1 Innledning
1.4 Presentasjon av oppgaven
Uma das estratégias do PDSA consistia em utilizar as vantagens comparativas do Estado como forma de obtenção de recursos financeiros, ou seja, investimentos em desenvolvimento tecnológico para que a exploração dos recursos naturais pudesse ser lucrativa às comunidades extrativistas, ao mesmo tempo em que a vocação natural da região fosse respeitada.
Com essa preocupação, foram criadas Unidades de Conservação de uso direto (Reserva de Desenvolvimento Sustentável - RDS e Reserva Extrativista - RESEX) que delimitam e protegem áreas importantes da floresta. Essas áreas representaram uma possibilidade econômica para as populações tradicionais. Para
53 As informações sobre o Estado do Amapá foram extraídas do livro distribuído no escritório do Amapá de São Paulo. Bases do Desenvolvimento Sustentável: Coletânea de Textos. Macapá: Governo do Estado do Amapá, 1999.
isso, estabelecem-se critérios de manejo e exploram-se os recursos de forma racional.
A abordagem desse tema deu-se a partir da visita ao Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá (órgão que trabalha com pesquisa de alternativas econômicas, a partir de novas tecnologias e da pesquisa genética). Nessa visita conhecemos os avanços no desenvolvimento de fitoterápicos, fitocosméticos e a pesquisa da variedade de plantas e seu melhoramento genético para o aproveitamento no setor alimentício. Conhecemos ainda o Zoneamento Costeiro, com a proposta de controle de recursos pesqueiros e o Zoneamento Ecológico Econômico realizado no estado.
Parte significativa das pesquisas realizadas no Instituto reverteu benefícios para a comunidade. Assim, a farmácia do povo vendia os produtos advindos das plantas da floresta a preços baixos e as comunidades recebiam ajuda técnica para melhoria da produção.
Essa temática, especialmente oportuna de ser exposta aos estudantes, aproximou-nos do sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, que recomenda o alerta de que a ciência e a pesquisa devem acautelar-se para que não sejam submissas ao Capital. Para o autor, desde o século XIX, a ciência está a serviço do desenvolvimento capitalista. Para a superação dessa crise paradigmática, à ciência caberá:
... recuperar sua autonomia, transformar o conhecimento de maneira a torná-lo menos elitista, mais ativo, mais envolvido nas questões de cidadania e menos dependente dos programas e das necessidades do capitalismo. (Santos, 2003, p. 336)
Ampliando a discussão sobre o uso racional dos recursos naturais, introduzimos o conceito de populações e saberes tradicionais54 na perspectiva proposta por Diegues. Para o autor, essas populações “
desenvolveram ao longo dos anos de sua existência, em contato com a natureza, grande conhecimento do mundo natural e criaram engenhosos sistemas de manejo da fauna e da flora, protegendo, conservando e até potencializando a diversidade biológica. (DIEGUES, et al., 2000, 14)
Assim, ao estudarmos a RDS do Rio Iratapuru, observávamos essa nova categoria de Unidade de Conservação, cuja lógica da separação entre o homem e a natureza fora abolida em favor da integração. Apresentávamos, dessa forma, uma visão contrária à lógica anterior que priorizava determinados saberes em detrimento de outros e consolidava crenças como as que afirmam ser o homem o grande predador da natureza ignorando, assim, os mitos organizadores dessa relação em diferentes culturas.
Ainda ancorados na discussão proposta por Diegues apresentamos a lógica da criação de Unidades de Conservação de uso indireto, ou seja, de uso restrito. Essa categoria de UC gera o deslocamento de contingentes populacionais extremamente vinculados à terra, para que a sociedade urbano-industrial se aproprie desses espaços comunitários como espaços de contemplação e lazer, contraponto à
54 Nesta tese trabalharemos com o conceito de população tradicional apresentado por Diegues, a saber: dependência e até simbiose com a Natureza; conhecimento dos ciclos naturais que reflete na forma de uso sustentável, sendo este aprendizado transmitido de geração em geração por via oral; ocupação do mesmo território por várias gerações, ainda que alguns membros individualmente possam ter se deslocado para os centros urbanos; valorização das atividades de subsistência; reduzido acúmulo de capital; importância dada à unidade familiar para o exercício das atividades econômicas, sociais e culturais; importância das simbologias, mitos e rituais associados a caça, pesca e atividades extrativistas; tecnologia simples; auto-identificação ou identificação pelos outros de pertencer a uma cultura distinta das outras. (DIEGUES, et.al., 2000, 35)
aridez do mundo moderno. Quando isso ocorre, o destino desses grupos sociais são, quase sempre, as favelas, ou moradias precárias nas periferias das grandes cidades. O autor critica ainda o fato de ser-lhes negado o direito de exercer seu modo de vida tradicional, sua cultura, suas crenças seu etnoconhecimento, seus saberes, enfim de decidir sobre seu próprio destino. (Cf. Diegues, 2000, passim)
Ilustração 3: RDS do Rio Iratapuru – aprender com quem convive com a floresta e identifica as mais diferentes formas de vida naquele ambiente, isso faz diferença.
Uma discussão levada a cabo por autores conservacionistas coloca o ser humano como ator central e principal do processo de conservação, reconhecendo, com isso, e por isso, seu direito de desenvolver-se em um meio natural conservado que será legado às gerações futuras.
Com esse repertório, do ponto de vista teórico, realizamos o trabalho de campo na RDS do Rio Iratapuru. No local observamos o desenvolvimento de atividades econômicas ligadas ao extrativismo da castanha do Brasil. Testemunhamos projetos de agregação de valor ao produto, por meio do incentivo à produção de biscoitos a serem adquiridos pelo Governo do Estado, para a merenda
escolar das escolas estaduais. Observamos ainda a utilização do óleo da castanha como matéria-prima para produção de cosméticos e fitoterápicos diversos. (Ilustrações 3 e 4)
O olhar sobre a comunidade do rio Iratapuru despertou curiosidades, do ponto de vista humano e científico, para a compreensão da lógica que organiza a vida cotidiana, as relações sociais e a relação com a floresta, com os rios, com os animais; enfim, compreender o modo de vida desses grupos diferenciados, que, segundo Diegues:
com isolamento relativo desenvolveram modos de vida particulares que envolvem grande dependência dos ciclos naturais, conhecimento profundo dos ciclos biológicos e dos recursos naturais, tecnologias patrimoniais, simbologias, mitos e até uma linguagem específica. (Diegues, 2000, 16pp)
Ilustração 4: RDS do Rio Iratapuru - a convivência com as pessoas da comunidade e com aquele ambiente cercado de rios caudalosos e floresta trouxe um aprendizado inusitado.
Esse olhar para a integração do ser humano e a natureza, capaz de romper com a dicotomia tão presente nas relações da contemporaneidade em grande parte do território nacional, encontra sustentação teórica no geógrafo francês Allan Lipietz. O autor propõe que seja abolida a oposição entre natureza e cultura e conclama que
nos interessemos mais pela “complexidade do mundo vivo que pela oposição homem/natureza” (Lipietz 2002, 19)
os homens são parte da natureza, respiram-na e dela tiram sua alimentação. (...) Os homens e seu meio ambiente não param de se transformar mutuamente, sendo assim importante convencer-se de que ambos estão envolvidos em uma evolução interdependente (co-evolução). (Ibid., 19)
Assim, a permanência por quase dois dias na comunidade da RDS do Rio Iratapuru, caminhando por trilhas na floresta, banhando-se no rio, dormindo em redes em um galpão sem paredes, com o som da floresta penetrando por todos os sentidos, representou uma experiência inesquecível. O estranhamento e o fascínio pelo novo, pelo diferente, pela simplicidade, pela autenticidade, levaram-nos a conflitos imprevisíveis, tão bem expressos nos apontamentos de uma aluna depois de um dia de intensa interação com a comunidade e com a vida na floresta.
Das atividades que realizamos, as mais impactantes para o local, com certeza, foram as visitas às comunidades, além de sermos trinta de uma vez só, somos visualmente diferentes, de modo que chamamos muita atenção. As mais impactantes para nós foram sem dúvida a estadia na comunidade do Iratapuru já que muitos tiveram que vencer frescuras, é a mesma comida e mesma roupa todo dia, banho de rio, dormir na rede, apagão às nove e meia...55
A reflexão sobre Unidades de Conservação de uso indireto e o intenso debate entre preservacionistas e conservacionistas, os primeiros propondo a manutenção da floresta intocável e intocada; os segundos, compreendendo a importância da incorporação das populações tradicionais na defesa das terras por elas ocupadas ao longo de séculos, trouxe ainda a seguinte reflexão por parte dos alunos e alunas:
Este mito de natureza intocável defendida por grande parte da população, conforme a pesquisa realizada em São Paulo, tem de ser
quebrado, no sentido de que o homem urbano após destruir e consumir toda a vegetação nativa, salvando algumas ilhas verdes dispersas pela grande cidade de concreto, deseja que o estado do Amapá mantenha-se intocado na fauna e flora. Essa mentalidade egoísta é característica do homem urbano, uma vez que este se perde em meio aos próprios preconceitos e esquece que ali vivem populações que também, assim como nós, querem ter acesso ao desenvolvimento de que dispomos: luz elétrica, saneamento básico e etc. 56
É interessante observar no discurso dos alunos e alunas a incorporação da discussão apresentada por Diegues. A tomada de posição do grupo tem um forte caráter emocional, mas também se ancora no suporte teórico apresentado em atividades que antecederam a ida a campo. O depoimento confirma uma intensa relação entre teoria e prática.