As águas antárticas do Estreito de Bransfield mostraram-se ricas em nutrientes e, no caso do início do verão austral, período estudado, as águas apresentaram baixas temperaturas com valores negativos em vários pontos e a salinidade atingiu valores em torno de 34. É uma região remota e, das áreas estudadas, é a menos impactada pelo homem. Assim, os processos que afetam a distribuição de silício nesta área são principalmente de origem natural, mostrando características austrais mais ligadas à circulação e ao degelo.
Deve-se considerar que esta região não está isenta da influência de alterações climáticas que podem alterar os processos biogeoquímicos decorrentes dos aportes de material aos oceanos. Sendo assim, este estudo mostrou a importância de se conhecer o comportamento do silício e demais parâmetros associados no início do período de degelo (verão austral) para dar subsídios ao acompanhamento da evolução do cenário estudado diante das mudanças que vêm ocorrendo mundialmente.
A distribuição dos parâmetros analisados mostrou claramente uma divisão do Estreito em duas regiões: nordeste e sudoeste. A região nordeste do Estreito de Bransfield mostrou menores concentrações de silicato na superfície associadas à menor diversidade fitoplanctônica, constituída por espécies que facilitam o afundamento de Si e a remineralização do C e N. Enquanto na região sudoeste do Estreito, a concentração de silicato foi maior, assim como a influência do degelo (indicada pelos maiores valores de MPS). Deste modo os valores de silício atuaram na distinção destas regiões.
A influência do degelo e transporte de materiais terrestres associados a ele (MPS), deve ter contribuído para maior biodisponibilidade de ferro, indicada pelo traçador Si*, favorecendo o aumento da diversidade fitoplanctônica em direção sudoeste. Nesta região também houve a presença de espécies fitoplanctônicas que facilitam o afundamento de C e N na coluna d’água e auxiliam a remineralização de Si.
Desta forma, mesmo no início do período de verão austral, foi possível constatar que as águas ricas em nutrientes principais (N, P, Si) e com temperaturas em muitos pontos negativas, devem contar com a biodisponibilidade de micronutrientes, possivelmente introduzidos com auxílio dos processos de degelo sobre terras emersas, contribuindo à diversidade fitoplanctônica.
O Complexo Estuarino-Lagunar de Cananeia-Iguape, apesar de ser considerado uma reserva natural protegida, apresentou sinais de impacto antrópico em seu setor norte (Iguape), devido à abertura do canal do Valo Grande (interferência antrópica), que vem contribuindo aos processos erosivos e canalizando material para o Complexo Estuarino- Lagunar.
O canal do Valo Grande viabiliza a grande inserção de água proveniente do Rio Ribeira de Iguape no norte do complexo atuando na diminuição da salinidade até valores de água doce (0) e sendo uma importante fonte de nutrientes para o sistema, principalmente fosfato e silicato que atingiram valores muito altos.
Foram observados sinais que indicam processos de eutrofização nas estações próximas a Iguape, com valores altos de nutrientes (N, P e Si) e de turbidez, e um teor de OD bastante baixo durante o inverno.
As diferentes frações do silício (dissolvido e particulado) se mostraram excelentes indicadores de processos de aporte por rios e transporte de material proveniente de erosão, que ocorrem devido à influência antrópica, no setor norte do sistema.
A diferença de pluviosidade entre o inverno e o verão fez com que o aporte de material via canal do Valo Grande fosse maior durante o verão. Este processo foi refletido pelas concentrações de silicato, BSi e LSi, que foram bastante elevadas neste período sazonal, principalmente no setor norte. O maior aporte de MPS via fluvial para o sistema também ocorreu no verão, constituindo a principal fonte de BSi e LSi para o estuário em conjunto com processos de remobilização de sedimentos.
O silicato dissolvido, o BSi e o LSi sofreram processos de remoção ao longo do gradiente de salinidade que se forma no interior do sistema. Isto ocorreu provavelmente devido a interações com o MPS e a processos de sedimentação, ficando retidos no interior do estuário e limitando assim, a exportação para a área costeira adjacente, no período estudado.
No setor sul do sistema, a influência antrópica não foi revelada pelos parâmetros estudados. Assim, as formas de silício indicaram processos de origem natural como a sedimentação, evidenciada pela remoção do BSi e do LSi, e a ressuspensão (causada, por exemplo, pela entrada da maré) onde se observou maiores concentrações de frações particuladas de silício próximas ao fundo.
No caso dos estudos na região costeira de Recife (PE), embora localizada na zona tropical, caracterizada por águas pobres em nutrientes, a região está sob a influência dos aportes fluviais provenientes dos rios Capibaribe e Beberibe que atravessam a cidade. Desta forma, as distribuições da maioria dos parâmetros, incluindo o silicato e o BSi, mostraram esta influência fluvial vinda de oeste, atingindo a barreira (mole) e se propagando em direção a nordeste.
Como houve um aporte evidenciado de nutrientes nesta região, a produção primária foi incentivada, registrada pelos maiores valores de clorofila-a acompanhados pelo BSi, indicando a participação de diatomáceas marinhas. Nesta situação, o BSi deu um excelente sinal da presença de fitoplâncton silicoso associado aos valores de clorofila- a, mostrando ser um excelente indicador de bioprocessos na região, correspondendo a um importante membro do ciclo biogeoquímico do silício.
O LSi mostrou um comportamento diferenciado das outras frações de silício, estando relacionado mais aos processos de ressuspensão de sedimentos e interação com o MPS do que com a influência fluvial. Nas estações mais distantes da costa os parâmetros tiveram valores característicos de áreas oligotróficas, com as frações de silício mostrando concentrações bastante baixas.
Enfim, foi constatado que o silício se mostrou um excelente indicador de aportes continentais naturais e antrópicos. São poucos os trabalhos que quantificam o silício biogênico e o litogênico no meio aquático, assim este estudo consiste em um ponto inicial para o entendimento do silício particulado em águas brasileiras. O aumento de membros no ciclo do silício contribuirá ao melhor conhecimento do ciclo biogeoquímico do silício podendo contribuir para estudos futuros referentes a processos erosivos costeiros, sequestro de carbono e mudanças globais.