Praticante do voleibol, Elisa precisou largar os treinos que frequentava em um ginásio da cidade para poder assistir aulas de Física, Matemática e Química em curso pré-vestibular privado. Influenciada por sua cunhada, professora de Química no estabelecimento, Elisa decidiu investir em sua preparação para o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) logo no 1º ano, série
que cursava no momento da entrevista24. Com 15 anos, sabe bem que não pretende seguir carreira na área de Ciências Humanas. “Você tem que explicar tudo, tem que ficar fazendo texto”, ela se queixa.
Antes, almejava ser médica veterinária, mas, conversando com sua irmã, graduanda em Engenharia de Materiais em uma universidade pública no estado do Paraná, e uma amiga de sua irmã, graduanda em Engenharia Ambiental na mesma universidade, mudou de opinião. Nos diálogos, as universitárias compartilhavam com Elisa as experiências vivenciadas no curso, como as atividades em laboratório, por exemplo. No momento da entrevista, estava indecisa entre cursar Medicina – pois gostaria de ajudar as pessoas – ou Engenharia Ambiental – pela forte presença da Biologia no currículo do curso. Coloca-se como mais inclinada para a engenharia por apreciar fazer cálculos. O que a afasta da Engenharia de Materiais é a forte presença da Química, disciplina que não gosta.
Elisa estuda na PB e fez o Ensino Fundamental também em uma escola da rede pública de ensino. Ao comparar as duas instituições, diz que a atual é melhor porque seus colegas estão interessados nas aulas e não atrapalham o professor, assim pode manter a atenção em sua explicação. Acrescenta, como aspecto positivo, que a PB disponibiliza, no fim do período, um momento para que os estudantes possam esclarecer suas dúvidas. O lugar onde Elisa aprende é a sala de aula. Não estuda em casa, só escuta a fala do professor na escola. Até então, esta postura não tem causado problemas para ela em termo de notas, pois assegura que nunca tirou uma ‘nota vermelha’ ou ficou em recuperação.
Matemática e Biologia são os componentes curriculares que têm se saído melhor ao longo de sua trajetória escolar. Contudo, está com dificuldades em Biologia por não entender o conteúdo. Elisa desconfia da veracidade do conteúdo que a professora lhe apresenta por não poder ver para comprovar se é verdade ou não. Queixa-se ainda da necessidade da leitura para o estudo da disciplina. No caso da Matemática, estuda-se “fazendo conta”. Diz ter facilidade com a disciplina, sua matéria preferida. “Sempre fui melhor em Matemática, sempre!”. Até onde lembra, ela “[tem] facilidade com números” desde a 1ª série do Ensino Fundamental. Adora equações – principalmente as logarítmicas – não importando seu grau de
dificuldade. Matemática é a única matéria que estuda em casa fazendo todos os exercícios da lista passada pela professora. Em sua opinião, compensa aprendê-la por seu valor utilitário.
[...] eu sempre vou usar Matemática. Em qualquer lugar que eu vou trabalhar ou em qualquer outra coisa vai usar Matemática.
Com a Física a situação é diferente. Começou bem no início do 1º ano, mas foi piorando com o tempo. Não em termo de notas – no momento da entrevista suas médias bimestrais eram dez, cinco e oito –, mas na sua relação com a matéria. No primeiro bimestre, Elisa achava Física fácil e gostava dela porque entendia. Teve nota máxima na avaliação. Naquela época, o conteúdo estudado e avaliado foi notação científica que, nas suas palavras, é “matemática, é fácil”. No entanto, suas dificuldades começaram tão logo se iniciou o estudo dos movimentos e a disciplina passou a não lhe agradar. Perguntamos o que havia na Física que a incomodava e ela respondeu
Eu odeio desenhar. Odeio desenhar, odeio! E na Física você tem que fazer um desenho do carrinho. Às vezes você tem que fazer o desenho do vetor. Por exemplo, aquele movimento que você gira, fica girando a bolinha assim, plano inclinado. Nossa, é muito chato isso! Movimento de engrenagens, eu não gosto.
E continuou, afirmando que a Física é “chata” pela presença dos desenhos e das contas. Mas, se os cálculos são agradáveis na Matemática, por que não o seriam na Física? O problema reside no fato de que, segundo Elisa, as informações necessárias à execução dos cálculos ou estão contidas nos desenhos apresentados ou é preciso desenhar para conhecê-las. Fica confusa com a força de atrito ao ver o desenho de um carro fazendo curva. A presença da força centrípeta também é um problema. Diz também não conseguir montar um plano inclinado, nem tão pouco calcular o seno e cosseno nessas situações. O gráfico é outro empecilho na curta história de Elisa com a Física escolar.
Gráfico, aí meu problema! Gráfico! Nossa, como eu odeio gráfico! Principalmente gráfico de tempo por velocidade, aceleração. Não posso ver isso na minha frente.
Perguntamos se também encontra dificuldades com os gráficos na Matemática e ela responde que não. Surpresos com a negativa, argumentamos que a fórmula é uma função do 1º grau e que seu gráfico é semelhante ao gráfico de uma função genérica . Ela negou com segurança e firmeza. Insistimos
no argumento e questionamos qual seria, então, a diferença entre eles. Ela disse “que eu não entendo esse gráfico de Física, só entendo esse de matemática”. Percebemos que Elisa não consegue associar Matemática e Física neste caso, mas não foi possível identificar porquê.
Diante este cenário, Elisa considera a Física complicada e, para ela, as aulas são uma obrigação tediosa, tanto no cursinho quanto na escola. Não se considera alguém que se dá bem na matéria. Se pudesse, não teria aulas de Física em lugar nenhum. Busca na irmã apoio, enviando para ela as listas de exercícios. A irmã mais velha responde e explica para a mais nova.
A menção aos desenhos foi um fato que nos chamou a atenção por ser inusitado. Durante toda entrevista buscamos compreender tal aversão de Elisa. Ela se mostrou reticente em se revelar e só no final da entrevista, ao comentarmos sobre a disciplina de Arte, foi possível lançar luz a questão. Diz “Odeio Arte, odeio. Chega na aula de Arte eu quero morrer”. Novamente em razão de ter que desenhar. Assegura que prefere desenhar nas aulas de Física. Algumas vezes, pede a sua irmã mais velha que faça os trabalhos de Arte em seu lugar. Diz preparar cartazes com dificuldade, não conseguir deixar uma linha reta e, até mesmo, manejar com uma régua. Questiona-se como irá lidar com o fato quando estudar geometria. Ela nunca fica contente com o resultado de seus desenhos, pois nunca está igual à figura original, seja ela uma simples paisagem ou um quadro repleto de flores. Os outros, seus colegas e até mesmo seu pai, executam desenhos perfeitos em sua avaliação. Melhores que os dela. E, por fim, revela sorrindo:
Eu não gosto que a pessoa seja melhor que eu. Em matemática não tem ninguém melhor que eu na sala. Só um que ganha Medalha em ouro em monte de coisa. Vai até receber prêmio da Dilma. Só ele que é melhor que eu em matemática.
No vôlei acontece o mesmo. Assevera que não há outra garota em sua turma que jogue tão bem quanto ela.
Para Elisa, não vale a pena aprender Física, a não ser em razão do vestibular. Se não fosse conhecimento exigido no exame, ela nem se daria ao trabalho de aprendê-la.
Em suma, Elisa constrói uma representação negativa sobre a Física, uma obrigação entediante da qual não pode fugir devido a sua relevância para os
exames de acesso ao Ensino Superior. Para ela, a aprendizagem da Física tem como obstáculo a utilização de desenhos na resolução dos exercícios e na construção de gráficos. Os cálculos não são problema, a dificuldade é obter as informações necessárias para executá-los a partir da construção ou visualização de figuras. A irritação com desenhos também se manifesta em Arte. O desgosto e a sensação de incapacidade e inferioridade em executar o desenho como forma de expressão artística também estão presentes na execução do desenho como forma de representação do fenômeno em discussão na Física escolar. Como associa o gosto por uma componente curricular ao fato de considerar-se superior a maioria de seus colegas, renega a Física e sua aprendizagem. Por tudo isto, concluímos que os elementos de sua relação com a Física escolar que desfavorecem sua mobilização para a aprendizagem na disciplina são a relação com o mundo, isto é, o desenho como recurso didático na prática pedagógica nas aulas de Física, reforçada pela relação consigo, ou seja, a imagem que mantém de si e a que quer mostrar para os outros, sendo superior à maioria de seus pares.