Dados da Pesquisa Anual do Comércio (PAC) do IBGE em relação a 20065 apontam para uma receita líquida de R$ 29,3 bilhões o faturamento das empresas varejistas do segmento artigos de vestuário e complementos. Essa receita representa 6,6% do que foi apurado no comércio varejista como um todo. Somando-se a este valor o referente ao faturamento do atacado deste segmento tem-se R$ 32,1 bilhões.
Ainda utilizando dados do IBGE6 a combinação dos valores encontrados para despesas de Consumo das Famílias nas Contas Nacionais de 2006 com os
5 IBGE. Comentários gerais Pesquisa Anual do Comércio, v.18, 2006 em: <http://www.ibge.gov.br>. Acesso em: 8 jul.2008.
percentuais de gastos das famílias com vestuário apurado na Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), chega-se a um montante de R$ 49,1 bilhões em despesas com vestuário. Uma diferença de cerca de R$ 17 bilhões se comparado com o valor da PAC. Essa diferença pode ser atribuída a outros canais de venda de artigos de confecção como venda direta e hipermercados não computados na primeira estimativa. É possível também que parte dessa diferença seja decorrente do alto grau de informalidade do setor.
O varejo de confecção no Brasil é extremamente pulverizado, segundo dados do IBGE, em 2006, o setor de vestuário e complementos contava com mais de 160 mil empresas varejistas. Estima-se que as quatro maiores redes de varejo de confecção, C&A, Riachuelo, Renner e Marisa possuam aproximadamente 15% dos R$ 49,1 bilhões do mercado de artigos de vestuário em 2006. Uma realidade bem distinta do setor de alimentos, em que as principais empresas já passaram por vários processos de fusão e aquisição e já se nota uma forte presença estrangeira. Segundo Artigas e Callicchio (2007), o mercado de confecção no Brasil tem peculiaridades que aumentam o desafio paras as empresas internacionais que queiram se instalar no país: demanda por produtos diferentes dos produzidos nos países desenvolvidos, forte preferência pela moda local (e uma forte confiança nas marcas locais) e a disseminação do crédito.
Outra característica do mercado de vestuário é a forte segmentação. As empresas desse mercado são muito focadas em seu público alvo, não é comum haverem empresas que atendam vários segmentos sócio-econômicos, como acontece, por exemplo, com os hipermercados. Uma exceção são as maiores redes citadas anteriormente que têm uma maior abrangência referente ao público atendido.
Além da segmentação sócio-econômica, algumas empresas trabalham a segmentação por estilo de vida, como por exemplo as lojas de surf wear, lojas de produtos esportivos, etc.
Quanto à indústria de vestuário fornecedora do setor, sua organização tem características peculiares (ANÁLISE SETORIAL GAZETA MERCANTIL, 20017 apud CUNHA, 2006):
a) Grande heterogeneidade (tanto em relação a tamanho, escala de produção e nível de tecnologia adotado);
b) Fracas barreiras de entrada (o que pode explicar a pulverização encontrada na estrutura do setor);
c) Mão de obra intensiva (a indústria absorve uma grande parcela da mão-de- obra produtiva, a remuneração desse contingente é fator importante na competitividade das empresas, aumentando o potencial competitivo dos países em desenvolvimento que está baseado nesse fator);
d) A forte utilização da terceirização (característica básica derivada de seu processo produtivo constituído de múltiplas pequenas tarefas – desenho, corte, costura, arremate, etc. – possibilita que cada etapa seja feita em um lugar diferente ou até mesmo por empresas diferentes); e
e) Setor volátil e pulverizado.
Em relação aos produtos, o setor de vestuário pode ser dividido em dois segmentos (ANÁLISE SETORIAL GAZETA MERCANTIL, 2001 apud CUNHA, 2006):
a) Vestuário padrão: envolve a produção de artigos padronizados, que não sofrem grandes alterações devido aos movimentos da moda, são caracterizados por um grande volume de vendas e sua avaliação de qualidade é fortemente associada à durabilidade;
b) Vestuário de moda: engloba a produção segmentada em pequenas quantidades orientadas pelas tendências de moda. As indústrias desse tipo de vestuário precisam ser mais flexíveis e ágeis para que possam acompanhar os movimentos rápidos da moda. A avaliação de qualidade neste caso está mais relacionada ao caimento e cuidado com acabamento dos produtos.
7GAZETA MERCANTIL, 2001, A Indústria da Moda (Vol 1). Analise Setorial,
Cunha (2006) apresenta outro tipo de classificação que divide os produtos de vestuário em:
a) Produtos básicos (representam aproximadamente 25% de todos os produtos); b) Produtos de estação (representam 45% dos produtos, são substituídos duas
ou três vezes por ano);
c) Produtos de moda com mais de quatro coleções por ano (têm aumentado sua participação em resposta à demanda cada vez maior dos clientes por mais variedade e inovação, a justificativa por parte dos grandes varejistas é a freqüência de visitas dos clientes – uma a cada dois meses em média – e o desejo de encontrar novos produtos a cada visita.
A indústria manufatureira de vestuário no Brasil, como no resto do mundo, é bastante pulverizada e formada por inúmeras peque nas e micro empresas. Na década de 1990 as empresas do setor sofreram um impacto econômico com a abertura do mercado, muitas fecharam e as que sobreviveram foram forçadas a passar por um grande processo de reestruturação. Algumas dessas empresas passaram a integrar o varejo nas suas atividades, como foi o caso da Hering com a Hering Store. Hoje as grandes empresas do setor fazem parte de um grupo bastante reduzido, desta forma um fornecedor de vestuário típico é de pequeno ou médio porte (DATAMONITOR, 2007). Uma característica curiosa é que mesmo as grandes redes de varejo de vestuário não têm entre as grandes indústrias os seus principais fornecedores e acabam formando seus estoques por meio do relacionamento com médios e pequenos fabricantes.