um conjunto de conhecimentos concebidos, edificados e ordenados por populações que, mesmo distantes dos recintos escolares e ignorantes em relação ao saber científico, desenvolvem com seriedade e desenvoltura formas de leitura da realidade extraordinárias. Devemos compreender que é de importância capital conhecer, aprender e dialogar com as estratégias do pensamento dos povos das ligados à tradição. Além do mais, essas populações são consideráveis no planeta. Se elas são abundantes em regiões como a Amazônia brasileira, seus espaços físicos e todas as influências que eles possam receber e transmitir estendem-se por outros territórios, muitos deles mais próximos de nós do que nos é dado a ver e conhecer.

Por mais que a história de um modo de conhecer regulado pela lógica do sensível seja assinalada por descontinuidades e perdas, é salutar afirmar a dívida que a ciência em sua construtividade contraiu com essa forma e narrativa do pensamento. Na prática, grande parte da história da ciência e da técnica se favoreceu desse diálogo, que pode ser inesgotável até os dias de hoje. A fecundidade e produtividade desse diálogo exige, entretanto, que não se diminua um saber ao outro, que não se legitime um por critérios estabelecidos e convencionados pelo outro, uma vez que tratam de estratégias distintas de pensar o mundo. Assim como a régua é feita para a reta e o compasso, para o círculo – e esses dois instrumentos não se substituem –, também a ciência e a tradição são em essência e estratégias singulares, que não se nulificam entre si, mas apontam para a complementaridade. Com isso, subentende-se o seguinte: não se trata de visões que fragmentam na hora da análise e operacionalidade. O que devemos entender é que a régua e o compasso se complementam. O pensamento complexo distingue, porém, não separa.

Na sociedade atual a transmissão do conhecimento tem sido redutora e mutiladora. Por um lado, o conhecimento científico fragmentado, não-comunicante; de outro, o saber da tradição, entendido como “sabedoria popular”, tratado como filho nascido fora da verdadeira relação e degenerado da espécie a que deveria pertencer. Assim, esse é considerado excluído do âmbito da socialização e transmissão oficial, pois, apóia-se na experiência coletiva da comunidade e não na investigação. Esse estado de incompatibilidade com o conhecimento oficial acaba por construir linguagens e costumes mentais que se impedem mutuamente não possuindo afinidades ou harmonias entre esse e aquele. E que, por esta razão, terminam consolidando espaços de estranheza e intolerância entre povos e culturas.

Portanto, temos consciência de que não podemos incorrer no erro terrível de querer a sobreposição de um saber ao outro, afinal, pensar dessa forma poderia levar à manutenção de uma disputa e oposição que acabam por manter as fraturas existentes entre os saberes científicos e da tradição. Devemos, portanto, pensar e praticar um conhecimento que seja capaz de romper com os padrões mecanicistas e unilaterais, produzindo saberes que religuem natureza e imaginação, universo e homem e que beneficiem uma influência mútua entre ciência e tradição, inaugurando uma nova ética, um novo tempo, outra maneira de enxergar a vida humana.