A investigação pretende compreender os significados dos sujeitos envolvidos na política de saúde bucal do Cedefam (gestores, servidores técnico-administrativos e usuários). É importante destacar a escolha desses três segmentos, pois se refere aos sujeitos envolvidos na política de saúde bucal para que se possa identificar como cada um percebe a política de saúde bucal executada na unidade de saúde.
Foram entrevistados os 3 gestores, 7 servidores técnico-administrativos e 22 usuários com idade acima de 18 anos, que aceitaram participar da pesquisa, se dispondo a falar de aspectos do seu cotidiano por vezes tão complexo, de conflitos ou de negação de acesso, nem sempre fácil.
Participaram como entrevistados nesta pesquisa, os três principais segmentos envolvidos com a política de saúde bucal e que constituem o cotidiano da clínica de saúde bucal do Cedefam gestores, servidores técnico-administrativos e usuários, apresentados a seguir:
Gestores
Dos 03 servidores que atuam com as disciplinas do curso de odontologia, 02 estão posicionados como gestores. Um servidor docente ocupa a função de diretora do Centro de Desenvolvimento Familiar, que envolve a prestação de serviços de saúde como ação extensionista da UFC. O segundo servidor docente assume a função de coordenador
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pedagógico da clínica de saúde bucal. O terceiro e último gestor ocupa a função de diretora técnico da clínica de saúde bucal do Cedefam, e tem o cargo de servidora técnica- administrativa de nível superior, uma cirurgiã-dentista.
Servidores Técnico-administrativos
Os entrevistados diferenciam-se por função e por número. Entre estes está uma cirurgiã- dentista, 04 técnicas de enfermagem, 01 atendente de consultório odontológico e 01 secretária.
Usuários
Foram entrevistados 22 (vinte e dois usuários), que representaram os quatro tipos de público-alvo atendidos pelo CSBC. Foram compostos por 06 usuárias gestantes que realizam acompanhamento obstétrico na Unidade de Cuidados Médicos e de Enfermagem (UCME), 05 mães de estudantes da Escola José Bonifácio que são atendidas pelos discentes e docentes das disciplinas do curso de Odontologia da UFC, 04 idosos integrantes que participam do Projeto V. I. D. A, projeto vinculado à UCME e que são atendidos pela CSBC e 07 usuários pertencentes às famílias visitadas e cadastradas em seus domicílios pelos alunos das disciplinas de Atenção Primária em Saúde e Estágio no Sistema Único de Saúde I.
A escolha destes se deu a partir do contato com a pesquisadora, antes ou depois de seu atendimento na clínica de saúde bucal, bem como a partir de concordância dos mesmos em participarem do estudo, de acordo com os parâmetros éticos.
Dos 22 sujeitos entrevistados, dentre estes estava uma pessoa com deficiência auditiva em estágio de surdez profunda, ou seja, que não ouve nenhum tipo de som. Entrevistá-la me fez romper com a barreira que colocamos entre nós, os outros e todas as nossas diferenças. Para preservar a identidade da paciente foi utilizado o codinome Girassol.
Porque eu decidi entrevistar Girassol? Primeiro eu considero a existência das pessoas surdas importantes; segundo porque achei importante registrar os seus significados sobre aquele atendimento, o que seria uma forma de promover a acessibilidade comunicacional dela, numa perspectiva de inclusão, bem como ter respostas aos meus questionamentos. Daquele “mundo de silêncio” em que habita Girassol, eu precisava desvelar muitas significações, estimulando-a a se expressar, embora eu com tantas dificuldades para entender.
Comecei a observar seu atendimento, que estava sendo realizado pelos profissionais da clínica de saúde, onde percebi que havia muitas dificuldades na comunicação, pois a fala é uma das nossas mais importantes ferramentas para realizar a orientação sobre como os
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pacientes devem promover seu autocuidado. Embora sem ouvir a equipe de profissionais, a paciente surda tentava entendê-la. Todo o processo de atendimento, desde a marcação da consulta foi mediado pela sua sogra, que não a deixou sozinha por um só momento.
Quando percebi que a paciente fazia um esforço para entender as orientações e por mais que aparecessem dificuldades pela falta de capacitação dos profissionais da clínica para lidar com a sua deficiência, a mesma não desistia. Então, pensei em estabelecer uma comunicação com ela, que até tentava balbuciar algo com a equipe, porém apenas com a mediação da comunicação por sua sogra a comunicação fluiu. Ao ver este esforço, eu, que tinha terminado de realizar uma entrevista, decidi convidar Girassol para uma conversa sobre as dificuldades que ela estava enfrentando para se comunicar com equipe. Girassol iniciou sua “fala” me revelando que gostaria de fazer seu tratamento odontológico ali, por isso se esforçava tanto para entender, estando ela em sexta consulta na clínica.
Neste momento, decidi atravessar a barreira que nos afastava e passei a construir uma ponte improvisada entre mim, a pesquisadora e a minha interlocutora, proporcionando a ela o direito à cidadania e a mim, oportunidade de interagir e aprender com ela. Acredito que seja preciso que construamos um campo de comunicação e interação amplo entre as pessoas, que as línguas tenham um lugar de destaque, porém que não seja o centro de tudo que acontece nesse processo.
Na tentativa de interpretar seus gestos, entender suas mensagens, ora eu fazia as perguntas à sua sogra que repetia pra ela, ora eu escrevia no papel, por entender que a escrita naquele momento fosse uma língua Universal entre nós duas. Esta espécie de estratégia de comunicação e interação que adotei norteou toda a entrevista que seguiu até o final com muito sucesso. Este recurso possibilitou que a paciente pudesse desvelar seus significados, apresentando para a pesquisadora suas representações sobre o atendimento e tornando-a um sujeito capaz de responder aos meus questionamentos tanto quanto um sujeito ouvinte.
Segundo dados do Censo (2000) do IBGE, existem no Brasil mais de 5,7 milhões de pessoas com deficiência auditiva a se caracterizar por perda parcial ou total das possibilidades auditivas sonoras. São estes os tipos: surdez leve, surdez moderada e surdez profunda, sendo este o tipo de surdez da paciente que foi entrevistada (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2000).
É importante frisar que a inclusão requer um compromisso com o outro. Uma mudança da postura de consciência, direcionando para este tipo de entendimento, que todos nós podemos ter nossas limitações e nos comunicarmos diferentes, no entanto devemos observar e respeitar as capacidades diferenciadas para nos relacionarmos com o outro.
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