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Barcelos (2009) afirma que ainda são poucos os estudos na área da LA que pesquisaram as relações entre crenças e identidades. Nesta seção, relato estudos de Murphey (1995), Barcelos (2000; 2009), Clark (2008) e Couto (2011) que procuraram discutir essa relação no contexto de ensino e aprendizagem de língua estrangeira.

Murphey (1995) baseando-se nos níveis de mudança e aprendizagem do antropologista Bateson estabelece uma relação entre crenças e identidades. Esses níveis são identificados como: a) identidades; b) sistema de crenças; c) capacidades; d) comportamentos; e e) restrições externas, relacionadas ao ambiente. De acordo com Murpehy (1995), é possível fazer com que os alunos se comportem de certa forma na sala de aula, mas nem sempre os levando a se capacitarem para agir em outros ambientes. Se eles não tiverem a crença de que é importante ter aqueles comportamentos e falar em inglês, eles não conseguirão repetir o que foi ensinado em ambientes externos à sala de aula. Logo, para o autor, as crenças tem poder de afetar o nível da identidade e facilitar o processo de transformação dos outros níveis.

Murphey (1995) verificou também que a existência de modelos é importante na construção das identidades, pois eles podem despertar o senso de "eu sou" ou a crença de que "eu posso ser". Como consequência, comportamentos e habilidades se tornam mais passíveis a mudanças, pois estão fundados em uma crença ou em uma identidade, revelando uma relação complexa entre crenças, ações e identidades.

Barcelos (2000) discute brevemente o conceito de identidades e como este se relaciona com as crenças sobre aprendizagem de língua baseando-se na filosofia de Dewey e no estudo de Lave e Wenger (1991) sobre aprendizagem situada. A autora observa que o trabalho de Lave e Wenger se relaciona com o de Dewey na medida em que os primeiros consideram que a construção de identidades estão envolvidas no processo de aprendizagem, visto que ao interagirem com membros mais experientes, os aprendizes tentam se legitimar enquanto pertencentes a certa comunidade de prática.

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Barcelos (2000) acrescenta que nesse processo também está envolvida a construção de crenças, de forma que, para ela, as crenças e identidades são inseparáveis. A autora conclui que as identidades são construídas por meio da interação com outros indivíduos, e que, assim como há uma batalha para se legitimarem na sala de aula, há também uma batalha para que suas crenças sejam reconhecidas pelos membros dessa comunidade.

Clark (2008) em seu estudo com professoras em formação nos Emirados Árabes também estabeleceu uma relação entre crenças e identidades. Ao propor uma mudança no currículo que era predominantemente linguístico e se voltou para formação de professores, foi verificado que as professoras em formação começaram a construir uma comunidade de prática por meio das discussões nas quais eram envolvidas. Essa construção se deu principalmente pelas crenças que essas participantes possuíam sobre o ensino e aprendizagem de língua inglesa. O autor observou também que as crenças das participantes construíram suas identidades, pois as crenças que elas possuíam a respeito do que é ser professor e da aprendizagem de línguas levaram-nas a criar uma identidade de professoras alinhadas à prática progressista. Essa construção identitária foi percebida pelo discurso de uma das participantes, que foi escolhida para uma análise mais profunda porque representava a maioria dos discursos das outras professoras em formação envolvidas no estudo. Clark (2008, p.179) coadunando-se a Danielewicz (2001) conclui que o que representa a identidade não é a experiência em si, mas o ato de nomear e representar aquela experiência, em outras palavras o que se acredita ser a experiência.

Barcelos (2009) em seu relatório de estágio pós-doutoral visa a estabelecer relações entre crenças, identidades e emoções. A autora argumenta que há poucos estudos na área da LA que abordam esse assunto. Para esta dissertação, focarei o que a autora discorre especificamente sobre a relação entre crenças e identidades. Barcelos (2009) assim como Norton (1997) acredita que é pela linguagem que o sujeito constrói a sua identidade, e adiciona, que é também pela linguagem que professores e alunos constroem suas identidades, crenças e emoções. Baseando-se em Lemke (2008) em relação ao que o autor fala sobre recorrência das identidades, Barcelos (2009) afirma que identidades pré-existentes são crenças “que foram construídas pelo tempo e que podem ser performadas ou não” (BARCELOS, 2009, p.8), dependendo da situação de interação.

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Barcelos (2009) também cita estudos na área da LA que argumentam existir uma relação intrínseca entre identidades e crenças. Ela verifica que as crenças são formas de significar o mundo e atribuir significados a si próprio, e ao fazer isso, o indivíduo está construindo sua identidade. Citando Riley (2004) sobre o que o autor fala em relação às afirmações de identidade, é possível verificar que as crenças são formas de se afirmar uma identidade, pois são modos de ver e perceber o mundo com os quais o sujeito se identifica. Posso verificar aqui um elo com as comunidades imaginadas, pois se me afilio a certa comunidade é porque compartilho de suas crenças, o que me torna um de seus membros.

Couto (2011) fez um estudo que teve por objetivo principal verificar quais relações existem entre crenças e identidades de alunos de alemão como língua estrangeira. A autora baseia-se em um referencial teórico que afirma que as crenças são contextuais, experiênciais e resultados da interação social e as identidades como formas de um indivíduo perceber sua relação com o mundo. Participaram da pesquisa quatro estudantes de um curso privado de alemão, sendo que eles tiveram que responder a um questionário aberto, participar de sessões reflexivas e de visionamento, escrever narrativas escritas, participar de uma entrevista. Além disso, Couto (2011) utilizou observações e gravações de aula em áudio e vídeo e também notas de campo. A autora observou que as crenças dos alunos se relacionavam com frequência às suas identidades enquanto estudantes de alemão. Percebeu também que há uma relação de mão-dupla entre crenças e identidades, visto que as crenças podem permear e serem permeadas pelas identidades.

Em resumo, os estudos citados acima revelam que não há como se separar as crenças das identidades, visto que o indivíduo se caracteriza como professor X ou como aluno X porque ele se afilia a tais posturas. Em outras palavras, o indivíduo compartilha de certas crenças que o caracteriza como tal, como no caso das professoras em formação de Clark que se coadunavam a um discurso progressista construindo identidades de professoras críticas e reflexivas. Além disso, foi possível verificar que as crenças tem a capacidade de modificar as identidades, como no estudo de Murphey (1995) em que ao acreditarem que poderiam se tornar falantes do idioma inglês, os estudantes investiram mais em sua aprendizagem, levando-os a se categorizarem como falantes desse idioma. Acredito, então, que esse aporte teórico sobre crenças e identidades é importante na

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compreensão das identidades construídas pelos professores em formação que foram investigados em minha pesquisa.

Neste capítulo, apresentei o referencial teórico que guiou a feitura desta dissertação. Inicialmente, apontei como este trabalho se insere no escopo das pesquisas na área de formação de professores, assim como apresentei estudos empíricos realizados nessa área. Em seguida, discuti a concepção de identidade adotada nesse trabalho, tendo como referência os estudos culturais, estudos sobre a identidade profissional do professor de línguas, e identidades relacionadas com investimento e comunidades imaginadas, trazendo implicações para práticas pedagógicas dos professores. Por fim, tratei de estudos que abordassem o conceito de crença, pesquisas sobre esse tema com professores em formação inicial e estudos que abordam a relação entre identidades e crenças. No próximo capítulo, relato como foi delineada a metodologia para que pudesse conduzir este estudo.

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