De acordo com Even-Zohar, a literatura não deve ser
[…] concebida como uma atividade isolada na sociedade, regulada por leis exclusivamente (e inerentemente) diferentes de todas as atividades humanas, mas como um fator integral – geralmente central e bastante poderoso – a elas72 (1990:2).
Shuttleworth (1998:177) resume o pensamento indicando que, a partir desse ponto de vista, a literatura passa a ser considerada como um conjunto de fatores que regem a produção, distribuição e recepção das obras literárias em uma dada cultura.
Sendo assim, é participante de uma estrutura mais abrangente, isto é, de um polissistema cultural, como indicado anteriormente. Por isso, não se pensa mais nos
71 […] new ideas, new methods, new ways of looking at literature and the world, that were not present in
it before (HOLMES, 1988:108).
72 Literature is thus conceived of not as an isolated activity in society, regulated by laws exclusively (and
inherently) different from all the rest of the human activities, but as an integral – often central and very powerful – factor among the latter (EVEN-ZOHAR, 1990:2).
textos apenas de forma isolada, mas como resultados das interações dentro de um sistema maior, o polissistema cultural.
Dessa maneira, o sistema literário inclui uma rede de relações que depende de outros sistemas e, também, de elementos que governam a produção da literatura e seu consumo. Esses fatores, que constituem a totalidade do sistema literário, são apresentados por Even-Zohar com base no esquema de Jakobson:
a. Instituição – A instituição é a responsável pela manutenção da literatura como uma atividade sócio-cultural. Por isso, tem o poder de sancionar ou rejeitar normas e, também, de remunerar e restringir o trabalho dos envolvidos na atividade tradutória. Tem a competência, portanto, de determinar quem e quais produtos deverão ser perpetuados na comunidade. A instituição não é um edifício ou construção, mas é composta de agentes, como produtores, críticos, editoras, revistas, grupos de escritores, escolas e universidades, órgãos governamentais, e a mídia. Com tantos participantes diferentes, só poderia ser heterogênea. Há uma luta constante pelo poder, apesar de grupos distintos poderem atuar ao mesmo tempo. Desse modo, a instituição e os agentes por ela legitimados – junto com outros componentes do sistema literário – governam a produção, o lançamento e o consumo da literatura (EVEN-ZOHAR, 1990:37-38);
b. Repertório – Inclui regras e materiais que regem a produção e o consumo de um produto. No caso específico da literatura, é um agregado de materiais necessários para se produzir determinados tipos de discursos e tornar um texto inteligível. Even-Zohar aponta como, em uma dada situação comunicativa, os interlocutores precisam compartilhar um conhecimento mínimo para poderem se entender. Assim, o repertório seria o conhecimento essencial para a produção e compreensão de um texto. No entanto, não delimita sozinho o espaço que o produtor ou consumidor tem para manobrar no ambiente sócio-cultural; depende, também, dos demais elementos que envolvem a literatura como um sistema (EVEN-ZOHAR, 1990:39-43);
c. Produtor – Para se referir ao agente condicionado pelo sistema e condicionante do produto, Even-Zohar opta pelo termo “produtor” ao invés de apenas “escritor”. Isso porque, em geral, não produz simplesmente textos. Seu trabalho vai além disso: pode reorganizar textos já existentes ou produzir imagens em
determinadas épocas ou culturas. Dessa forma, pode ser considerado um agente político, engajado em um discurso elaborado segundo o repertório aceitável e legitimado no sistema ao qual pertence. Os produtores, portanto, não tem apenas uma função na rede literária, mas participam de diversas atividades. Deve-se destacar, também, que há vários produtores, não apenas um só produtor. Os grupos e as comunidades sociais – que se relacionam entre si e com o consumidor – também são participantes da produção literária (EVEN-ZOHAR, 1990:34-35); d. Consumidor – O “leitor” é considerado um dos principais envolvidos nas
atividades literárias. No entanto, não é o único. Como os produtos não são feitos apenas para serem lidos ou ouvidos, Even-Zohar fala a respeito de “consumidores” no meio literário. Apresenta dois tipos: (1) Diretos, aqueles interessados nos acontecimentos literários. Podem ler os textos, mas, na maioria das vezes, apenas freqüentam eventos relacionados à literatura ao invés de se preocuparem com o significado do produto; e (2) Indiretos, que têm acesso a fragmentos literários que formam seu repertório cultural, como expressões idiomáticas, parábolas e alusões, transmitidos por vários agentes culturais. Aqui, também não existe somente um consumidor, mas grupos de consumidores. Surge, dessa forma, o conceito de “público”, fundamental para o sistema literário (EVEN-ZOHAR, 1990:36-37);
e. Mercado – O mercado envolve os fatores ligados a venda e compra de produtos literários e a promoção dos tipos de consumo. Inclui lojas e livrarias e ainda outros elementos relacionados a esse processo em geral. Nesse espaço, a instituição pode tentar direcionar e ditar os tipos de consumo, determinando, por exemplo, os preços dos produtos. Já os produtores e seus promotores o utilizam para vender os produtos, estimulando o desenvolvimento da literatura. Quanto maior o mercado, maior será a evolução do sistema literário (EVEN-ZOHAR, 1990:38-39).
f. Produto – Em geral, o produto é considerado o resultado de uma atividade específica. No caso da literatura, o mais característico é o próprio texto. Even- Zohar aponta que “literaturologicamente” envolve os padrões de composição da obra, e “culturologicamente” a percepção que uma sociedade tem de sua língua e do mundo que a cerca, isto é, seus “modelos da realidade”. Porém, como a
maioria dos consumidores nem sempre tem acesso aos textos integrais, os fragmentos textuais também podem ser considerados um tipo de produto. Conforme o autor, os trechos de obras são inventários para a comunicação diária ou pontos de partida para a criação de outros textos e segmentos, agindo, dessa maneira, como preservadores dos modelos da realidade de uma determinada comunidade (1990:43-44).
Cada um desses fatores interage, então, entre si, formando a rede de relações do sistema literário:
[…] o CONSUMIDOR pode “consumir” um PRODUTO produzido por um PRODUTOR, mas para que esse “produto” (como o “texto”, por exemplo) seja gerado é preciso haver um REPERTÓRIO em comum, cuja usabilidade é determinada por uma INSTITUIÇÃO. É preciso haver um MERCADO no qual esse bem possa ser transmitido. Nenhum desses fatores pode funcionar isoladamente73 (EVEN-
ZOHAR, 1990:34).