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CHAPTER 2: APPROACHING THE MARKA SÁMI VILLAGES

2.2 Researching a field of secrecy

2.2.1 Challenges and my role as a researcher

A vida social metropolitana tende a isolar cada vez mais as pessoas, as quais confinam-se em suas casas e apartamentos, quando não estão se dedicando a suas atividades diárias, geralmente, limitadas pelas imposições da sociedade do trabalho. Durante etnografia no Edifício Estrela, Gilberto Velho pôde constatar que as pessoas do lugar pouco ou nada se relacionavam entre si, mesmo vivendo num local em que há uma grande aglomeração de pessoas, o que, pelo menos em tese, facilitaria o estabelecimento dos mais diversos tipos de relações sociais. Segundo o autor:

“Os habitantes do prédio pouco se dão entre si. Poucas são as pessoas que se cumprimentam nos corredores e elevadores e menos ainda entabulam conversação. A relação entre vizinhos é, de modo geral, tensa, quando não hostil. Isso se dá por que é muito comum que o primeiro contato entre vizinhos nasça de uma reclamação ou desavença. Além disso, a noção de que é „preciso aprender a se defender‟ faz com que a maioria das pessoas esteja permanentemente em guarda contra qualquer tipo de aproximação. A frase „não quero saber de vizinho‟ ou „não me meto na vida dos outros, não quero que se metam na minha‟, define a disposição dos moradores. Há alguns que contam

histórias de como eram ingênuos, procuravam ajudar os vizinhos e que estes „acabaram se aproveitando‟.” (VELHO: 1978. p. 43)

O futebol amador de um modo geral e os clubes de futebol amador, especificamente, cumpre uma importante função social no que tange a formação de grupos, no que se refere ao encontro das pessoas numa metrópole que tende ao isolamento, a não convivência, à individualização cada vez mais evidente das pessoas.

A partir do trabalho de campo no Social Olímpico Ferroviário, foi possível perceber a existência de pequenos grupos no interior do clube. Não houve maiores dificuldades em delinear cada um dos diferentes grupos, já que eles são extremamente heterogêneos e diferentes entre si. É preciso, pois, neste momento apontar e caracterizar os grupos sociais que compõem o clube estudado. Este apontamento e caracterização são de suma importância para este estudo na medida em que se torna possível compreender com maior clareza de que forma cada um destes diferentes grupos se utilizam dos espaços disponibilizados pelo clube aos freqüentadores. Além disso, podemos fazer inferências a respeito da maneira como cada um destes grupos interage com o clube e entre si. De acordo com o que fora observado durante o trabalho de campo, podemos dizer que estes grupos se constituem em quatro: peladeiros, categorias de base, amador, cervejeiros.

O grupo social dos peladeiros é formado por aqueles que se dirigem ao clube para jogar uma pelada, ou como chama Arlei Damo, para praticar o futebol bricolado. Este grupo é responsável por elevar a diversidade de tipos de pessoas que freqüentam o clube. Cada uma das diferentes peladas conta com diferentes turmas: os peladeiros de sábado de manhã, os peladeiros de sábado a tarde, os peladeiros de domingo de manhã. Vale ressaltar que cada uma destas peladas são compostas por diferentes pessoas, de diferentes faixas etárias – embora em tal grupo não se verificou a presença de crianças e adolescentes, somente adultos -, de diferentes lugares, com diferentes entusiasmos e qualidade técnica, porém quando analisadas sob a perspectiva do clube, do futebol amador num sentido mais amplo, caracterizam-se enquanto um mesmo grupo. A atuação deste grupo no clube segue um padrão mais ou menos estável. Toda a estrutura disponibilizada pelo clube aos freqüentadores é utilizada: o campo é utilizado para a consecução do jogo, os vestiários são utilizados antes e depois da pelada para que os

peladeiros coloquem os equipamentos (chuteira, meião, calção e camisa) e tomem um banho após a partida e, por fim, o trailer é utilizado para a infalível resenha após a pelada, resenha essa regada a cerveja e tira gosto.

A turma da pelada em questão chega ao clube, avisa àquele que está no trailer – seja o Mauro Mansur ou mesmo o Gilmar Mansur – se reúnem à beira do campo, definem os times (esta definição, geralmente, é feita aleatoriamente por meio de 22 números, sendo que de 1 a 11 define o primeiro time e de 12 a 22 o segundo time), e iniciam o jogo.

O grupo que se constitui em torno das categorias de base é formado, basicamente, pelos jogadores do clube – de cada uma das diferentes categorias – e por aqueles que os acompanha, na maior parte das vezes, os próprios pais. Por se tratar de crianças e adolescentes, com idades que variam dos 12 aos 18 anos, a presença dos pais é muito comum. Estes pais acompanham os filhos e se tornam torcedores do clube quando assistem às partidas em que seus filhos estão em campo. Todavia, este torcer não está ligado ao clube, mas sim ao filho, ou seja, depende única e exclusivamente da presença do filho em campo. Estabelece-se, nesse sentido, uma relação extremamente pueril, momentânea, não se estendendo aos momentos pós jogo. Não podemos afirmar que estas pessoas são torcedoras do Social Olímpico Ferroviário, no sentido estrito da palavra. Segundo Gilmar Mansur:

“Hoje porque o seu filho joga você vai ver ele, não é exatamente pelo Ferroviário. É porque seu filho tá ali. Se ele tirar a camisa ali e for por outro time ele vai pro outro lado. Tá entendendo? Então o torcedor hoje é pouco, muda muito rápido. O torcedor é muito pouco que tem hoje.” (Gilmar Mansur, Vice Presidente do Social Olímpico Ferroviário)

Como se pode perceber, a presença da figura do torcedor autêntico do clube de futebol amador é cada vez mais rara - sobretudo em clubes como o Ferroviário, cuja configuração não favorece a existência deste tipo de torcedor; como se verá mais adiante em alguns clubes do futebol amador da cidade, como o Mineirinho Esporte Clube, por exemplo, ainda se verifica a ocorrência deste tipo de figura, cuja importância para o clube é inestimável. Há, na verdade, a torcida pelo jogador e não pelo clube.

Um terceiro grupo que se forma à margem do clube diz respeito àqueles que se dirigem para aquele local buscando o mesmo que buscam em bares e botecos. Chamo

estas pessoas de “cervejeiros” devido ao fato de que é um grupo que se constitui apenas

em torno do trailer, com o objetivo exclusivo de se refrescar com uma cerveja nos dias de sábado, mas, principalmente aos domingos. Este grupo é composto, majoritariamente, por indivíduos de faixa etária mais velha, girando em torno de 35 a 70 anos. Estas pessoas vivem nas redondezas, nos bairros e comunidades próximas ao clube e, por isso, se dirigem ao local como forma de vivenciar sua comunidade, seu bairro, seu pedaço da metrópole, no sentido atribuído por José Magnani. As ideias deste autor a respeito dos processos de socialização e sociabilidade nos bairros metropolitanos são de grande valia para analisar este grupo, já que podemos assumir que o clube e os equipamentos disponibilizados por ele (trailer e o campo) cumprem a função de

“núcleos do pedaço”, sendo considerados referências espaciais e sociais, para os quais,

recorrentemente, as pessoas se dirigem quando estão “à toa” no bairro e, ali, estabelecem relações com seus comuns - ou seja, moradores do bairro e comunidades próximas. Os cervejeiros são, nesse sentido, o elo de ligação mais evidente – pelo menos no caso do Social Olímpico Ferroviário – entre o clube e a comunidade. Ora, digo isso pensando da seguinte maneira: estes indivíduos poderiam vivenciar o bairro, o pedaço ao qual pertencem, a partir de outros núcleos que não o Ferroviário, tais como, um bar, uma padaria, uma praça, uma igreja, uma esquina. O clube se configura, portanto, como o palco para a atuação destes indivíduos em seu pedaço.

Um quarto grupo que se forma a partir do clube de futebol amador e que tem uma importância fundamental é o time adulto, ou como é chamado por aqueles que estão envolvidos ao clube, o time amador. A atuação deste grupo tem uma relevância ímpar para o clube por diversos aspectos. Estes aspectos capturam uma correspondência social do clube e uma essência sociológica do futebol amador. Dentre estes aspectos podemos destacar, inicialmente, a visibilidade do clube no cenário do futebol amador da cidade. Ora, o clube que tem um time amador, adulto de qualidade e que consegue disputar todos os campeonatos e vencer alguns adquire grande prestigio frente outros clubes e isso é demasiadamente importante no que diz respeito à forma como se estabelecem as relações entre os clubes de futebol amador da cidade. Um bom time garante que o clube será temido por todos os adversários e este temor é um dos

elementos que permeia as relações entre os clubes de futebol amador. Outro aspecto relevante em se tratando da formação do time adulto, amador, se relaciona ao fato de que a possibilidade de que um bom time cative a comunidade em torno de um jogo, de um torneio ou campeonato é muito maior quando se forma um bom time, um time de qualidade capaz de vencer uma competição. Neste caso assistir a uma partida deste time se torna algo quase irresistível para as pessoas que vivem nas proximidades do clube, configurando-se, assim, como uma forma de lazer destas pessoas no interior de seus próprios bairros.

Em se tratando do Ferroviário, o que se percebeu durante as observações de campo é que o time adulto, o time amador não vive seus melhores dias. Embora esteja na primeira divisão do futebol amador, o Módulo I, não houve sequer uma partida desta categoria durante período em que as observações foram levadas a cabo, revelando um quadro de dificuldades por parte do clube em constituir uma equipe desta categoria. Há muitas dificuldades por parte do clube em montar uma equipe competitiva o bastante para disputar os torneios e campeonatos. Estas dificuldades serão detalhadas mais adiante na medida em que remontam a questões mais amplas que extrapolam o contexto especifico do clube estudado, pois são compartilhadas pela maior parte dos clubes de futebol amador da cidade.