3. RESULTS
3.1 Choice of prey
3.1.4 Prey delivery according to nestling age…
Passei bastante tempo debruçada diante dos dados obtidos por meio das anotações no campo e posteriores registros ampliados para, então, proceder ao estabelecimento de alguns eixos iniciais de análise dos dados observados. Fui estudando os dados, lendo, relendo, grifando e fazendo anotações manuais a lápis nas bordas das folhas que continham a digitação dos relatos ampliados, destacando o que me chamava a atenção, sinalizando dúvidas, sublinhando expressões interessantes e tentando perceber coerências e contradições nas falas dos participantes. Algumas vezes tive a sensação de estar vendo pela primeira vez certas informações, como se não tivessem sido, de fato, percebidas durante as observações (ROCKWELL, 1987).
Em um caderno à parte anotava temas, palavras, expressões, conceitos que eram recorrentes, complementares ou contraditórios com o objetivo de iniciar a elaboração dos eixos temáticos de análise. Fiz várias perguntas aos dados registrados, busquei evidências que não coincidiam com minhas hipóteses iniciais, escrevi expressões reveladoras de meus sentimentos sobre o que havia sido registrado, indignei-me revendo algumas anotações feitas sobre situações presenciadas no campo ou sobre expressões verbais ouvidas, emocionei-me lendo o que as pessoas haviam falado para mim – angústias reveladas, quase secretamente, por cada um dos envolvidos neste processo de recuperação. Aos poucos esse tempo de releitura e estudo dos registros foi fortalecendo meu compromisso com os dados construídos enquanto pesquisadora, levando-me a elaborar alguns eixos de análise com base nas categorias sociais, ou seja, aquelas que se apresentavam de modo recorrente, à primeira vista especificamente relacionadas à situação pesquisada.
Cabe considerar que estes primeiros intentos de análise ainda esquemáticos, dispersos e empíricos são importantes, mas a busca inicial de interpretações deve ser feita com muita cautela, pois pode implicar em equívocos na atribuição de significados aos fatos observados no campo. Segundo Ezpeleta e Rockwell (1986), este cuidado na análise permite organizar os dados presentes nos registros, dando a eles contornos ainda muito próximos às categorias sociais em que tais fatos ocorreram.
Aproprio-me aqui da brilhante frase de Victor Hugo (1967) no renomado romance “Os miseráveis” como prova da consciência que tenho da falibilidade no processo de registro e expressão das situações vividas no campo: “Não temos a pretensão de que este retrato seja verdadeiro, dizemos apenas que é semelhante” (p. 23).
Assim, admitindo a impossibilidade de compartilhar plenamente os sentidos atribuídos à recuperação pelos participantes da pesquisa, propus-me a buscar essa aproximação, valendo- me do conhecimento cuidadoso da situação estudada, bem como da aproximação das pessoas que dela participam.
Listo, abaixo, os eixos iniciais de análise (APÊNDICE E)30 que elaborei, entendendo por interação os processos de comunicação, especialmente em termos verbais, que ocorriam no campo de pesquisa entre os diversos participantes e que poderão iluminar a compreensão dos sentidos pessoais atribuídos ao processo de recuperação escolar:
Interação professora-alunos Interação alunos-alunos Interação pesquisadora-professoras Interação pesquisadora-alunos Interação alunos-aprendizagem Interação professor-ensino Interação mães-escola
Em seguida, criei uma pasta virtual para cada um desses eixos iniciais de análise. Reli novamente todo o material organizado nos registros ampliados e, utilizando-me do recurso do Word, passei a copiar e colar, de modo a arquivar os fragmentos das situações registradas, que denominei cenas, em cada uma das pastas criadas, segundo a pertinência aos eixos. Algumas dessas cenas foram incluídas em mais de uma pasta, uma vez que continham dados referentes a mais de um eixo.
Caracterizei cada cena arquivada indicando a procedência, isto é, de qual registro ampliado havia sido retirada, valendo-me de códigos, como o exemplificado a seguir: OSP1 – Observação em sala da professora 1 – Célia; OSP2 – Observação em sala da professora 2 – Ana; etc..
Fui fazendo breves comentários a respeito desses fragmentos de observação e sinalizando-os na cor vermelha, de forma a diferenciar os fatos registrados dos meus pensamentos e sentimentos a respeito da vivência no campo. Como resultado desse procedimento, em cada um dos eixos foram compilados vários trechos de falas dos
participantes. Tal decisão se deu fundamentada no pressuposto da teoria histórico-cultural de que as palavras/signos são o ponto de partida para a compreensão do pensamento que será sempre tomado não separadamente das emoções, mas como sendo impregnado delas, uma vez que a análise do pensamento implica na busca dos motivos, necessidades e interesses que orientam o movimento deste.
Ressalto que a revisão de literatura realizada antes, durante e após a pesquisa de campo trouxe grandes contribuições tanto em tomadas de decisão no campo como no planejamento da elaboração das análises.
Interessante como a releitura dos dados foi me fazendo ampliar o olhar, pensar outras possibilidades de compreensão dos fatos, ter mais cuidado com as críticas às professoras, transformar certezas em dúvidas, ficar atenta para não atribuir culpabilizações e interpretações imediatas, ampliar as hipóteses sobre as atitudes das pessoas, não estabelecer relações causais de modo simplista, como se fosse possível indicar causas isoladas que, por si só, determinassem os fenômenos. Isso se coaduna com a afirmação de Rockwell (1987):
“Consideramos que se há hecho análisis etnográfico cuando se modifica substancialmente la conceptualización inicial del objeto de estúdio; cuando, a consecuencia de la construcción de nuevas relaciones, se puede dar cuenta del orden particular, local y complejo del fenômeno estudiado; cuando la descripción final és más rica, más densa que la descripción inicial “ (p. 19). Dando continuidade à análise, foi feito um refinamento dos temas, integrando os dados e sintetizando os eixos rumo à busca das categorias analíticas. Foram escolhidas algumas frases ilustrativas ditas em situações observadas no campo, tidas como emblemáticas dessas categorias, uma vez que se considera de suma importância o acesso às falas dos participantes da pesquisa por meio das citações diretas de suas opiniões e explicações sobre o fenômeno, no caso, a recuperação escolar.
Um longo processo foi percorrido na busca de elementos para a análise da cadeia das relações entre os conteúdos, de modo a aprofundar as discussões do caráter histórico e social em que eles se estabeleceram (ANDRÉ, 2005). Isso possibilitou a vinculação do conjunto de informações das categorias sociais às concepções teóricas e documentais para, enfim, chegar à construção das categorias analíticas (MERCADO, 1987).