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Na noite anterior ao dia de sua entrevista, Jussara havia ficado na escola CC até às dez da noite aproximadamente. Ela e seus colegas revitalizavam um espaço “morto” no terreno da escola. Pintavam as paredes e construíam uma horta suspensa e alguns bancos para deixar o espaço mais habitável e vivo. Um espaço agradável onde eles poderiam conviver. Para ela é muito prazeroso colocar a “mão na massa”. Não só em atividades extraescolares, mas também na própria escola. Relembra de dois episódios significativos que vivenciou em duas instituições distintas. Uma ocorreu no 9° ano do Ensino Fundamental em sua antiga escola, uma instituição privada e confessional católica. Os estudantes eram responsáveis por elaborar e executar uma aula chamada Aula Assembléia, na qual tratavam de um tema sugerido pelos professores. Jussara não descreve com detalhes em que consistia a atividade, mas destaca os aspectos que mais a agradavam: a construção de um cenário e a realização de entrevistas. A outra aconteceu no 1° ano do Ensino

Médio na sua escola atual27. Nesta ocasião, numa atividade chama Sarau, ela e seus colegas abordaram o tema “vida noturna” e para isso construíram cenários, encenaram personagens e discutiram prostituição.

Foi esse tipo de atividade que a fez se matricular na escola CC. Conheceu a instituição através de um evento chamado Ciências Básicas. Nele, os estudantes de diversas escolas tinham contato com atividades experimentais de Física, Química e Biologia. Em algumas delas os estudantes interagiam com os experimentos, como é o caso do foguete no varal, experimento de Física em que os estudantes colocam um combustível para que o foguete se movimente e percorra o comprimento do varal e que lhe agradou bastante. Na escola CC ela gosta da liberdade dada aos estudantes, concretizada pelo número reduzido de regras e da atenção dispensada aos alunos por parte dos professores, que escutam o que têm a dizer. Nas aulas de Física, por vezes, realiza atividades que lhe permitem colocar a “mão na massa”. Cita um seminário sobre o sistema solar em que ela e seus colegas confeccionaram uma maquete e apresentaram o tema à sala.

Dentre os componentes curriculares, Física é o que ela mais gosta e que se intensificou depois que ingressou na escola CC. Pondera que o apreço que mantém por sua professora, a mesma desde o 1° ano, contribui para isso. Há um forte processo de identificação dela para com a professora e a proximidade afetiva entre elas é tamanha que Jussara descreve a relação entre ambas como maternal.

A gente teve sempre uma relação muito forte porque a [minha professora] é uma pessoa que se apega muito às pessoas. Eu também sou assim. Quando tinha almoço aqui dia de quarta-feira, a gente almoçava e ela falava pra todo mundo que ela era minha mãe. Ficou muito mais forte a nossa relação. E todo mundo fala que a gente é mãe, não sei o quê... Que a gente fica com o mesmo tique de mexer no cabelo. Eu gosto muito dela.

Além de gostar de sua professora no âmbito pessoal, Jussara também aprecia a forma com ela ensina. Aqui, Jussara não está se referindo somente as atividades que permitem colocar a “mão na massa”, mas ao modo tradicional do ensinar Física. Há basicamente dois modos de ensinar, segundo Jussara: um “jeito teórico” e um “jeito prático”. Sua professora adota a segunda postura. No entanto, esse “jeito prático” não diz respeito a atividades experimentais, mas aos recursos materiais utilizados durante a explicação dos conteúdos. O fato de sua professora

lançar mão de garrafas, lápis, portas ou exemplos do cotidiano para a chamada explicação, torna os conteúdos da Física mais palpáveis para Jussara. Desta forma, ela consegue visualizar os conceitos “em ação”, como é o caso da noção de alavanca – discutida a partir da maçaneta da porta – ou a noção de inércia – discutida a partir da clássica situação em um ônibus –, por exemplo. Assim, ao comparar a Física com a Química, ela concebe a primeira “mais visível” que a segunda. “Na Química, você tem que imaginar muita coisa”. Esse é um aspecto positivo da Física em sua opinião. Jussara ressalta ainda que sua professora elabora várias listas de exercícios e que isso a ajuda, embora não expresse como tal ajuda ocorra.

Para ela, de um modo geral, a Física escolar não é tão difícil e a dificuldade é relativa, isto é, depende do assunto em questão. Melhor dizendo, depende do conteúdo necessário para resolver a questão.

Eu acho que a física depende muito do conteúdo que você já viu. Se você tá fazendo exercício, você não vai fazer ele de cara. Você vai ter que relembrar várias coisas antes de fazer ele. Você vai ter que puxar muita informação antes de resolver ele. Eu acho que às vezes dá uma complicada porque você dá uma esquecida na fórmula de antes.

Note-se que, ao falar sobre as dificuldades, os objetos de referência são o exercício e a memória e não a compreensão dos processos ou produtos da Física. Mesmo com este contratempo, considera seu desempenho na disciplina satisfatório e não encontra nela nada que lhe desagrade. Estudar Física também lhe é agradável. Sente-se bem porque gosta da matéria, mesmo que às vezes fique irritada consigo mesmo por não conseguir resolver um problema semelhante a outros que já foram solucionados por ela.

Cursando o 2° do Ensino Médio e com 16 anos, Jussara fala com certeza que será professora de Física. Será a primeira de sua casa a trabalhar na área já que ninguém em sua família exerce uma profissão ligada à Física. Ao ser questionada sobre a origem desta vontade, diz “surgiu da [minha professora]”. Conta também que, quando criança, fazia sua avó e seu avô sentarem-se a mesa enquanto ensinava a eles, escrevendo numa lousa, o que havia aprendido na escola. Sentia prazer no que fazia. Durante o Ensino Fundamental, este aspecto de sua vida fica latente até ressurgir no Ensino Médio. Nesta ocasião, o contato com os professores da escola CC, especialmente a de Física, mostra-lhe que o professor

não precisa ser necessariamente autoritário e que pode manter uma relação de diálogo com os estudantes28. Ademais, não pretende ensinar outra coisa além de Física.

Em seu entender, vale a pena aprender Física. Mas não foi sempre assim. No Ensino Fundamental, a Física não ocupava um lugar de destaque em sua vida. Gostava, mas “não ligava muito”. No início do 1° ano do Ensino Médio, ocasião em que passou algumas semanas numa escola da rede pública de ensino antes de se matricular na escola CC, o interesse só diminuiu. Somente com a mudança de instituição o cenário começa a se transformar e aprender Física começa a fazer “muito mais sentido”. Isto é, há bons motivos para estudá-la pelos seus planos para o futuro: “porque como eu almejo dar aula de Física, eu acho que é bem importante aprender tudo isso agora”.

Em suma, nota-se que é a relação com o outro é o elemento de maior peso da relação que Jussara mantém com a Física escolar, pois sua proximidade afetiva com a professora de Física, que extrapola a relação de saber29 entre professor e estudante proposta pela escola, é justificativa para a proximidade com a Física escolar e seus planos futuros: “[minha professora] contribui para tudo”. O outro se mostra tão relevante na sua relação com a Física escolar que, ao falar sobre o período em que menos se interessou pela matéria, reforça o fato afirmando que nem lembra o nome da professora daquela ocasião. Tal fato nos faz supor que o interesse pela Física e a carreira de professor da disciplina é um acidente, pois se a Janaina fosse professora de História, por exemplo, provavelmente seria esse o componente curricular predileto.

A relação com o outro está amalgamada com a relação consigo e com o mundo. É a Janaina a fonte de inspiração para aquilo que Jussara almeja ser na vida adulta (imagem de si no futuro). E a brincadeira infantil com os avôs traz uma memória positiva. Quando brinca de ser professora, Jussara faz uso da imaginação e, ao mesmo tempo, não pode se comportar de qualquer forma: reproduz as ações

28

Apesar de não mencionar diretamente a professora de Física neste trecho da entrevista,

deduzimos que ela pertence ao grupo de professores em questão e com lugar de destaque. Jussara conta que mantém diálogo com eles e em outro trecho fala que faz da professora de Física sua confidente revelando intimidades de sua vida que não conta a mais ninguém.

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Charlot (1997) considera as relações de saber como as relações sociais fundadas sobre o ponto de vista do aprender, isto é, sobre as diferenças de saber. É a relação que existe entre o paciente e o médico, por exemplo.

de um docente em sala de aula esperadas dentro de sua cultura. Assim, apropria-se do mundo que lhe é oferecido enquanto se constrói como sujeito. Por fim, no que se refere às práticas pedagógicas – mundo como espaço de atividades –, percebemos que o modo como Janaina ensina converge com o valor positivo que Jussara atribui ao caráter palpável das coisas.