4. DISCUSSION
4.2.1 Prey handling before delivery…
Buscando encontrar elementos que me permitissem esboçar o sentido atribuído às classes de recuperação pelos que as vivenciavam, vali-me de procedimentos de análise de investigações baseados no esforço de ultrapassar a aparência (os significados) e ir em busca dos sentidos construídos pelos eventos psicológicos no plano das motivações, necessidades e interesses.
Na concepção da teoria histórico-cultural, compreender o sentido só é possível quando se busca entender as determinações que o constituíram, fruto de compreensões, interpretações e percepções dos acontecimentos e experiências vividas, considerando que a construção do sentido próprio se dá a partir da riqueza das vivências emocionais presentes na consciência de cada um em relação às construções sociais e à atividade.
As falas dos participantes da pesquisa, tanto as que foram ouvidas durante as observações participantes como aquelas que resultaram das entrevistas, constituíram-se no ponto de partida em busca dos significados e sentidos constituídos.
Importante frisar que as categorias significado e sentido, embora diferentes, não podem ser compreendidas desvinculadas uma da outra e, para sua compreensão, devem ser considerados os processos cognitivos, afetivos e biológicos que as constituem.
A análise das palavras implica, necessariamente, na análise dos pensamentos, e esta pressupõe a compreensão dos motivos, necessidades e interesses que orientam as atividades humanas. Isso evidencia a grande complexidade desse processo em que registros permeados de emoções, baseados em desejos e tensões mobilizadoras dos sujeitos, criam experiências afetivas em relação às suas ações.
Segundo Aguiar (2006), “esse processo de ação do sujeito no mundo a partir das suas necessidades só vai se completar quando o sujeito significar algo do mundo social como possível de satisfazer suas necessidades” (p. 17). Somente então o objeto/ fato/ pessoa poderá ser vivido como algo que motiva o sujeito.
Após compilar uma primeira seleção de temas, fiz nova leitura de todo o registro e fui fazendo aproximações entre as anotações na tentativa de associar ideias, frases, palavras, expressões em busca dos principais temas que poderiam nortear a indicação do sentido atribuído pelos participantes à sala de recuperação. A síntese dos principais temas levou-me novamente aos registros integrais em busca de frases emblemáticas ditas durante a pesquisa que indicassem o sentido construído.
Intentando entrecruzar as informações obtidas por meio das diferentes fontes da pesquisa, utilizei-me da organização/categorização proposta por Bogdan e Biklen (1994, p.220) que sugere a análise da compreensão dos participantes da pesquisa sob os seguintes prismas: (1) da situação – no caso, a classe de recuperação; (2) de si próprios em relação à situação; e (3) uns dos outros.
As informações obtidas tanto nas entrevistas como por meio das observações no campo foram organizadas em uma tabela (APÊNDICE F)31 para cada categoria de participantes, a saber, professora Célia, professora Ana, professora coordenadora pedagógica Maria, diretora Mônica, alunos e mães, considerando-se os eixos indicados: a) compreensão sobre a recuperação; b) compreensão sobre os outros participantes do processo de recuperação; c) compreensão sobre si mesmos.
Cada tabela resultou em análise vertical das diferentes categorias de integrantes da pesquisa, derivando na elaboração de breves textos que, ilustrados por frases ditas pelos participantes e excertos dos diários de campo, possibilitaram a interlocução entre as informações obtidas e a construção teórica. Deste exercício de análise resultou o próximo capítulo, que delineia os sentidos da recuperação, considerando as informações obtidas no campo e nas entrevistas, articuladas ao percurso histórico das classes de recuperação, em interlocução com as concepções teóricas adotadas.
Em seguida foi feita a análise horizontal, estabelecendo comparação sobre o que era
comum a todos os participantes com o intuito de apontar em que aspectos o sentido atribuído
por cada um deles se assemelhava. O critério estabelecido para indicar o que poderia ser considerado comum, ou seja, o índice de recorrência deveria ser ao menos cinco dentre as seis categorias de participantes. Desse modo, os elementos considerados comuns foram apontados por todos ou por cinco dentre os seis grupos de integrantes da pesquisa. O texto da análise horizontal estabeleceu as bases para a síntese dos sentidos, discutida nas considerações finais.
Finalizando este capítulo, pode-se dizer, resumidamente, que a análise foi fruto de articulação entre os discursos dos participantes da pesquisa – coletadas nas observações participantes e nas entrevistas individuais e coletivas –, os desenhos dos alunos e a consideração do contexto político, social e histórico em que vêm se constituindo as práticas de recuperação escolar na educação pública paulista, tendo como fundamentação o arcabouço teórico construído pela psicologia escolar brasileira, alicerçado na teoria histórico-cultural.
“Há uns que nos falam e não ouvimos; há uns que nos tocam e não sentimos; mas... há aqueles que simplesmente vivem e nos marcam por toda vida.”
V EM BUSCA DO SENTIDO DA RECUPERAÇÃO ESCOLAR - A
compreensão da recuperação escolar sob o olhar dos participantes da
classe de recuperação
O propósito deste capítulo é apresentar, de forma analítica ― a partir do referencial da Teoria Histórico-Cultural ―, como aqueles que constituem a política pública da recuperação escolar a apreendem, tomando como centro desta análise o discurso dos participantes da pesquisa. Para tanto, comparecem os discursos de (1) alunos, (2) professoras recuperadoras, (3) professora coordenadora pedagógica, (4) diretora e (5) mães sobre a constituição, concretização e sentimentos relativos ao pertencimento a este espaço, difundido como recuperador.
Visando manter a fidedignidade dos discursos de cada participante e no esforço de chegar o mais próximo possível do sentido que confere à recuperação, foram retratados trechos de verbalizações tidos como emblemáticos e fragmentos de anotações dos diários de campo, organizando-se a análise a partir dos três eixos: (a) perspectiva a respeito da classe de
recuperação; (b) perspectiva sobre os outros envolvidos no processo; e (3) perspectiva de si mesmo em relação à recuperação32. Em cada eixo foram especificados temas, buscando
organizar com clareza o processo de construção dos sentidos. Alguns desses temas apresentam-se repetidos, considerando-se sua recorrência nos relatos dos diferentes integrantes uma evidência de sua relevância para a análise.
Busquei estabelecer interlocuções entre verbalizações dos participantes, diálogos comigo, registros das observações participantes, concepções teóricas que fundamentam o trabalho, registros dos documentos da escola e trechos das propostas oficiais estabelecidas ao longo da história.
32 Exceção feita à análise dos discursos das mães, que por não pertencerem diretamente ao processo de