Chapter 6 – Pressures on the environment
6.4. Pressures on the environment in the
Um trabalho de grande relevo no âmbito das questões suscitadas na perspectiva da identidade comparativa é o recentemente efectuado na Alemanha por Ullrich, Christ e Schlüter (2006) sobre o papel moderador da identificação a dois níveis – subgrupo (nacional) e supra-ordenado (europeu) – face à ameaça intergrupal decorrente da entrada de novos países na União Europeia. Os investigadores procuraram saber se a iden- tificação dual (alta identificação com o país e com a Europa) produz ati- tudes mais positivas ou mais negativas relativamente aos exogrupos. São considerados os diferentes tratamentos dados à questão por dois modelos teóricos: o de Hornsey e Hogg (2000), que destaca os possíveis efeitos negativos da recategorização de subgrupos dentro de uma categoria supra-ordenada e da estratégia assimilacionista, na medida em que podem implicar uma ameaça à distintividade dos subgrupos, e o da projecção do endogrupo (Mummendey e Wenzel 1999), em que se afirma que as avaliações negativas sobre um exogrupo integrado numa categoria supra- -ordenada são uma consequência da percepção de que as características do exogrupo contrariam o protótipo da categoria supra-ordenada, ao passo que as características do grupo de pertença se projectam nessa mesma categoria supra-ordenada. Segundo Mummendey e Wenzel (1999), esta tendência é mais acentuada nas pessoas que têm uma alta identidade dual. Assim, enquanto para o primeiro modelo a identidade dual reduziria a tendência para a diferenciação intergrupal, para o se- gundo modelo, e por força do mecanismo de projecção endogrupal, a predição é a oposta. Embora o estudo de Ullrich, Christ e Schlüter (2006) não pretenda directamente estabelecer uma contraposição entre estes dois modelos, o certo é que acaba por corroborar o modelo da projecção en- dogrupal. Com efeito, o estudo mostra que os indivíduos com alta iden- tidade dual (nacional e europeia) são os que reagem mais à percepção de ameaça decorrente da entrada de novos membros na União Europeia. Tal reacção traduz-se numa avaliação mais negativa destes exogrupos, avaliação esta que é concomitante à projecção das características do en- dogrupo sobre a categoria europeia. Os três autores procuram mostrar a complementaridade dos dois modelos e consideram ser possível que as vantagens da identidade dual se limitem às minorias, não ocorrendo no caso das maiorias; e sugerem que a ameaça intergrupal talvez seja uma das condições situacionais que limitam os efeitos benéficos da identidade
dual. Esta discussão assume particular interesse na óptica da identidade comparativa, mais próxima da posição de Hornsey e Hogg (2000) do que do modelo da projecção endogrupal.
Mas há alguns dados que são compatíveis com ambas as posições. Ge- ralmente, e conforme se viu, só a alta identidade comparativa, e não a dual, suscita o favoritismo. No entanto, no nosso primeiro estudo sobre percepção entre grupos linguísticos em Espanha surgiram padrões de fa- voritismo específico entre os grupos que diferiam na sua relação com a categoria nacional – o que deu origem à noção de identidade compara- tiva. Contudo, também se verificou que o favoritismo mais generalizado ocorria no grupo com baixa identidade comparativa, o que equivale à identidade dual. Este resultado foi interpretado no sentido de o grupo cuja língua era dominante (o dos falantes de castelhano) poder sentir-se ameaçado pelo uso de outras línguas dentro do contexto espanhol. Isto seria compatível com a posição do modelo da projecção endogrupal: quando há uma ameaça, o grupo que revela mais favoritismo é o maio- ritário com identidade dual. Na mesma ordem de ideias, os resultados obtidos no nosso último estudo sobre a influência da identidade com- parativa sobre a acessibilidade crónica da categoria autonómica podem ser interpretados como apoio indirecto a esta orientação: no caso dos ca- talães e bascos, ao aumento da identidade comparativa corresponde o aumento da acessibilidade crónica das categorias respectivas; no caso dos madrilenos, cuja média de identidade comparativa é inferior a 3, é a apro- ximação à identidade dual que prediz significativamente a acessibilidade crónica da categoria autonómica.
Do nosso ponto de vista, é importante tomar em consideração a que contextos sócio-políticos são aplicados estes modelos de processos inter- grupais. Será pertinente associar a posição de Hornsey e Hogg (2000) àque- les contextos multiculturais em que a opção se faz entre a estratégia assi- milacionista e a estratégia da manutenção das identidades culturais e o segundo modelo, o da projecção do endogrupo, àquelas situações em que há um processo de criação de uma nova categoria supra-ordenada, como a Alemanha reunificada ou a União Europeia. No contexto espanhol, que abrange minorias muito diferentes (por exemplo, bascos e catalães) e gru- pos muito representativos da maioria e ameaçados pela perda da sua po- sição de predominância (por exemplo, castelhanos e madrilenos), é pos- sível que ambos os processos – defesa da distintividade ou da projecção endogrupal – ocorram simultaneamente, embora em subgrupos diferen- tes. Estas questões poderão justamente merecer uma análise sistemática em futuras investigações sobre a identidade comparativa.
Conclusões
Como parece evidente, a investigação sobre a identidade comparativa deu os seus frutos, que, em nossa opinião, se centram na demonstração da complexidade da identificação com categorias sociais que se situam a dife- rentes níveis de inclusão e das suas repercussões nas relações intergrupais, como o favoritismo e as atitudes face ao uso das línguas ou face a categorias supra-ordenadas – alargando o espectro da análise dos processos derivados da identidade social. A dinâmica da comparação de identidades permite obter preditores mais exactos sobre as atitudes intergrupais. O desenvolvi- mento desta linha de pesquisa esteve claramente ligado a contextos sociais mais alargados, tal como foi proposto por Tajfel. Destacámos já na intro- dução o papel desempenhado por María Ros ao empreender esta tarefa e ao levar outros a nela participarem e realizá-la com sucesso. Grande parte das ideias, a começar pela da identidade comparativa, são fruto da sua in- teligência e conhecimentos, bem como da sua capacidade de estabelecer relações entre diferentes áreas da psicologia social. Em suma, María Ros conjugava de modo insuperável a criatividade e a capacidade de trabalho. O facto de serem escassos os trabalhos contemporâneos dos nossos sobre questões semelhantes às por nós tratadas e numerosos os trabalhos poste- riores sobre essas mesmas questões é bem revelador de que a nossa abor- dagem focou uma área com interesse, em momento oportuno e seguindo uma perspectiva teórica adequada.
No contexto da análise da identidade nacional, as questões de maior al- cance que actualmente se colocam referem-se aos factores contextuais que podem influir nos efeitos da identidade dual ou da identidade exclusiva e aos processos psico-sociais implicados, assim como aos seus efeitos sobre o favoritismo endogrupal. Por outro lado, tem interesse investigar outros factores, para além da identidade, que influem na percepção de entitativi- dade de um grupo – isto na linha de trabalhos recentes que assinalam a importância da percepção de continuidade colectiva por via da «persistên- cia» cultural ou histórica (Sani et al. 2007). Também será importante estudar o modo como os factores ideológicos, como o nacionalismo, podem dar lugar a favoritismo endogrupal e à depreciação de um exogrupo em con- textos histórico-sociais específicos.
Finalmente, e como já foi referido, escusado será salientar a importân- cia que, do ponto de vista político e no actual contexto da Europa e do seu contínuo processo de construção, assume o estudo do papel desem- penhado pelas identidades a nível nacional e infranacional e da sua re- percussão na construção da identidade europeia.