A aplicação do tratamento de Pearson (Tab. 2) mostrou correlações significativas (p<0,05) entre os parâmetros físicos (temperatura e salinidade) e o oxigênio dissolvido. Como os dados foram somente coletadas na superfície da água, a temperatura e a salinidade devem ter exercido um controle maior sobre as concentrações de OD do que os processos biológicos; pois quanto menor a temperatura e a salinidade mais fácil é a dissolução do oxigênio e maior a concentração de OD. A influência dos processos fotossintéticos, neste início do verão austral, não foi tão acentuada, pois os valores de saturação de OD não atingiram o 100%, ficando longe da supersaturação indicativa de atividade biológica mais destacada. Os altos valores de feofitina podem representar vestígios de degradação da produção primária do verão anterior.
Os valores obtidos de salinidade foram considerados relativamente baixos em relação aos valores relatados por outros autores nesta área (Castro et al., 2002; García et al., 2002; Sturz et al., 2003), mas neste período sazonal (primavera, começo do verão) podem ser atribuídos a processos de degelo e a maior precipitação, como citado por Jiang et al. (2013). Os valores baixos de salinidade associados a valores negativos de temperatura também indicaram a presença da Água de Inverno Antártica (AWW), que
ainda não tinha sido substituída pela Água Superficial Antártica (ASA) (Smith et al., 1999; Klinck et al., 2004; Loeb et al., 2010; Huang et al., 2012)
O material particulado em suspensão (MPS) não apresentou correlação significativa com nenhum outro parâmetro, exceto a matéria orgânica em suspensão (MOS). Entretanto, se observadas as figuras 11a, 11b, 13a e 13b, nota-se que os maiores valores de MPS encontraram-se próximos à Ilha Deception e à Ilha Rei George onde a temperatura e a salinidade foram menores sinalizando maior influência do degelo nestas regiões.
O silicato apresentou correlação significativa apenas com o fosfato, sugerindo que estes nutrientes têm a mesma fonte ou passam pelos mesmos processos de remoção e remineralização. Isto é bastante conivente com origens via aportes terrestres e a partir de processos de regeneração, a que ambos devem estar sujeitos. Já o nitrato mostra maior correlação com a presença de matéria orgânica, considerada sua principal fonte.
A variação nas concentrações de fosfato e nitrato foram condizentes com as encontradas os trabalhos de outros autores (Castro et al., 2002; García et al., 2002; Sturz et al., 2003; Huang et al., 2012; García-Muñoz et al., 2013). Alguns valores de silicato estiveram um pouco abaixo dos valores encontrados por outros autores no começo do verão, os quais em geral ultrapassam 60 µmol L-1 (Castro et al., 2002; García et al., 2002;
Sturz et al., 2003). Os valores observados neste estudo estiveram mais próximos à faixa de concentração encontrada por Huang et al. (2012) e García-Muñoz et al. (2013) que observaram uma variação de silicato de 20 µmol L-1 a 80 µmol L-1 na região oeste da
Tabela 2. Correlação linear (r) entre os parâmetros analisados no Estreito de Bransfield, n = 17. Em vermelho estão marcadas as correlações significativas, p<0,05.
Temp Sal OD %OD Silicato Fosfato Nitrato N/P M.P.S. M.O.S. %MO Cl-a Feo Temp Sal 0,66 OD -0,57 -0,83 %OD 0,45 -0,21 0,41 Silicato 0,24 0,46 -0,35 -0,17 Fosfato 0,19 0,16 -0,06 0,01 0,83 Nitrato 0,14 0,18 -0,21 0,02 0,09 0,15 N/P 0,06 0,09 -0,19 0,01 -0,30 -0,31 0,89 MPS -0,06 -0,11 -0,08 -0,16 -0,35 -0,16 -0,08 -0,02 MOS 0,09 -0,02 -0,19 -0,07 -0,33 -0,15 0,15 0,22 0,94 %MO 0,49 0,32 -0,41 0,23 0,04 -0,02 0,69 0,68 -0,02 0,31 Cl-a -0,10 -0,30 0,28 0,19 0,11 0,23 -0,37 -0,45 0,49 0,37 -0,29 Feo -0,22 -0,16 0,00 -0,29 -0,20 -0,27 -0,52 -0,33 0,08 -0,10 -0,48 0,29
Foi possível verificar que na região nordeste do Estreito ocorreram as menores concentrações de silicato e houve predominância de quase 100% de diatomáceas do gênero Corethron, ou seja, biodiversidade mínima. Aliás, a presença de Corethron é unânime em todos os pontos amostrados. Esta dominância também foi observada por Bathmann et al. (1996). Estes organismos, juntamente com os do gênero Flagilariopsis são resistentes à limitação do ferro e à pressão do “grazing” pelo zooplâncton e, em função do formato de suas frústulas, são responsáveis pelo afundamento seletivo do Si enquanto o nitrogênio e o carbono presentes na célula são remineralizados nas camadas superficiais (Assmy et al., 2013). Como a concentração de silicato superficial é menor nesta região, torna-se possível considerar uma importante remoção de silício para águas mais profundas via afundamento de Si na forma de silício biogênico (no sedimento chamado de opala).
Na região sudoeste do Estreito também há predominância de Corethron e Flagilariopsis, entretanto a biodiversidade fitoplactônica é maior, com o aparecimento de diatomáceas dos gêneros Chaetocerus e Thalassiosira. Estes organismos são característicos de águas onde há quantidade “suficiente” de ferro. Suas células formam grandes agregados que afundam rapidamente, levando a um afundamento maior de carbono, porém suas frústulas são mais frágeis, facilitando a remineralização de Si ainda na superfície (Assmy et al., 2013). Este processo, associado ao aporte de material terrígeno da Ilha Deception que deve ter algum conteúdo em ferro, contribui para que esta região tenha uma concentração maior de silicato.
Em águas onde a produção primária é limitada pelo ferro, as diatomáceas tendem a absorver mais silício do que nitrogênio, por isso o índice Si* criado por Sarmiento et al. (2004), que é calculado pela diferença entre a concentração de silicato e a de nitrato, pode ser um bom proxy para avaliar a limitação por ferro; sendo que, quanto maior o Si* maior a disponibilidade de ferro. Na figura 16 observa-se que o Si* foi maior na região sudoeste do Estreito onde a concentração de clorofila-a também foi maior, ou seja, em áreas onde a limitação de ferro é menor, a produção primária é maior, oque corrobora a possibilidade de maior disponibilidade de ferro junto à Ilha Deception.
Figura 16. Distribuição superficial de Si* (silicato-nitrato) no Estreito de Bransfield, Antártica, outubro de 2011.
Portanto, as águas antárticas do Estreito de Bransfield são ricas em nutrientes, sendo que o silicato atinge valores bastante elevados. No início do verão austral as águas permanecem com baixas temperaturas (negativas) em sua maioria e a salinidade atinge valores em torno de 33 - 34. O silicato e o fosfato mostraram processos de assimilação e fontes similares enquanto o nitrato passou por processos diferenciados de assimilação. O indicador Si* foi um bom proxy à carência de ferro. As diatomáceas do Gênero Corethron parecem ser as mais adaptadas as condições ambientais no início de verão austral, despontando em segundo lugar o gênero Flagilariopsis. Estes gêneros facilitam o afundamento de silício biogênico, mas não contribuem muito para o afundamento e sequestro de carbono. Já os gêneros Chaetocerus e Thalassiosira que aparecem na região sudeste do Estreito facilitam a remineralização de silício e são responsáveis por um afundamento de carbono mais eficiente.
5.2. Sistema Estuarino-Lagunar de Cananeia-Iguape (SP)