Para analisar o efeito da identidade nacional e da identidade nacional comparativa na oposição à imigração usámos os dados do ISSP-2003 recolhidos na Suíça e em Portugal, recorrendo a perguntas adicionais que introduzimos no questionário-base. Estas perguntas adicionais foram fruto de uma colaboração entre o ICS e a equipa de psicologia social da Universidade de Lausana. Para analisar as relações entre a identidade na- cional comparativa, os valores e a oposição à imigração usámos os dados do ESS-2004 obtidos em Portugal, na Suíça e na Polónia. Neste caso recorremos a perguntas do questionário-base do ESS sobre valores sociais e sobre oposição à imigração e a perguntas complementares introduzidas nas versões portuguesa, polaca e suíça do ESS, resultado de uma cola - boração entre o ICS, a FORS e o Instituto de Filosofia e Sociologia da Academia Polaca de Ciências.2
Resultados
O impacto da identificação com o país3na oposição à imigração4foi analisado com recurso à análise de regressão múltipla, considerando variá- veis independentes a medida de identificação e dois índices sobre crenças relativas aos imigrantes. Um destes índices agrega diferentes variáveis que procuram avaliar a preocupação com a imigração a nível de aspectos ins- trumentais (percepção de ameaça no campo económico; percepção de pri- vação relativa económica; percepção de interdependência negativa a nível económico);5o outro índice avalia aspectos simbólicos relacionados com
2Agradecemos a colaboração científica de Dominique Joye, da FORS, Universidade
de Lausana, e de Franciszek Sztabinski e Pavel Sztabinski.
3 A identificação nacional foi avaliada pelo seguinte indicador: «em que medida se
sente identificado com» Portugal/Suíça. Codificámos as respostas de modo a variarem de 1 (nada identificado) a 4 (muito identificado).
4 O indicador de oposição à imigração é o seguinte: «actualmente acha que o número
de imigrantes em Portugal/Suíça devia...»: 1 (aumentar muito) a 5 (diminuir muito).
5 Os indicadores usados são os seguintes: percepção de ameaça económica – «de uma forma
geral, os imigrantes são bons para a economia portuguesa/suíça», com as respostas codi- ficadas a variarem de 1 (concordo totalmente) a 5 (discordo totalmente); privação relativa económica – «comparando com a situação económica dos imigrantes, como avalia, actual - mente, a sua situação económica? A sua situação é:...», com as respostas a variarem de 1 (bastante melhor do que a dos imigrantes) a 5 (muito pior do que a dos imigrantes); in- terdependência negativa – «qual das seguintes opiniões corresponde melhor à sua maneira de pensar?», onde as respostas possíveis eram: «os trabalhadores portugueses/suíços têm interesses incompatíveis com os interesses dos imigrantes» vs. «os trabalhadores portu- gueses e imigrantes devem defender os seus interesses em comum».
a imigração (percepção de que os imigrantes são uma ameaça a nível cul- tural; percepção de privação relativa a nível de questões processuais).6As variáveis que medem aspectos simbólicos e aspectos instrumentais relacio- nados com a oposição à imigração foram introduzidas na regressão como variáveis de controlo do efeito da identidade nacional.
Como se pode verificar no quadro 8.1, a identidade nacional em Por- tugal e na Suíça não é um preditor da oposição à imigração. Como refe- rimos atrás, este resultado pode estar relacionado com as crenças luso- -tropicalistas, no caso de Portugal, e com a representação do país como um conglomerado, mais do que uma entidade única, no caso da Suíça. Este resultado pode, porém, indicar apenas uma dissociação entre a iden- tificação com o pais e a derrogação de outros grupos, como discutido e mostrado em estudos anteriores (Mummendey 1995; Brewer 1999), o que indicaria que a identificação nacional não conduz necessariamente a atitudes negativas face a outros grupos ou nações. Finalmente, este re- sultado pode indicar que a identificação nacional, como outras identifi- cações, deve ser medida de forma comparativa quando o objectivo é ava- liar as consequências da saliência e acessibilidade de uma dada identificação nas relações intergrupais. Será que, quando a identificação com a nação é maior do que a identificação com uma categoria supra- -ordenada do mesmo campo, as atitudes intergrupais são negativas? É esta a questão que passamos a analisar.
Seguindo a hipótese de Ros e colegas (Ros, Cano e Huici 1987; Huici, Ros e Gómez 2003) sobre a identidade comparativa e estendendo-a ao con- texto das atitudes face à imigração, propomos que, quanto maior a diferen- ciação, em termos identitários, entre a nação e uma categoria supra-orde- nada, como a Europa, maior a orientação para a discriminação de um exogrupo relevante, como os imigrantes. Assim, se medirmos a identidade nacional, comparando-a com a identidade europeia, obteremos uma me- dida da identidade nacional comparativa que reflecte melhor a saliência e a acessibilidade cognitiva e emocional desta dimensão da identidade social.7
6 O indicador de percepção de ameaça simbólica é: «A cultura e os valores que nos deixa-
ram os nossos antepassados desaparecerão se a imigração no nosso país não for forte- mente controlada.» Codificámos as respostas de modo a variarem de 1 (discorda total- mente) a 5 (concorda totalmente). O indicador de privação relativa procedimental é: «De uma forma geral, as autoridades dão mais atenção aos problemas dos imigrantes do que aos problemas das pessoas como o(a) senhor(a)». Codificámos as respostas de modo a variarem de 1 (discorda totalmente) a 5 (concorda totalmente).
7 A identificação comparativa foi operacionalizada num índice resultante da subtracção
do item de identificação com a Europa («em que medida se sente identificado com a Eu- ropa)» ao item de identificação com Portugal/Suíça.
Para analisar o efeito da identidade comparativa na oposição à imigra- ção recorremos aos mesmos procedimentos estatísticos e às mesmas va- riáveis de controlo usadas anteriormente. Neste caso verificámos (quadro 8.2) que, quanto maior a identidade comparativa, maior a oposição à imigração, mesmo quando introduzimos no modelo testado variáveis que medem aspectos simbólicos e instrumentais bastante importantes na avaliação da imigração. Note-se que o impacto da identidade compa- rativa é, no entanto, menor do que o impacto decorrente da percepção de ameaça nos campos simbólico e instrumental.
Podemos agora avançar na compreensão do papel da identidade na- cional comparativa na determinação das atitudes face à imigração. Neste novo passo analítico, propomos que a saliência da identidade nacional comparativa decorre de valores, sendo apoiada por determinadas cons- telações de valores e travada por outras, e funciona como mediador do efeito dos valores sociais na avaliação dos fenómenos de imigração.
Num estudo sobre a relação entre valores e atitudes face à imigração em cinco países (França, Alemanha, Holanda, Reino Unido e Portugal) mostrou-se que nos vários países analisados, com excepção de Portugal,
Quadro 8.1 – Efeitos da identidade nacional e dos aspectos instrumentais e simbólicos na oposição à imigração em Portugal e na Suíça
(coeficientes de regressão estandardizados)
Portugal Suíça Identidade nacional n. s. n. s. Aspectos instrumentais 0,32*** 0,17*** Aspectos simbólicos 0,22*** 0,51*** R2 ajustado 0,19*** 0,38*** n. s. = não significativo; *** p < 0,001.
Quadro 8.2 – Efeitos da identidade comparativa e dos aspectos instrumentais e simbólicos na oposição à imigração em Portugal e na Suíça
(coeficientes de regressão estandardizados)
Portugal Suíça Identidade comparativa 0,08*** 0,10*** Aspectos instrumentais 0,32*** 0,16*** Aspectos simbólicos 0,21*** 0,49*** R2 ajustado 0,20*** 0,39*** *** p < 0,001.
os valores designados por Schwartz (1992) como valores de autotrans- cendência (compreensão, tolerância, protecção do bem-estar dos outros, preocupação com a natureza) predizem negativamente a oposição à imi- gração. Mostrou-se também que os valores de conservação da ordem so- cial (respeito pela tradição, pela religião e pela família, conformidade so- cial) predizem positivamente, nos cinco países, a mesma orientação comportamental (Ramos e Vala 2009).
Assim, apesar da excepção referida em Portugal, podemos propor que estes valores estão associados à identidade nacional comparativa e que o efeito dos valores na oposição à imigração poderá ser mediado por essa mesma dimensão da identidade social. Desta forma, os valores, enquanto dimensões normativas da vida social, seriam princípios orientadores da acção (neste caso, a oposição à imigração), sendo este efeito mediado pela saliência de um tipo particular de factores cognitivos e emocionais: a identidade social (neste caso, a identidade social comparativa).
Para testarmos esta hipótese usámos, como referido, as bases de dados de três países do ESS-2004 (Portugal, Polónia e Suíça). No modelo tes- tado, os valores do universalismo8 e da conservação são considerados preditores da oposição à imigração.9O modelo prediz que, quanto maior o universalismo, menor a identidade comparativa e menor a oposição à imigração, quanto maior a conservação, maior a identidade comparativa e maior a oposição à imigração e, quanto maior a identidade compara- tiva, maior a oposição à imigração.
Estas hipóteses foram testadas com base nos princípios estatísticos pro- postos por Baron e Kenny (1986). Como podemos ver na figura 8.1, as nossas hipóteses verificam-se claramente no caso da Suíça. Porém, em Portugal e na Polónia os valores universalistas apresentam-se pouco rela- cionados com a oposição à imigração e essa relação, além de reduzida, não é mediada pela identidade comparativa (figuras 8.2 e 8.3).
8 Os inquiridos indicavam em que medida achavam parecida com eles a pessoa descrita
nas seguintes situações: «Um homem\mulher que acha importante que todas as pessoas no mundo sejam tratadas igualmente. Acredita que todos devem ter as mesmas oportu- nidades na vida»; «Um homem para quem é importante ouvir pessoas diferentes de si. Mesmo quando discorda de alguém, continua a querer compreender essa pessoa». Co- dificámos as respostas de modo a variarem de 1 («não tem nada a ver comigo») a 6 («exac- tamente como eu»).
9 Os inquiridos indicavam «em que medida acha que [país] deve deixar que pessoas
de raça ou grupo étnico diferente do que a maioria [nacionalidade] venham e fiquem a viver cá». Codificámos as respostas de modo a variarem de 1 (deve deixar vir muitas pes- soas) a 4 (não deve deixar vir ninguém).