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6. Empiri

6.2 Presentasjon av respondentene

brasileira. A partir desse momento, segundo Gorender (1978), que começou a ser enfatizada a organização patriarcal existente na sociedade brasileira. Oliveira Vianna e Gilberto Freyre são expoentes dessa interpretação sociológica da sociedade brasileira. Esses autores “caracterizam-na como patriarcal e aristocrática e situaram a classe senhorial como ponto central”. (GORENDER, 1978).

Neste momento histórico foram desenvolvidas teorias sobre a existência do feudalismo no Brasil. Essa tese foi melhor desenvolvida por Nelson Werneck Sodré e Alberto Passos Guimarães. Estes dois autores apresentaram a grande propriedade territorial como categoria central para se analisar a formação social brasileira e realizar propostas para o desenvolvimento capitalista no Brasil.

Nelson Werneck Sodré na sua primeira fase intelectual defendeu, a partir de sua interpretação, a formação da pequena propriedade como forma de reestruturar a dinâmica social. Essa pequena propriedade deveria ser instalada no interior do país,

189 Nelson Werneck Sodré nesta obra também discute a integração e a não fragmentação do território

onde a existência da grande propriedade, segundo o autor, era a grande causa do atraso dessa região do país.

Olhando para a formação territorial brasileira vê-se um processo de predominância, desde os tempos coloniais, de grandes extensões de terras. Até o século XIX pode-se dizer que houve a predominância da grande propriedade. Contudo, a partir de finais do século XIX e início do XX as raízes da pequena propriedade começaram a aparecer.

Este processo intensificou-se a partir da década de 1930 quando o Estado brasileiro iniciou um processo de consolidação do mercado interno. A existência da pequena propriedade fez-se necessária, pois ela tem a função de produção e abastecimento desse mercado. A grande propriedade apresentava a função de exportação, mesmo que esse papel tenha vindo a se consolidar somente nas décadas de 1950 e 1960.

Esta discussão remete ao processo de povoamento e colonização portuguesa no Brasil. O aparecimento da pequena propriedade pode ser datado do início do século XIX com o rótulo de pequena produção. O seu aparecimento bem como a sua consolidação desde o período supracitado foi fundamental para o fortalecimento do mercado interno brasileiro que ainda se encontrava em formação. (ERTHAL, 2007).

Ao tratar do interior do país, o autor se depara com grandes extensões municipais que não se encontram enquadradas no processo de desenvolvimento econômico almejado ao tempo. No discurso do autor as grandes extensões de terras aparecem como um empecilho ao desenvolvimento das terras interioranas no mesmo nível em que se encontram as terras litorâneas. O objetivo central de Sodré era que essas terras do interior alcançassem o mesmo nível de desenvolvimento concretizado no litoral. Por isso a defesa pelo estabelecimento e concretização do mercado interno.

As áreas dos municípios em que se distribui o quase milhão e meio de quilômetros quadrados das terras do Oeste, impossibilitam, de maneira formal, a ação das organizações municipais, com um ecúmeno reduzidíssimo. A formação de novos municípios, desmembrado de antigos, procedeu-se com um lentidão bem expressiva que se deve à pobreza do regime pastoril, à imensidade do desertão e à refratariedade do pastoreio às organizações urbanas. Se verificarmos que todos esses vinte e seis imensos municípios têm um distrito administrativo, isto é, que a administração deles tem de ser centralizada, podemos avaliar a impossibilidade, o convencional dessas organizações municipais que não podem vencer a esfera de ação que lhes é atribuída, reduzidas a um ecúmeno que não ultrapassa o perímetro urbano (SODRÉ, 1941, p.166-7).

Sodré apresenta uma tabela com a extensão dos munícios do oeste brasileiro para demonstrar as grandes extensões territoriais de cada um:

Figura 5: Quadro das Áreas dos municípios do Oeste

A preocupação do autor sempre esteve voltada para a modernização do interior brasileiro deixando evidente em todas as obras deste período. No discurso sobre uma modernização rápida para essa área, faz uma defesa direta ao estabelecimento da pequena propriedade como o símbolo da modernidade. Segundo ele, somente a divisão do latifúndio poderia trazer a modernização para essa área.

O desenvolvimento progressivo e intenso da pequena propriedade, o amparo extensivo e continuo da autoridade pública, - na progressiva fragmentação da grande propriedade apoiada necessariamente na cultura agrícola poderá mudar a face das cousas, afetando de novas características o ambiente ora tão disperso e adverso. Apoiado na terra, decisivamente vinculado ao solo, o fator humano poderá fazer valer a sua atividade, o seu trabalho, desdobrando- se em novas riquezas, na emancipação da sua função, do papel que vem representando na imensidade do Oeste (SODRÉ, 1941, p.193).

Sodré faz uma comparação entre o nível de desenvolvimento dos estados do Mato Grosso e Amazonas em relação ao de São Paulo. Ele chega a uma conclusão de que somente a divisão territorial do oeste em muitos municípios poderia chegar ao desenvolvimento necessário para essas terras, ou seja, o estabelecimento de pequenas propriedades.

A distribuição municipal, no Brasil, coloca o Oeste em situação de inferioridade absoluta. Sendo dos maiores estados em território, Mato Grosso apresenta-se com vinte e seis municípios. O Amazonas se divide em vinte oito. A densidade demográfica e a distribuição da riqueza determinaram tais disparidades. O desenvolvimento paulista se afirma em duzentos e cincoenta e tres municípios dos quais cento e dois têm um só distrito judiciário, repartindo-se os demais por vários distritos judiciários, enquanto todos permanecem com um só distrito administrativo, função de sua escassez de area que permite a centralização (SODRÉ, 1941, p.169).

Mesmo diante dessa defesa da pequena propriedade como modelo e símbolo do sucesso no desenvolvimento econômico, o autor não deixa de apresentar uma descrição sobre os clãs rurais e do seu papel como estrutura primária da formação da sociedade brasileira desde o período colonial. Portanto, pode-se destacar também o interesse de

Sodré em relação ao clã – nas três obras, um pouco menos em Formação da Sociedade

brasileira – não deixando de expor a importância que teria o estabelecimento da pequena propriedade como estrutura social brasileira.

O fator grande propriedade, bipartido em propriedades estrangeiras e brasileiras, e o fator geográfico ligado às condições físicas do meio prejudicam, por isso mesmo, a marcha progressiva da grande para a pequena propriedade, do nomadismo para a fixação, da pobreza para a riqueza, da dispersividade de interesses para a sua comunidade – especificada nas organizações municipais (SODRÉ, 1941, p.174).

Analisar e revisitar as obras de Nelson Werneck Sodré na atualidade significa a possibilidade de entender de que forma o espaço brasileiro foi pensado e organizado materialmente por alguns grupos das classes dominantes pertencentes a sociedade brasileira.

Nos finais do século XX e início do XXI tem-se uma bibliografia especializada que buscou analisar a obra de Sodré por dentro da ciência histórica, da Sociologia e da Ciência Política. Esta bibliografia especializada analisou temáticas que apareceram nas obras de Nelson Werneck Sodré no seu período marxista, tais como: democracia, modo de produção, colonização, revolução burguesa e política.

A tese de doutorado de Paulo Ribeiro da Cunha intitulada Um olhar à esquerda: a utopia tenentista na construção do pensamento marxista de Nelson Werneck Sodré apresenta uma análise da obra do autor anterior a 1945, ou seja, da sua fase não marxista.

Esta pesquisa vem no sentido de contribuir para as análises que se iniciam sobre as obras da primeira fase intelectual de Nelson Werneck Sodré e, ainda, coloca-lo como um intelectual brasileiro que apresentou um discurso que não se queria somente geográfico, mas um discurso que vinha fortalecer os ideários do Estado brasileiro perante a necessidade de uma unidade nacional e territorial.

O discurso apresentado é decisivo no sentido de deslindar questões cruciais para a compreensão de como se deu a formação territorial brasileira. Sua contribuição revela que o progresso material esteve à frente dos impactos sociais que os projetos envolvidos no ordenamento proposto poderiam trazer. Em verdade, tanto a natureza como as populações presentes nas áreas destino dos mesmos não foram consideradas senão como recursos de ordem econômica passíveis de serem convertidas aos propósitos das classes detentoras do poder.

A “leitura” sobre o espaço brasileiro apresentada por Sodré esteve, indiscutivelmente, ligada às orientações específicas dos geopolíticos brasileiros, sobretudo os militares, baseada na consolidação territorial, na unidade e identidade nacional e na unidade territorial.

A “visão de mundo” de Nelson Werneck Sodré esteve calcada sobre um tripé: unidade nacional, identidade nacional e unidade territorial. Foi com essa “visão de mundo” que Sodré aproximou-se terminantemente ao discurso promovido pelo Estado Getulista, como é demonstrado no texto acima.

Esta pesquisa teve como suporte de método o estruturalismo genético de Lucien Goldmann. Entende-se como fundamental compreender a sua obra no seu contexto, bem como compreender o indivíduo expressivo (GOLDMANN, 1979) Nelson Werneck Sodré, sendo ele um intelectual de peso capaz de expressar uma visão de mundo compartilhada por um determinado grupo social, a partir de seus escritos. Nesse contexto vale destacar que há uma necessária ligação entre as visões de mundo e a eficácia política dos discursos, levando em consideração, a que grupo social e político, este intelectual respondeu. Assim, conforme a proposição de Lucien Goldmann:

O pensamento é apenas um aspecto parcial de uma realidade menos abstrata: o homem vivo e inteiro. E este, por sua vez, é apenas um elemento do conjunto que é o grupo social. Uma idéia, uma obra só recebe sua verdadeira significação quando é integrada ao conjunto de uma vida e de um comportamento. (GOLDMANN, 1979, p.8).

Pensar o projeto, ou os projetos, que estão envolvidos na construção do Brasil requer um grande esforço analítico. Neste sentido cabe perguntar quais são esses projetos que estão envolvidos na construção do Brasil nos dias atuais? Será que são os mesmos projetos que vem sendo encaminhando pelas classes dominantes do país? Quem são as resistências a esses projetos? Existem resistências efetivas?

Portanto, cabe a nós e ao coletivo da sociedade engendrar pelos melhores caminhos; aqueles caminhos pelos quais possamos construir e produzir um espaço mais digno e com menos desigualdades sociais. Cabe também atentarmos para os fatos passados para visualizarmos novas possibilidades, um novo que sempre virá.

Entende-se perfeitamente que este trabalho não se finaliza aqui. Este é simplesmente o momento da conclusão de uma etapa de algo que está inserido num projeto de vida.