Seguindo os postulados do regulamento nº 62, o presidente mineiro em 1872, Joaquim Pires Machado Postella, manda enviar oito livros para dar início a construção da livraria e/ ou biblioteca que deveria ser instalada na Escola Normal de Ouro Preto. No Fundo Instrução Pública presente no Arquivo Público Mineiro, consta uma carta do presidente do dia 2 de abril de 1872, endereçada ao inspetor geral da instrução pública, informando sobre a lista das obras oferecidas por ele:
Desejando ter a satisfação de como simples particular concorrer para o começo da livraria, que deve haver na Escola Normal, contendo obras sobre a educação e o ensino elementar e direcção de Escolas Normais primárias, offereço com tal destino os livros constantes na relação juncta (APM, IP1/7 – Cx 01, doc 11, 1872).
Dessa forma, o Presidente Joaquim Pires Machado Postella, ao doar os oito livros, tem por objetivo dar início à biblioteca da Escola Normal da então capital. O quadro a seguir
apresenta os títulos dos livros doados, seus autores (da maneira como foram escritos no documento supracitado) e também o ano e local de publicação dos mesmos53.
QUADRO 1:
Relação das obras oferecidas por J. P. Machado Postella para dar início à biblioteca da Escola Normal de Ouro Preto
Obra: Autor: Ano/Local
Le visiteur des écoles Jacques Matter 1838/ Paris L' Instituteur primaire Jacques Matter 1832/Paris De l'education populaire
et des écoles normales primaires
Prosper Dumont 1841/Paris
Histoire universelle de la pedagogie
Jules Paroz 1868/Paris
De l'instruction publique en Allemagne, en Prusse Et En Hollande
Victor Cousin 1841/ Bruxelas
De l'instruction primaire à Londres dans ses rapports avec l'état social
Eugène Rendu 1853/ Paris
Curso pratico de
pedagogia destinado aos alunnos das escolas normais primárias aspirantes ao magistério e aos professores em exercício M. Daligault/ Tradução de Francisco de Paulicéa Marques de Carvalho. 1870/ Santa Catarina
A instrucção pública nos Estados-Unidos: escolas publicas, collegios, universidades, escolas especiaes Célestin Hippeau/ traduzido e
publicado por ordem do governo Imperial no Diario Official do Império do Brasil.
1871/ Rio de Janeiro
Fonte: Arquivo Público Mineiro, IP1/7 – CX 01, doc 11, 1872.
Pelo quadro, é possível observar que a grande maioria das obras oferecidas pelo Presidente Postella foi publicada, originalmente, na cidade de Paris - França, que era àquele momento o principal referencial de educação para o Brasil. Seis das oito obras doadas se encontravam no idioma francês e as outras duas foram entregues na sua versão traduzida.
53 Não foi possível localizar nesta investigação a versão original das obras doadas pelo presidente da província
No contexto do século XIX na Europa, muitos intelectuais se propuseram a refletir e escrever sobre a educação, propagando sobre a necessidade da universalidade da instrução para todas as pessoas e camadas da sociedade. Os escritos destes pensadores começaram a chegar à realidade brasileira especialmente na segunda metade do século XIX, e serviram como referencial a ser adotado nas escolas normais brasileiras e na prática docente em geral. Seguindo a tendência do que acontecia no restante do Brasil, também o governo mineiro entendia que deveriam ser adotados os livros ou manuais (como eram conhecidos) de origem europeia nos institutos normais que estavam prestes a ser instalados na província, a começar pelo da capital.
Os autores dos livros citados no quadro se caracterizavam por serem intelectuais, professores, diretores ou inspetores de ensino, que se propuseram a reformar a instrução pública no contexto em que viviam. A maioria das obras resultava de cursos que seus autores ministravam ou de relatórios das viagens e experiências vividas por eles nas mais diversas áreas do campo educacional. Ao transcrevê-los, estes estudiosos buscavam, entre outras coisas, conferir caráter científico para os conhecimentos pedagógicos.
FIGURA 1:
Alguns dos livros doados para a biblioteca
Os conteúdos das obras fornecidas por Postella contemplam uma série de assuntos considerados fundamentais para a educação no contexto da época. As temáticas abordadas vão desde orientações para como os docentes, diretores e inspetores deveriam operar em seus ofícios e na sociedade, até a organização física das escolas54.
No que compete especificamente aos docentes, é interessante observar que os manuais apontam as virtudes que estes deveriam ter, sendo as principais delas: bondade, firmeza, paciência, regularidade, zelo, pureza de costumas, piedade cristã, polidez, modéstia, prudência, amor da solidão, entre outras. Os manuais orientam também sobre a postura social que os professores deveriam tomar, mesmo em horários em que não estivessem trabalhando. Não lhes era recomendado possuir qualquer tipo de vício, sair muito à noite, visitar com frequência a sua família, ou dedicar muito tempo a outras atividades que não estivessem relacionadas ao seu ofício, por exemplo. O mestre teria que se dedicar, quase que exclusivamente, ao seu trabalho e abdicar de muitas coisas. Por estas e outras razões, a profissão teria que ser encarada, por aqueles que se dispusessem a segui-la, como uma espécie de missão.
Da mesma forma que a descrição dos docentes e de seus valores morais, os manuais forneciam também a definição dos vários tipos de alunos, atentando-se principalmente para as suas virtudes e seus defeitos e as maneiras mais adequadas para o trato com eles.
Parte dos textos doados discorre sobre questões mais teóricas, como a importância da universalização da educação para todas as pessoas e classes sociais desde os jardins de infância até as Universidades. Alguns autores defendem a instrução educacional para as mulheres e a necessidade da coeducação escolar entre os sexos feminino e masculino. Trata- se ainda sobre a ideia da laicização do ensino que começava a ser difundida na Europa nesta época.
Alguns trabalhos se ocupam de apresentar um apanhado histórico do processo educativo no mundo ocidental. Uns pontuam sobre os métodos de ensino já adotados no passado e outros discorrem sobre a trajetória educacional ao longo do tempo, indo desde os povos antigos, passando pela idade média, renascimento, modernidade, e chegando, por fim, ao tempo presente à escrita das obras. Outros possuem como objetivo, ainda, apresentar o histórico da instrução e das escolas normais em diversas regiões ou países.
Nos livros é possível perceber a emergência de estudos comparados entre os sistemas educacionais de várias nações. Geralmente, os autores iam até outros países, visitavam
54 As breves análises presentes neste tópico se baseiam nas obras supracitadas. As referências das edições
escolas, tanto normais quanto elementares, e acompanhavam o funcionamento delas. Investigavam, ainda, sobre as organizações do ensino público e particular destas localidades e de posse das informações coletadas construíam um relatório. A partir dos relatórios, os viajantes escreviam livros em que teciam comparações entre os países analisados e as suas nações de origem. Assim, nas obras oferecidas para a Escola Normal de Ouro Preto há estudos comparados ou relatórios sobre os sistemas escolares da França, Inglaterra, Alemanha, Prússia, Estados Unidos da América e Holanda.
Contudo, a maior parte dos livros é dedicada a apresentar orientações sobre a organização das escolas (sendo elas de todos os tipos). Os manuais direcionam sobre como deveriam estar dispostas as salas de aula (carteiras, mesas, quadro negro) e os outros ambientes escolares (locais para ginástica, bibliotecas, jardins, gabinetes de física e química). Em muitos manuais é possível encontrar, inclusive, desenhos para a melhor ilustração e exemplificação de como deveriam estar situados espacialmente estes ambientes.
Além da divisão espacial, orienta-se para organização do tempo nas instituições, dos materiais que deveriam ser utilizados, das disciplinas e dos conteúdos a serem ministrados. Apresenta-se passo a passo da divisão das disciplinas escolares, dos conhecimentos e também dos métodos de ensino que os docentes deveriam adotar para o ministério de cada matéria especificamente.
Não é possível afirmar que os professores da Escola Normal de Ouro Preto adotaram fielmente os pressupostos estipulados pelos manuais fornecidos pelo Presidente da Província para o início da livraria. Ainda assim, pelas obras doadas é possível perceber uma amostra do arsenal intelectual que os estudantes do instituto teriam acesso. Os conteúdos dos livros sinalizam o que havia de vanguarda nos estudos sobre a instrução na Europa naquele momento, como as ideias de democratização e universalização do ensino, por exemplo. Mostram também, de certa maneira, o que o poder público esperava que fosse ensinado para os professores em formação em Minas Gerais.
Os normalistas em formação deveriam, pois, ter noções gerais sobre o que se produzia acerca dos saberes pedagógicos naquele momento na Europa, e sobre o histórico da educação e da formação docente em vários espaços e tempos. Pelos manuais, os futuros docentes receberiam orientações de como se comportar socialmente e de como atuar em suas atividades profissionais, além de quais conhecimentos ministrariam e de que forma. Os normalistas deveriam saber também sobre a organização do espaço e do tempo nas escolas, bem como conhecer o perfil dos alunos e como lidar com eles da melhor maneira possível.
3.4 Funcionamento e corpo discente da Escola Normal de Ouro Preto na década de 1870