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As pessoas sabem instintivamente o que o termo “cultura” significa para elas e a qual cultura pertencem (KATAN, 2004:24). No entanto, esse conceito não é único, nem estável, varia no tempo e no espaço e de um indivíduo ou grupo para outro. Conforme Even-Zohar (2005:36), a maneira como uma comunidade modela o mundo que a cerca constitui uma cultura, “[...] um conjunto de ferramentas que permitem a vida social”52. A cultura seria, então, um modelo mental ou mapa do mundo compartilhado por um conjunto de pessoas (KATAN, 2004), facilitando sua interação como sociedade.

No cenário de sistemas dinâmicos que se inter-relacionam, a cultura tem sido considerada o sistema maior, aquele que engloba os demais sistemas, o polissistema central. Inclui, desse modo, os parâmetros que guiam os seres humanos na organização de suas vidas, isto é, na sua convivência como comunidade. Envolve, assim, uma visão compartilhada do mundo, mas, também, ações para transformá-lo. Com base nesse ponto de vista, surgem os conceitos de “bens” e “ferramentas” culturais (EVEN- ZOHAR, 2005:7).

O primeiro conceito considera a cultura como “[…] um conjunto e estoque de bens avaliáveis53, cuja posse denota riqueza, status e prestígio”54 (EVEN-ZOHAR, 2005:7). Na verdade, os bens são definidos como “propriedades”. Even-Zohar aponta que podem ser “materiais” ou “semióticas”, isto é, “tangíveis” ou “intangíveis” e que quem as possui – indivíduos ou entidades – pode utilizá-las para controlar certos aspectos da sua comunidade, como as estruturas de poder. No entanto, isso não significa que os bens refletem o comportamento geral dos participantes de uma cultura. Pertencem apenas a uma parcela privilegiada da sociedade que “[…] não só tem acesso a esses bens, mas define, também, seu valor em primeiro lugar”55 (EVEN-ZOHAR, 2005:9).

Assim, uma pessoa ou um grupo de indivíduos, influentes e com posses, tem a possibilidade de promover um objeto, um pensamento, uma atividade ou um artefato ao

52 […] an ensemble of comprehension tools which enable social life (EVEN-ZOHAR, 2005:36).

53 Even-Zohar (2005:8) indica que o termo “avaliáveis” se refere à transformação de um bem para que

possa ser consumido pelo mercado.

54 […] a set and stock of evaluable goods, the possession of which signifies wealth, high status, and

prestige (EVEN-ZOHAR, 2005:7).

55 […] not only have access to such goods, but also act with authorization to define their value in the first

determinar se são ou não “artísticos”, “espirituais” ou “criativos”, em outras palavras, se devem ou não ser considerados valiosos56 (EVEN-ZOHAR, 2005:7). Quando os bens não são apreciados, normalmente também não são vistos como parte de um polissistema cultural. Por isso, por meio dessa “[…] capacidade de possuir os bens e prevenir outros de os possuírem”57 (EVEN-ZOHAR, 2005:9), certas pessoas ou instituições podem especificar se um bem continuará ou não sendo valorizado, isto é, perpetuado ou não em uma sociedade. Esses valores, contudo, não são imutáveis. Podem ser modificados com o passar do tempo e pelo contato de uma sociedade com outras, processo que pode introduzir novas idéias em uma cultura.

O segundo conceito destaca a cultura como “[…] um conjunto de ferramentas […] utilizadas para organizar a vida, tanto ao nível coletivo como individual”58 (EVEN- ZOHAR, 2005:10). Even-Zohar assinala dois tipos:

1. Ferramentas passivas – Definidas como procedimentos que auxiliam os seres humanos a “[…] analisar, explicar e dar sentido a ‘realidade’’”59, seriam um modo de interpretar e compreender o mundo. Lotman e Uspenskij (1971 apud Even-Zohar, 2005:10) indicam que a cultura “[…] cria uma esfera social […], como a biosfera, que torna a vida possível (de uma maneira social e não orgânica)”60;

2. Ferramentas ativas – São consideradas meios pelos quais indivíduos ou grupos lidam com uma determinada situação, transformando-a através de “ações”. Swidler (1986 apud EVEN-ZOHAR, 2005:10) indica que a cultura é “[…] um repertório ou ‘caixa de ferramentas’ de hábitos, habilidades e estilos a partir dos quais as pessoas constroem ‘estratégias de ação’”61 para suas vidas. O objetivo principal é agir e não apenas entender o mundo, como no caso das ferramentas passivas, apesar de essa concepção continuar direcionando as ações de cada um.

56 De acordo com disciplinas como a antropologia, a sociologia e a arqueologia, os itens valiosos são

considerados bens de uma cultura, isto é, “herança” e “patrimônio” culturais (EVEN-ZOHAR, 2005:7-9).

57 […] not only have access to such goods, but also act with authorization to define their value in the first

place. These restricted dominating circles thus have the double capacity of both possessing the goods and preventing others from having them (EVEN-ZOHAR, 2005:9).

58 […] a set of […] tools for the organization of life, on both the collective and individual levels (EVEN-

ZOHAR, 2005:10).

59 […] analyzed, explained, and made sense of for and by humans (EVEN-ZOHAR, 2005:10).

60 […] creates social sphere […] like biosphere, makes life possible (in this case social and not organic)

(LOTMAN; USPENSKIJ, 1971 apud EVEN-ZOHAR, 2005:10).

61 […] a repertoire or ‘tool kit’ of habits, skills, and styles from which people construct ‘strategies of

Essas duas ferramentas incluem componentes que se inter-relacionam, formando o repertório62 de uma cultura. Esse repertório, no entanto, não surge no vazio, é construído de acordo com as forças – políticas, históricas, sociais, econômicas e culturais – vigentes em uma determinada época. Even-Zohar (2005:70) afirma que pode ser “[…] criado involuntariamente (1) por contribuintes anônimos, cujos nomes e fortunas talvez nunca venham a ser conhecidos, mas, também, deliberadamente, (2) por membros que estão abertamente envolvidos nessa atividade”63. Ao ser constituído, esse repertório é, então, absorvido e adotado pelos membros de uma cultura. Sua aceitação, portanto, como destaca o teórico, depende da rede de relações denominada, por ele, de “(poli-)sistema cultural”. Segundo o autor (EVEN-ZOHAR, 2005:70), esse sistema “[…] inclui fatores como o mercado, detentores de poder, e os usuários em potencial que agem como uma ligação dinâmica entre esses elementos”64.

Por isso, é que o surgimento de um repertório depende do contexto cultural no qual está inserido. Even-Zohar (2005:71-72) indica que pode ser: 1) “inventado” dentro do próprio polissistema cultural ao qual pertence, sem que haja contato com outra cultura; ou 2) “importado” de outro polissistema cultural. Contudo, esses procedimentos não são necessariamente opostos “[…] porque pode-se inventar via importação”65. Isso acontece porque, ao ser importado, um produto normalmente é modificado para alcançar as expectativas de seus consumidores. Nesse sentido, a importação ocorre quando “[…] os bens importados não estão disponíveis no mercado nacional e uma disponibilidade de consumi-los é, de alguma forma, estimulada entre os membros da cultura de chegada”66.

Se a importação desses bens for bem sucedida, há uma grande probabilidade de se tornarem parte do repertório nacional. Quando isso acontece, o item importado é integrado ao sistema de chegada, ou seja, ocorre uma “transferência” entre culturas.

62 Um conjunto de elementos que um grupo de pessoas ou um indivíduo utiliza para “organizar” a vida

(EVEN-ZOHAR, 2005:69).

63 […] made inadvertently (1) by anonymous contributors, whose names and fortune may never be known,

but also deliberately, (2) by known members who are openly and dedicatedly engaged in this activity (EVEN-ZOHAR, 2005:70).

64 […] includes such factors as market, power holders, and the prospective users serving as a dynamic

interface between them (EVEN-ZOHAR, 2005:70).

65 […] because inventing may be carried out via import (EVEN-ZOHAR, 2005:72).

66 […] the goods that are imported are not available on the home market and a willingness to consume

Diante desse panorama, Even-Zohar destaca a importância dos agentes envolvidos no processo:

sugiro que integremos aos conceitos de “bens” (e “produtos”) as imagens projetadas em uma sociedade pelas pessoas engajadas na criação de um repertório […] O trabalho desses agentes pode introduzir, na rede cultural, certas inclinações para repertórios no qual estão envolvidos. Em outras palavras, o novo repertório não se restringe […] aos itens importados […], mas quem tem um papel fundamental na cultura são as pessoas, os agentes que estão envolvidos diretamente no processo67 (2005:74).

Por esse motivo, as relações entre os sistemas de partida e de chegada, com seus mercados e agentes, são fundamentais para se entender melhor a troca de repertórios entre as diferentes culturas, principalmente por meio da literatura (mais especificamente, da literatura traduzida) e das tensões desse sistema.