Este capítulo pretende sumariar as conclusões tiradas sobre as questões levantadas, avaliar o contexto teórico presente na elaboração, comentar as conclusões e descrever implicações da investigação empírica em investigações futuras.
Será relevante referir que este tipo de estudo é o primeiro a ser efectuado em Portugal e vem, de certa forma, estabelecer as bases para um estudo mais aprofundado e vas- to. Importa, ainda, referir que, dada a amostra não poder ser estatisticamente significa- tiva nem extrapolável, os resultados apenas se enquadram na população inquirida. No entanto, pode ser uma primeira impressão acerca do problema em estudo, permitindo assim haver uma base mais sólida para estudos futuros, com a população portuguesa. As conclusões deste estudo terão as limitações inerentes ao tipo de amostragem estu- dada. Apesar dessas limitações, não deixa de ser uma perspectiva que pode servir de ponto de partida para estudos mais abrangentes, que venham acrescentar valor ao estudo deste consumidor, permitindo uma maior compreensão no momento da compra.
Após o estudo desenvolvido e com base nas questões de investigação definidas, verifi- ca-se que o jovem presbita sente-se mais velho quando entra na fase da presbiopia, do que um presbita mais velho, mas as mulheres não o sentem tanto como os homens, embora neste caso apenas exista uma tendência ligeiramente superior dos homens em relação às mulheres, não havendo evidência estatística. De uma forma geral, o indiví- duo, tende a esconder a presbiopia, optando por óculos que não a exteriorizem, sendo o jovem presbita o que mais necessidade tem de o fazer, no entanto esta tendência não pode ser verificada estatisticamente, pelo que não se pode concluir que exista, de facto. Ambos (jovens e presbitas confirmados) tendem a esconder a presbiopia optan- do por óculos que a minimizem, mas as diferenças não são suficientemente grandes
141 entre si. Pode imaginar-se que à medida que o indivíduo vai efectivamente envelhe- cendo, vai-se conformando com a sua condição e, consequentemente, não tem uma necessidade tão evidente de a esconder. Da mesma forma que é o jovem presbita que mais se preocupa com o facto de ser visto como mais velho por entrar na presbiopia e, consequentemente, com o necessitar de usar óculos de ver ao perto. Para ele, existe uma preocupação evidente em ser visto como mais velho, por ter de usar óculos de ver ao perto. No entanto, tanto o jovem presbita como o presbita confirmado, procuram recolher o máximo de informação disponível acerca da presbiopia, havendo uma ten- dência de procura de informação ligeiramente maior no jovem presbita, mas não signi- ficativa ao ponto de se poder afirmar que não se deve ao erro amostral.
Os resultados obtidos, embora alguns dos quais, com diferenças de magnitude não estatisticamente significativas (diferenças não suficientemente grandes para afirmar que não se devem ao erro amostral), vêm ao encontro da fundamentação teórica des- crita no estudo. Excepção feita às questões não confirmadas, que, desta forma, podem acrescentar valor ao estudo deste consumidor, por revelarem conclusões contrárias às que seriam esperadas. Desta forma, pode acrescentar-se que seria relevante desen- volver estudos que permitissem aprofundar o conhecimento nesta área e testar estas e outras questões.
De uma forma global as questões de investigação levantadas, e estudadas, confirma- ram alguns dos resultados esperados após o desenvolvimento da fundamentação teó- rica. Foi no desenvolvimento do bloco teórico que se percebeu a relevância do enve- lhecimento no comportamento e nas atitudes do consumidor. De certa forma, este sen- timento de envelhecimento, pode ser potenciado com a evidência de sinais exteriores. O uso de óculos de ver ao perto, com a entrada na presbiopia, é um destes sinais.
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Já aqui foi referido por diversas vezes que existe muito pouca documentação científica acerca do assunto em análise. No entanto, grande parte do estudo desenvolvido, teve por base, alguns dos poucos dados existentes acerca do consumidor presbita, sendo Fylan uma investigadora dedicada a esta temática. Alguns dos resultados obtidos vão ao encontro do verificado pela autora.
Segundo Fylan (2004) a identificação das atitudes e crenças do indivíduo é relevante para os presbitas, pois estão perante a necessidade de escolha de um produto que tanto pode ser um monofocal, um bifocal ou um progressivo, com as suas vantagens e desvantagens e que variam em preço, aparência, conveniência, conforto e facilidade de adaptação. A mesma autora (2002) defende que o indivíduo, ao entrar na fase da pres- biopia, começa a sentir um declínio na sua capacidade de ver ao perto e posteriormen- te fará a sua própria interpretação desses sintomas, relacionando-os com as informa- ções que detém da presbiopia e com os conselhos que lhe são transmitidos pelas pes- soas mais próximas. Isto contribui para que o indivíduo se consciencialize das implica- ções que possam decorrer ao nível da mudança de identidade que a presbiopia pode implicar. Esta situação impulsiona o indivíduo a gerir as diversas emoções que surjam, ao mesmo tempo que tentará compreender o que lhe está a acontecer e como esta situação se desenvolverá, evitando e negando – por exemplo, deixar de ler à noite – que tenha algum problema ou procurando informação/solução pela procura de um especialista de visão/óptico. Espera-se que o indivíduo consiga lidar com a situação e, se necessário, reinterpretará a presbiopia ou adoptará estratégias de lidar com esta situação, (Fylan 2002).
Muitos indivíduos poderão interpretar a presbiopia como uma doença, embora muitas vezes não expressa claramente, ou associar a uma idade avançada (assumida mais
143 frequentemente). A mudança da auto-identidade, decorrente da presbiopia, na medida em que, quando o indivíduo percepciona a presbiopia com envelhecimento, esta pode alterar a sua auto identidade, uma vez que ao envelhecimento estão associadas per- cepções e estereótipos. Ainda segundo Fylan (2002), existem diferenças entre homens e mulheres, no que respeita à forma de como a presbiopia afecta a auto identidade, mas pode ser diminuído se este tiver acesso a informação relevante quanto à sua con- dição.
Desta forma, tendo como pressuposto a base teórica descrita no capítulo 2, este estu- do inspirou-se na teoria do comportamento planeado de Azjen (1991), que é um mode- lo bastante eficaz em estudos de indivíduos relacionados com atitudes e saúde (Fylan et al. 2004).
Os resultados deste estudo evidenciam que o indivíduo percepciona o envelhecimento e associa-o ao uso de óculos de ver ao perto, tendo por base estereótipos e ideias rela- tivamente a alguns sinais que o exteriorizam. Assim, procura, de facto, reunir toda a informação necessária, de forma a ultrapassar alguns sentimentos que surjam associa- dos às suas crenças. Procura, também, esconder, numa fase inicial da presbiopia, estes mesmos sinais. Ao entrar na presbiopia, o indivíduo, tende a sentir-se dependen- te, incapaz e velho pelo facto de necessitar de um auxiliar que lhe permita fazer algo que até agora fazia sem qualquer ajuda: os óculos de ver ao perto. Este indivíduo entra na fase da presbiopia por volta dos quarenta anos e não espera, tão cedo, ser rotulado de velho, quando ainda se sente jovem e capaz, apenas porque apresenta, aos outros, um sinal entendido como de envelhecimento. Estes indivíduos procuram soluções que escondam estes mesmos sinais, que podem passar pela compra de lentes progressi- vas (ao contrario das lentes bifocais, que são entendidas como associadas aos idosos) ou até mesmo escolhendo armações que lhes permitam esconder este facto.
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Curiosamente não há diferenças acentuadas ou significativas entre homens e mulhe- res, relativamente ao sentimento de envelhecimento. Este facto pode estar associado à nova imagem do homem na sociedade relacionada com a sua crescente preocupação com a aparência, mas para melhor se aferir este resultado teria de ser feito um estudo mais representativo. Esperava-se, pelo senso comum, que as mulheres se preocupas- sem mais que os homens em relação à exteriorização do envelhecimento. Também pode ter sido desviada a resposta dos inquiridos, por não quererem evidenciar clara- mente as suas crenças e atitudes, ao responderem ao questionário, não sendo total- mente verdadeiros nas respostas.
É, por outro lado, também interessante verificar que as questões que obtiveram repre- sentatividade na amostra foram as que relacionavam o sentimento de envelhecimento e a percepção de envelhecimento por parte dos outros. Nota-se uma preocupação com a associação a estereótipos, que, neste caso, relacionam o uso de óculos de ver ao perto com o facto de se estar a envelhecer ou a ser visto como mais velho. Estes resul- tados vêm responder afirmativamente à questão principal do estudo: “Será que, para o
consumidor que entra na fase da presbiopia, ter de usar óculos é encarado como um sinal evidente de envelhecimento”.
De uma forma global, os resultados obtidos foram condizentes com a fundamentação teórica, no entanto e tendo em conta algumas das hipóteses não confirmadas, parece relevante que, para trabalhos e investigações futuras, se desenvolvam estudos mais aprofundados e representativos, de modo a acrescentar valor ao conhecimento e ela- boradas novas questões e/ou hipóteses de estudo.
145 sionais do sector da óptica (fabricantes, retalhistas, distribuidores, especialistas, etc.) desenvolverem e conhecerem com algum detalhe as atitudes e emoções que estão presentes num indivíduo ao qual se diagnostica a presbiopia pela primeira vez. Seria também do interesse dos profissionais da óptica desenvolverem técnicas de venda e abordagem a estes mesmos indivíduos de forma a irem ao encontro das suas expecta- tivas e receios, tentando compreender melhor os seus comportamentos no ponto de venda. Por outro lado os fabricantes e industriais dos produtos de ópti- ca/optometria/oftalmologia deverão ter em conta este, e outros estudos de desenvolvi- mento desta temática, para desenvolvimento dos produtos que melhor respondam às expectativas e necessidades destes novos consumidores.
Por último, importa, ainda, referir que um estudo mais aprofundado a este consumidor permitirá compreender as suas opções de compra, no ponto de venda, ao nível das lentes (progressivas tradicionais, progressivas de corredor curto – mais pequenas, etc.), lentes bifocais, lentes de contacto, dois pares de óculos, cirurgia refractiva, etc. Poder-se-á melhor compreender quais as condicionantes que influenciam o consumidor na escolha um produto em detrimento de outro, por este poder estar associado a determinados estereótipos, crenças, valores, etc., ou até mesmo a evitar usar qualquer tipo de produto que evidencie qualquer associação a esses mesmo estereótipos, cren- ças, valores, etc.
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