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CHAPTER 1: UNFOLDING THE SECRET

1.2 Previous research and use of terminology

“Brasilina, Santa Tereza, Florestal, Pedra Azul, são alguns dos times que

ficaram sem campo. Time que fica sem campo, vai minando as forças dele... vai minando... vai minando... até acabar” (Gilmar Mansur, Vice Presidente do Social Olímpico Ferroviário).

O maior patrimônio material que um clube de futebol amador pode ter é, indubitavelmente, o campo de futebol. Não são poucos os times de futebol amador que, atualmente, não possuem campo próprio; na verdade, a menor parte deles não possui campo próprio. Estes clubes se tornam reféns desta falta de estrutura já que passam a depender do aluguel de um campo para a realização dos jogos e conseguir um campo para alugar não é tarefa fácil. A longevidade destes times fica, desta forma, comprometida.

O Social Olímpico Ferroviário é um destes clubes que possui campo próprio. Por este e outros motivos este clube tem uma história quase centenária. O campo de futebol no qual o Ferroviário manda seus jogos ainda permanece o mesmo, no mesmo local

desde a fundação do clube. Isso contribui e facilita o enraizamento do clube na comunidade e para a criação de vínculos – emocionais, sentimentais, sociais, clubísticos

– entre as pessoas do bairro e o clube, ou seja, o fato de que existe ali um campo há um

longo tempo contribui para uma maior identificação do clube para com a comunidade, o bairro, o qual se sente representado por aquele clube. Este vínculo, como se verá mais adiante, é um dos elementos responsáveis pelo apelo e engajamento em torno do clube de futebol amador.

A entrada para o campo do Ferroviário, ou o Estádio Ernane Cotrin (como aparece pintado na fachada da entrada do campo), fica bem atrás do trailer. Aquele que adentra à área do campo deve cruzar um portão e seguir por uma espécie de beco17 de uns 20m de comprimento até se chegar ao campo que forma um ângulo de 90º com o beco. De ambos os lados deste beco há algumas casas, remanescentes da época em que havia ali uma favela18. Dentre estas casas está a antiga casa do senhor Gutenberg Mansur, na qual ainda vive a mãe de Evaldo, Gilmar e Mauro. Os vestiários dos visitantes e da arbitragem – que a partir daqui serão utilizados como referência devido ao fato de se localizarem no fundo do campo, ponto estratégico, pois está mais perto da saída - estão localizados à esquerda do beco, na parte de trás do campo19. Nestes vestiários há chuveiros para que os jogadores se refresquem nos dias de forte calor e uma privada para se fazer as necessidades. A fachada dos vestiários é precária, há pouco ou quase nenhum reboco, apenas tijolos à mostra. Há uma espécie de alambrado de

“tela” que protege a linha de fundo e não permite que a bola saia do campo quando

chutada para longe da baliza. Entre este alambrado e os vestiários, há uma área livre com algumas árvores que fornecem uma generosa, porém concorrida sombra nos dias de jogos20. Esta sombra concentra a maior parte das pessoas que se dirigem ao campo do Social Olímpico Ferroviário para acompanhar as partidas ali realizadas; este local figura como aquele que oferece maior conforto aos espectadores, mesmo possuindo poucos assentos. Muitas das pessoas com as quais conversei durante o trabalho de

campo relataram que não há coisa melhor do que “tomar uma” à sombra daquela árvore

17 Ver imagem do beco em “Anexo 6”.

18 Ver imagem das casas em “Anexo 6”.

19 Ver imagem dos vestiários em “Anexo 7”.

assistindo a uma partida de futebol e “cornetando” os pernas de pau que, por ventura, estejam jogando ou apoiando o time com o qual se simpatizam e torcem. Bem ao lado deste alambrado foi colocado um estreito e longo banco de ferro21, que serve como lugar privilegiado para aqueles que assistem aos jogos realizados no campo. A sombra gerada pelas árvores não alcança este banco de ferro, que fica muito quente para acomodar qualquer espectador que queira acompanhar um jogo. O alambrado se estende da linha de fundo, em frente aos vestiários dos visitantes, e por toda linha lateral de ambos os lados do campo. Na extremidade oposta àquela dos vestiários dos visitantes, aonde se localiza a outra baliza, há um grande e alto muro marcando o fim do campo. Embora este muro tenha por volta de 12m de altura, não foram poucas as vezes em que potentes chutes sem direção fizessem com que a bola fosse arremessada por cima do muro em direção às residências que ali se localizam; nem todas eram recuperadas.

Tomando como referência o vestiário dos visitantes e da arbitragem, à esquerda, rente ao alambrado lateral esquerdo, há uma pequena arquibancada, com três degraus apenas cuja importância para o campo é inequívoca. Nesta arquibancada os torcedores podem se acomodar de maneira mais confortável, sobretudo nos dias em que não há sol muito forte, nem chuva acentuada, já que não há qualquer tipo de cobertura, a não ser aquela abaixo da tribuna de rádio. As condições desta tribuna de rádio não é das melhores, contudo fornece uma visão muito boa do campo, muito satisfatória para o trabalho dos radialistas que, eventualmente, se dirigem ao clube para a transmissão de uma partida. À direita dos vestiários dos visitantes e da arbitragem está o vestiário do clube da casa22, do Ferroviário. Como era de se esperar, este vestiário se encontra em melhores condições em relação ao outro supracitado, tanto externa quanto internamente. Sua fachada é pintada nas cores do clube: vermelho e branco com listras verticais. Seu interior contém um espaço mais que suficiente para as conversas entre o treinador e os jogadores antes, no intervalo e após as partidas; é o local da preleção do time, se configurando enquanto um espaço central para as atividades do clube. Existem dois diferentes acessos ao campo, cada qual direcionado às equipes que participam da peleja: uma delas está, justamente, em frente a este vestiário, ao passo que uma segunda se localiza próximo ao vestiário dos visitantes e da arbitragem.

21 Ver imagem do banco de ferro em “Anexo 7”.

22

O campo em si é, como a maior parte dos campos disponíveis à prática do

futebol amador, de terra, ou “terrão” como dizem os boleiros. Quando o árbitro autoriza

o inicio de uma partida e os corpos começam a se movimentar pelo campo, a poeira passa a ser mais um adversário a ser vencido, de modo que nos dias em que o tempo está demasiadamente seco, a situação fica ainda pior. É um campo irregular que possui pequenas faixas de grama alta nas extremidades, principalmente, na parte lateral das respectivas linhas de fundo. Podemos dizer que as condições do campo não favorecem a prática de um bom futebol, na medida em que dificulta o toque de bola, sendo difícil um controle maior da pelota cuja trajetória é alterada a todo momento devido a um pedregulho ou buraco, que são constantes em todo o campo.

O campo do Social Olímpico Ferroviário é, juntamente com a atuação dos irmãos Mansur, o principal responsável pela continuação das atividades do clube, de modo que se não existisse este campo, dificilmente o clube conseguiria manter-se em funcionamento. Isso se deve por três motivos, um deles de caráter esportivo, outro de caráter econômico e o terceiro de caráter social:

 Caráter esportivo: o clube tem uma casa, um local para mandar seus jogos.

Todos os jogos do Ferroviário, independente da categoria (amador ou base), são promovidos ali, quando eles são os mandantes, obviamente. Isso contribui para que o clube seja reconhecido por outros clubes, o campo se torna uma extensão do próprio clube, um é indissociável do outro.

 Caráter econômico: a maior parte dos rendimentos necessários à manutenção

do clube advém, justamente, da quantia de manutenção (que seria o aluguel) do campo para quem dele quiser fazer uso. Qualquer pessoa pode jogar no campo do Ferroviário, desde que pague a taxa de manutenção que gira em torno de R$100,00 - que não é alta para um campo de futebol levando em conta o valor pago em quadras e outros equipamentos de dimensões bem menores. A quantia arrecadada ao final do mês com a cobrança da taxa de manutenção da praça de esportes, do campo, é crucial para sobrevivência do clube, na medida em que é o único rendimento que o Ferroviário tem acesso.

 Caráter sócio comunitário: enquanto um espaço da comunidade, o campo é

utilizado, em menor medida do que fora em outros tempos, por moradores dos bairros próximos enquanto lugar de práticas de esporte e lazer.

O aluguel do campo é uma das formas encontradas pelos mandatários do clube para conseguir os rendimentos necessários à manutenção das atividades, pois como afirma Evaldo Mansur em entrevista:

“Na época do meu pai, o Ferroviário, ele surgiu da rede de funcionários ferroviários. A rede ferroviária nessa época dava manutenção na praça de esporte, ela contratava jogadores pra trabalhar na rede ferroviária e nessa época de hoje não tem nada disso. Hoje é o que o Gilmar falou, a gente vive de manutenção, que aluguel não existe. A gente não pode alugar uma coisa que não é nossa. Então nós temos uma ajuda de manutenção de uma praça de esportes, e com esse dinheiro a gente tem que fazer as melhorias no campo, dar um lanche, uma cervejinha depois do jogo, às vezes um churrasquinho depois do jogo, uma pintura no vestiário.” (Evaldo Mansur, Vice Presidente do Social Olímpico Ferroviário)

Foi possível perceber que após a privatização da rede ferroviária e o, conseqüente, fim do apoio dado por esta categoria ao clube, o campo passou a ser disponibilizado àqueles que quiserem pagar e os rendimentos alcançados – que, segundo informações dos dirigentes, não passa de R$1000,00 por mês – a partir da cobrança da taxa de manutenção da praça de esportes é utilizado de inúmeras maneiras atendendo às demandas que se fizerem necessárias.

Considerando o que fora dito até o momento e pensando no aparato estrutural com o qual pode contar um clube de futebol amador, pode-se afirmar que o Social Olímpico Ferroviário possui um ótimo campo, capaz de receber com tranqüilidade jogos dos principais torneios e campeonatos do futebol amador da cidade. Embora as condições do campo não sejam ideais, é inegável que apenas o fato de que um clube tenha conseguido manter o campo aberto e em funcionamento em detrimento das

pressões impostas pela metrópole – pressões essas que acabaram por sufocar os clubes de futebol amador, na medida em que diversos campos da região foram engolidos pelo crescimento urbano – já é, por si só, fator substancialmente relevante. E, ainda, a existência de diferentes vestiários para os times visitantes, para a arbitragem e para o time da casa, além de locais para a acomodação dos espectadores, como arquibancadas e bancos de ferro ao redor do campo, evidenciam a excelente estrutura do time, para os padrões amadores, nunca é demais lembrar. Os rendimentos adquiridos por meio da cobrança da taxa de manutenção da praça de esportes é o principal veiculo de arrecadação financeira do clube, sendo, portanto, de suma importância para a existência do mesmo.