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4. EMPIRIPRESENTASJON OG DRØFTING

4.2 Presentasjon av empirien

Antes de discorrer sobre o período de tomada da ocupação e urbanização do litoral de Fortaleza é imperativa a compreensão de como estava a questão portuária na cidade. Com a busca pelos ditames da “ordem capitalista, republicana e racional” (SCHRAMM, 2001, p. 21) é dado início a construção de um novo porto. Instalado no bairro da Prainha e construído em paralelo com o novo prédio da alfândega, o referido foi projetado por John Hawkshaw com execução confiada à sociedade inglesa Ceará Harbor Corporation Ltda (PONTE, 1993, p. 35).

As preocupações em dotar uma cidade de melhores instalações portuárias vinculavam-se ao momento em que esta vem se firmar como entreposto comercial no final do século XIX, com a função de escoadouro, principalmente da produção de algodão, café, couro e cera de carnaúba (PASSARAM..., 1926). A construção desse novo porto viria a ser importante também no processo de independência definitiva da cidade com o porto de Recife, pois até então as principais relações comerciais da capital cearense ainda dependiam daquela zona para se efetivarem (RODRIGUES; SOUSA FILHO, 2007, p. 46).

Fig. 83: Construção da Ponte Metálica. Fonte: Arquivo Nirez.

Fig. 84: Ponte Metálica no período de sua construção. Fonte: Arquivo Nirez.

As condições dos ventos e a força da maré entre os anos de 1899 e 1900 impediram a concretização do projeto de Hawkshaw, no final “reduzido a mero paredão sem utilidade, batido impetuosamente pelas vagas furiosas” (GIRÃO, 1997, p. 213). Um novo projeto portuário teve que ser modelado para que fossem retomadas as atividades de volumes e pessoas no porto. Para tanto coube ao engenheiro Domingos Sérgio de Sabóia e Silva estudar e projetar o melhoramento do Porto de Fortaleza.

Sobre o projeto de Sabóia e Silva, este constou na construção de um modesto desembarcadouro batizado de Ponte Metálica, sendo protegida por um quebra-mar e construída com estrutura de ferro e piso de madeira. Levantada entre 18 de dezembro de 1902 e 26 de maio de 1906, sendo montada sob a direção do engenheiro cearense Hildebrando Pompeu e o escocês Robert Graw Blasby (ESPÍNOLA, 1978, p. 8) esta foi a primeira grande obra guardada pelas lentes fotográficas da cidade.

Com todas suas etapas de construção registradas, a ponte Metálica – em conjunto com a reforma da Praça 7 de Setembro – serviu como modelo de estrutura moderna a ser espelhada pelos seus citadinos, com suas imagens espalhadas em forma de cartão postal por toda cidade.

A construção da ponte Metálica resultou principalmente das conquistas de Fortaleza em sua inserção no contexto da expansão econômica que ocorrida pelo mundo, no qual emergia a necessidade de maior abertura com o estrangeiro (VIEIRA, 2002). Fortaleza, porém, permanecia com dificuldades de expandir seu volume de trocas comerciais por intermédio do porto, pois anda era inviável a atracação de navios maiores no cais da cidade.

Estudos continuavam a admitir as deficiências naturais de um porto na praia do Peixe, ressaltando as qualidades portuárias na costa do Mucuripe. Porém, não havia o interesse de se levar o porto para longe da cidade, dado ao custo elevado que a construção de uma nova zona portuária poderia acarretar para os cofres públicos. Assim, o discurso para a permanência do antigo porto foi feito afirmando que a ausência de arrecifes

Fig. 85: Guindastes da Ponte Metálica. Fonte: Arquivo Nirez.

para controlar a arrebentação das fortes ondas do Mucuripe impediria a atracação de navios (JUCÁ, 2000, p. 122).

Rodolfo Espíndola, em clássico livro intitulado O Porto de Fortaleza, narra as desventuras geradas naquela zona portuária, com os passageiros desembarcando em pequenos barcos, sendo carregados pelos catraieiros até a terra firme, onde não conseguiam escapar dos constantes banhos das ondas (ESPÍNOLA, 1978, p. 9). Apesar das precariedades, o porto vai se configurando como uma das principais pilastras da sociedade de anseios cosmopolita que emergia na Cidade.

No entanto a presença dos citadinos nas áreas próximas ao desembarcadouro era evitada, devido às características repulsivas que esta zona proporcionava. Como toda zona portuária, o de Fortaleza convivia com suas imediações ocupadas principalmente por atividades de meretrício, basicamente prostíbulos, bares e estabelecimentos de jogatina para o entretenimento daqueles que vinham com os navios de carga. O restante permanecia ocupado por favelas (SILVA, 1992, p. 37) com suas moradias de tipologia tipicamente interioranas e pelas colônias de pescadores, nas áreas que compreendem os atuais Pirambu, Iracema e Mucuripe.

Essa cidade de contrastes – com uma zona central transformada num imenso canteiro de obras, rica de serviços, empregos e lazer, e um entorno formado por um substancial cinturão de pobreza – decomporia o projeto belle époque pensado pelos abastados da cidade.

Com o crescimento urbano de Fortaleza, os mais pobres, que além de viver literalmente à margem da civilidade – habitando as imediações do Centro –, passaram a buscar essas novas áreas urbanizadas que haviam sido construídas para o deleite dos ricos. As principais áreas de lazer passam a conviver portanto com a constante presença de mendigos. Tal situação contribui para trazer o litoral fortalezense em evidência, com a praia sendo o lócus dos discursos sobre as normas e condutas da civilidade fortalezense, como pode ser observado nas leituras dos periódicos no início do século XX.

Fig. 86: Página da Revista BA-TA- CLAN retratando a visita de Washington Luis à Fortaleza. Na imagem acima perceba o vapor Pará sendo escoltado pelas jangadas próximo ao porto de Fortaleza. Até o então presidente da República aventurou-se nas jangadas para desembarcar na cidade. Fonte: Washington..., 1926.

Analisando na atualidade os discursos jornalísticos daquela época, que traziam em evidência o lado dos mais abastados, torna-se óbvio no que essa dualidade entre ricos e pobres resultaria: a construção de uma classe intelectual rica que estava mais preocupada com os problemas dos seus do que propriamente interessada em noticiar as inquietações da maioria da cidade.

Nesse contexto um curioso fato torna-se percebível, pois enquanto os jornais estampavam por toda a cidade notícias denunciando a invasão da pobreza nas ruas da capital cearense (Como estão nossas ruas?, Correio do Ceará de 21/09/1908; Não há Fortaleza como outrora, Correio do Ceará de 15/05/1909, dentre outros), as lentes fotográficas de Fortaleza não avistavam essa nova paisagem da cidade. As intencionalidades daqueles que produziam as imagens dos periódicos tornava-se evidente, pois não há fotografias ou qualquer outra alusão visual nas páginas dos jornais que associassem os enfrentamentos pelo qual passava Fortaleza. Os periódicos denunciavam, mas as imagens não poderiam conviver com o sonho afrancesado que permeava o restante do jornal.

Assim, no interior dos discursos dos abastados são intensificados os anseios de saneamento e normalização social da cidade. Essa política emergencial surge devido ao inchaço populacional, que acentuou os problemas de higiene pública por vários pontos de Fortaleza.

Com a crescente presença dos pobres nas ruas da cidade, são empreendidas ações de disciplinamento social e de intervenções médicas, tais como obras de saneamento, regulamentação e fiscalização do asseamento pessoal, asilamento de loucos, vacinação em domicílio, e práticas assistencialistas e policiais sobre o contingente de miseráveis (PONTE, 1993, p. 17). No momento de maior crise urbana já passada por Fortaleza até então, a zona costeira passa a desempenhar papel fundamental para uma nova configuração urbana.

Fig. 87: Perfil portuário no início da década de 1920. Fonte: Arquivo Nirez