3. Theoretical considerations
3.2. The New Keynesian Phillips Curve model
3.2.1. Price setting
Murilo datou do primeiro ano de sua viagem à Europa a grande revelação que constituiu a visita ao Museu de Arte Antiga da Catalunha:
Barcelona é rica em coleções de arte. O Museu de Arte Antiga da Catalunha reúne na colina de Montjuich um conjunto excepcional de afrescos, painéis, esculturas em madeira, elementos arquitetônicos, todos de estilo românico, além de quadros e outras peças de épocas posteriores. A parte românica é considerável e creio que sem igual em toda a Europa. Vide mormente as salas nº 1 a 13, com afrescos provenientes de Pedret, Esterri d’Eneu, La Seo d’Urgel, o formidável Pantocrator do mestre de San Clemente de Taüll: foram trasladados de igrejas e capelas medievais dos Pirineus (de há muito tempo sem culto) por meio duma técnica especial. A pintura antiga catalã é altíssima, ao nível de criação estética que nos deu os “primitivos” flamengos e italianos. Meu primeiro encontro com essa pintura, no longíquo ano de 1952, causou-me um choque de que não regressei até hoje.288
Na biblioteca do poeta, a fascinação pela arte românica mostra-se na presença do sexto volume, Pintura e imagenería románicos, da monumental Ars Hispaniae. Historia Universal del Arte Hispánico.289 O livro Les maitres de la peinture
espagnole: El Greco-Velázquez, de Eugène Dabit290, apesar de trazer na folha de
rosto a anotação “M. M. 1940”, provavelmente foi lido ou relido depois de 1952, pois, diante de duas considerações da introdução, Murilo escreveu à margem “e os primitivos catalães?...”: a de que a obra de dois homens, El Greco e Velázquez, é essencial à pintura espanhola, e a de que não se encontra na Espanha o equivalente aos primitivos italianos.
287
A invenção do finito (PCP, 1305). 288
Espaço espanhol (PCP, 1168).
289 COOK, Walter William Spencer e RICART, José Gudiol. Madri: Ed. Plus-Ultra, 1950. 290
Em Tempo espanhol, nada menos que três poemas consecutivos foram dedicados à arte românica: “Aos pintores antigos da Catalunha”, “A Virgem de Covet” e “As carpideiras”. Para os dois últimos, incluiu indicações museológicas para situar o leitor, respectivamente, “Imagem do século XIII, vinda da Igreja de Covet. Museu de Arte Antiga, Barcelona” e “Pinturas do sepulcro de Don Sancho Saiz Carrillo. 1300. Museu de Arte Antiga, Barcelona”.
“Aos pintores antigos da Catalunha” vem logo em seguida de “Aos poetas antigos espanhóis”, as faces literária e pictórica da Espanha medieval. Sintetiza em verso as principais impressões da arte românica:
Fundais o horizonte plástico da Espanha. Fundais a proporção na majestade, A matéria da vida não transposta, Antes exposta com lucidez didática E medida exata da caligrafia. Sabeis irradiar as cores, Criais largos panejamentos. Enganais a pespectiva. Comprimis a perspectiva. Rigor de arte e de vida.
Fixais o alto objeto do plástico, Tradição do primeiro sol futuro Que irrompe vertical do Apocalipse: Vive no espaço
O Cristo com sua descendência. •
Nos afrescos românicos, medida da Catalunha, O símbolo em valor concreto já se muda. (PCP, 580)
A religião visualizada em cores e formas vigorosas, “lucidez didática”, impressionou Murilo. O divino poderia ser transmitido com “exatidão” e “rigor”, o símbolo transformado em “valor concreto”. Para esse poema, seguramente tomou como referência “o formidável Pantocrator do mestre de San Clemente de Taüll”.291
Pantocrátor designa a imagem de Cristo mais conhecida em que aparece representado frontalmente, bendiz com a mão direita e segura o livro com a esquerda. Retirado da igreja de Sant Climent de Taüll para compor o âmbito V do
291
Museu Nacional de Arte da Catalunha, é uma das obras mais representativas da arte românica. Termos do poema remetem-nos a essa pintura mural: o Cristo é uma figura em “majestade”; sua túnica branca e cinza e manto azul revelam “panejamentos”, dobras e ondulações, oferecendo a ilusão de movimento. Letras e palavras colaboram na lição divina: nos dois lados do Cristo, as letras alfa e ômega, primeira e última do alfabeto grego, indicam que ele é o princípio e o fim de todas as coisas (Apocalipse 1, 8; 21, 6; 22, 13); no livro aberto em sua mão esquerda lemos a inscrição “Ego sum lux mundi” (“Eu sou a luz do mundo”, João 8, 12). Abaixo de Cristo, sua “descendência” em semi-círculo, diversos santos e apóstolos marcados por arcos e colunas.292
No entanto, Murilo não se deteve apenas “no alto objeto da plástica”, do Cristo Todo Poderoso, tendo se aproximado das manifestações mais populares do culto religioso, como a Virgem de Covet:
Nessa talha policroma Resumo o estilo severo Dos primeiros catalães, Mestres da força, escultores: Construíram sua fantasia Com materiais reduzidos. Ordenaram a solidez
Anulando as formas frouxas. Substituíram à dureza Da imagem sacra distante, A proximidade do humano: Elementos que ajustados Pela ternura concisa E a carga da Idade Média
Criaram a Virgem de Covet. (PCP, 580-581)
A Virgem de Covet encontra-se no âmbito VIII do Museu Nacional de Arte da Catalunha293, ao lado de outras imagens talhadas em madeira. De aspecto rústico, os traços faciais são mais familiares, com um leve sorriso294, reconhecidos pelo poeta: “Substituíram à dureza/ Da imagem sacra distante,/ A proximidade do humano:”. Porém, o que fora aplicado à escultura valia também para seu verso:
292
CARBONELL I ESTELLER, Eduard et alli. Guía arte románico. Barcelona: Museu Nacional d’Art de Catalunya, 1998, p. 70-75.
293 V. Anexos, Imagens. 294
“Construíram sua fantasia/ Com materiais reduzidos./ Ordenaram a solidez/ Anulando as formas frouxas”. Com pouco e eliminando o excesso, promoveu um novo direcionamento para sua poesia. Por isso, levantamos a hipótese de que o “choque” causado pela arte românica, em 1952, pode ter sido um dos estímulos decisivos para o conduzir à poesia de Siciliana, de 1954-1955, e Tempo espanhol, de 1955-1958.