3.2 Aplicación Android
3.2.7 Pregunta en detalle
A origem de Barcarena, diferente da jovialidade expressa pelas comemorações de seu aniversário – que considera o ano de 1943, como data de sua fundação – é muito antiga e acaba confundindo-se com o processo de ocupação do território amazônico, no início do século XVII, onde a colonização portuguesa iniciou com a construção do Forte do Presépio e a fundação da cidade de Belém, no ano de 1616.
No momento do início do processo de colonização pela coroa portuguesa, as terras onde hoje localiza-se o Forte do Presépio e a capital do Pará, Belém e cercanias, eram espaços ocupados por inúmeros povos indígenas e o primeiro contato não se deu de forma harmoniosa.
Segundo Henrique (2011), havia cerca de 3 a 4 milhões de indígenas na Amazônia no momento da chegada dos europeus e, os primeiros a serem atacados no início do processo de colonização da região foram os Tupinambás que, de acordo com o autor, habitavam a baia de Guajará e o Baixo Tocantins. Bastou pouco tempo para que inúmeros desses povos que habitavam as imediações da, atual cidade de Belém, fossem dizimados, seja por guerras de extermínio, seja através da escravidão ou de doenças transmitidas pelos europeus.
Três anos após a chegada dos portugueses, em 1619, Castro (2009) mostra ter havido uma sangrenta batalha entre índios tupinambás e os colonizadores portugueses, sendo esta talvez a principal batalha ocorrida entre os dois grupos, o que levou os índios, ao perderem o confronto, terem que fugir, submeter-se ao regime colonial.
Então, não diferente de outros espaços amazônicos, Barcarena tem a sua origem baseada na resistência e/ou alianças com os colonizadores europeus face ao processo de ocupação e apropriação de suas terras principalmente pelos portugueses, através das missões religiosas.
A ocupação do espaço que hoje representa o território de Barcarena ocorre desde o período colonial, mais precisamente a partir da segunda metade do século XVIII, quando o povoado de São Francisco Xavier foi transformado em categoria de Freguesia (IBGE, 2010).
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE (2010), o povoado de São Francisco Xavier foi elevado à categoria de Freguesia sob a invocação de São Francisco Xavier de Barcarena, no ano de 1758. Através da Lei estadual nº 494, de 10 de maio de 1897, é desmembrado de Belém e elevado à categoria de município.
Porém, ainda conforme o referido órgão, nos quadros de apuração do recenseamento geral de I-IX-1920 e em divisões territoriais de 31-XII-1936 e 31- XII-1937, Barcarena ainda aparecia como distrito do município de Belém, vindo a ser desmembrado de Belém e, elevado novamente à categoria de município através do Decreto-Lei Estadual nº 4505, de 30 de dezembro de 1943 (IBGE, 2010).
Na década de 1960, a sede político-administrativa foi transferida para a margem direita do rio Mucuruçá, onde encontra-se instalada até os dias atuais.
No século XIX, Barcarena apresentava uma economia diferenciada daquela da época dos jesuítas, baseada no extrativismo vegetal, na lavoura e na pesca. Surgiam os engenhos de cana-de-açúcar, além das olarias nas regiões das ilhas, como as de Arapiranga e Landi. Entretanto, esse avanço econômico sofreu certa decadência ainda na primeira metade do século XIX, por meio da Revolução Cabana.
Em se tratando da Cabanagem16, Barcarena foi palco desse que foi um dos maiores movimentos de resistência popular do Brasil. Em seu território residiram os maiores líderes do movimento, a exemplo do Cônego Batista Campos, em Aicaraú e, Eduardo Angelim, que residia na fazenda Madre de Deus.
A partir da segunda metade do século XX, mais precisamente na década de 1980, Barcarena vivenciou grandes transformações que estão relacionadas às mudanças que vinham se processando no mundo na década anterior, ou seja, na década de 1970, nesse período o mundo foi abalado por inúmeras crises, das quais destacamos a crise do Petróleo, nos anos de 1973 e 1979. Esta crise abalou os mercados, principalmente aquele voltado para a produção de produtos eletro intensivos, a exemplo da cadeia do alumínio. Portanto, é neste momento que a Amazônia e com ela, o município de Barcarena, entrarão na rota do capital internacional como fornecedoras de commodities voltadas para atender as demandas do mercado externo.
Visando equacionar tais situações, o governo brasileiro preparou medidas voltadas para a produção de energia, como o Proálcool e a construção de novas hidroelétricas, entretanto, essas políticas estavam atreladas aos interesses do capital internacional que também buscava maneiras de exportar seus problemas, principalmente para os países periféricos.
Esse contexto afetou diretamente o município de Barcarena, lócus de nossa pesquisa. Segundo Tarsitano Neto (1995), em 1979 o mercado internacional de alumínio passou por uma crise mundial, devido as crises do petróleo de 1973 e 1979, que resultou numa drástica reestruturação dessa indústria (caracterizada pelo uso intensivo de energia) e provocou uma redistribuição espacial da sua capacidade produtiva.
Essa redistribuição direcionou parte da cadeia produtiva de alumínio de um grupo de países da Europa, do Japão e dos Estados Unidos, para países da Ásia e da América Latina que possuem fonte de energia mais barata (TARSITANO NETO, 1995, P. 76). O Japão fechou suas fábricas e realizou consórcios com países ricos em bauxita e com elevado potencial de fornecimento de energia barata.
16 A Cabanagem foi um movimento popular que eclodiu na Amazônia, em 1834, em decorrência
da marginalização cultural e de dominação econômico-política dos primeiros habitantes da Amazônia (VASCONCELLOS, 1996, p. 24).
Nesse sentido, os planos nacionais de desenvolvimento articularam com as multinacionais do alumínio a exploração das grandes reservas de bauxita dos municípios de Trombetas e Paragominas e o seu beneficiamento no município de Barcarena, todos no Estado do Pará. Além da produção de energia elétrica, em larga escala, pela Usina Hidrelétrica de Tucuruí. Nascia assim, uma parceria multinacional que colocava Barcarena no contexto da economia mundial como fornecedora de commodities.
A estratégia do governo federal em internacionalizar os recursos naturais da Amazônia fez o Estado arcar com toda infraestrutura industrial e portuária de Barcarena, além do fornecimento de energia elétrica, insumo fundamental para viabilizar a produção de alumina e alumínio, por meio das Centrais Elétricas do Norte do Brasil S. A, conforme aponta Monteiro (2005):
[...] para o que foi necessário a instalação de plantas químicas para a produção da alumina e a edificação de plantas metalúrgicas para a produção de alumínio. Estas últimas requeriam a disponibilidade de enormes quantidades de energia elétrica. Para tanto, o governo federal promoveu negociações objetivando a formação de uma joing venture entre a CVRD e empresas japonesas para a produção de alumina e alumínio, como também criou, em 1973, a Centrais Elétricas do Norte do Brasil S. A. (Eletronorte), com a finalidade de viabilizar a implantação da Usina Hidrelétrica de Tucuruí, indispensável ao suprimento de energia para a transformação industrial da alumina em alumínio (MONTEIRO, 2005, p. 189).
Esses empreendimentos industriais instalados em Barcarena trouxeram grandes transformações para o espaço local, principalmente quando se leva em consideração a questão socioeconômica uma vez que, a título de comparação, na década de 1970, o município contava com cerca de 79,12% de sua população ligada à agropecuária, à pesca e ao extrativismo vegetal, no entanto, no ano de 2005, o perfil do município havia mudado completamente.
Barcarena havia se transformado em um município de grande potencial industrial, sediando importantes empresas como a Albras/Alunorte, Imerys Rio Capim Caulim, Pará Pigmentos e a Alubar, além de várias empresas terceirizadas que fazem com que a atividade industrial seja responsável por 70,59% da economia local (BARROS, 2009).
Nesse caso, o município de Barcarena foi afetado pelo processo de mundialização do capital, expresso no aumento acelerado de sua população, crescimento urbano desordenado e desemprego crescente.
O Projeto Albras/Alunorte não absorveu a maior parte da mão de obra empregada na construção da infraestrutura das empresas ao término das obras e nem favoreceu que muitos desempregados pudessem habitar as casas da Company Town Vila dos Cabanos, sendo estas destinadas, principalmente, aos funcionários das fábricas de alumina e alumínio, fator responsável, em grande parte, pelas recentes ondas de ocupações desordenadas que vive o entorno de Vila dos Cabanos.
Portanto, é neste cenário de grandes transformações de cunho social, político e econômico que a educação e a carreira do magistério vem se moldando.