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O termo inovação “é notoriamente ambíguo e carece de definição e medida única” (ADAMS; BESSANT; PHELPS, 2006). Entre diversos conceitos existentes, inovação “representa - por definição - algo novo e, portanto, adicional ao conhecimento existente” (LUNDVALL; NIELSEN, 2007, p. 214), “a recombinação de conhecimentos existentes de novas maneiras” (PLESSIS, 2007), a “aplicação de descobertas e invenções, processo pelo qual novos resultados, produtos, sistemas ou processos são gerados” (WILLIAMS, 1999 apud GLOET; TERZIOVSKI, 2004, p. 402), a exploração bem sucedida de boas ideias” (ADAMS; BESSANT; PHELPS, 2006), a aplicação do conhecimento para a transformação (SABBAG, 2007) ou “ideia, prática ou objeto que é percebido como novo por um indivíduo ou outra unidade de adoção” (FRUHLING; SIAU, 2007, p. 133 apud KUO, 2011).

A definição de inovação é importante porque dela depende a identificação das organizações inovadoras, do quanto são inovadoras, de seus efeitos no desempenho organizacional e das características organizacionais que a determinam (SUBRAMANIAN; NILAKANTA, 1996). Contudo, interesses de pesquisa parciais sobre o tema nesta abordagem podem ter gerado esta diversidade conceitual, de operacionalização e de resultados, que deram origem a subteorias para explicá-los, resultando em tipologias da inovação (SUBRAMANIAN; NILAKANTA, 1996) ou perspectivas da capacidade de inovação (WANG; AHMED, 2004).

Quanto aos objetivos, a inovação pode ser classificada nos tipos inovação administrativa ou inovação técnica: o “aspecto técnico se refere a produtos, serviços e processos produtivos, enquanto a inovação administrativa se refere a inovações geradas pela gestão e por alterações da estrutura organizacional e de procedimentos administrativos” (DAFT, 1978 apud CHEN; LIU; WU, 2009, p. 488). Considerando mais explicitamente a teoria do sistema sociotécnico, as inovações técnicas podem ser relacionadas ao sistema técnico e as administrativas ao sistema social das organizações:

inovações técnicas [...] ocorrem no componente operacional e afetam o sistema técnico da organização, que consiste de equipamentos e métodos de operações usados para transformar materiais ou informação em produtos ou serviços. Pode ser a adoção de uma nova ideia relativa a um novo produto ou serviço, ou a introdução de novos elementos em um processo de produção ou operações de serviços da organização.

inovações administrativas afetam o sistema social da organização [...] que consiste nos membros de uma organização e suas relações. Incluem normas, papéis, procedimentos e estruturas relacionadas para a comunicação e a troca entre os membros da organização. Constituem a introdução de um novo sistema de gestão, processo administrativo, de pessoal, de programa de melhoria. [...] Não prevê um novo produto ou um novo serviço, mas influencia indiretamente a introdução de novos produtos ou serviços ou no processo de produzi-los (DAMANPOUR et al., 1989 apud SUBRAMANIAN; NILAKANTA, 1996, p. 588).

Nestes conceitos se percebe a existência de diferentes processos organizacionais nas duas tipologias de inovação, relacionadas aos dois sistemas organizacionais: inovações em processos produtivos relacionadas ao núcleo tecnológico ou sistema técnico organizacional, e inovações em processos administrativos relacionadas ao núcleo administrativo ou sistema social organizacional (EDQUIST; MEEUS, 2006; DAMANPOUR; EVAN, 1984; DAFT, 1978 apud DAMANPOUR; WALKER; AVELLANEDA, 2009).

Outras denominações para as duas tipologias de inovação foram utilizadas: Hamel (2007) chamou a inovação técnica de tecnológica e a administrativa de inovação em gestão. Schmidt e Rammer ([s.d.]) nominaram a técnica de tecnológica e a administrativa de não tecnológica. Independente da nomenclatura há consenso na literatura quanto à composição e diferenciação entre inovações técnicas, que abrangem as de produtos/serviços e processos de produção / operações. Também há consenso em relação à composição das inovações administrativas, mas não em relação à sua diferenciação entre organizacionais e de marketing.

A inovação administrativa é amplamente conhecida, mas menos pesquisada pelos estudos da área (DAMANPOUR; WALKER; AVELLANEDA, 2009). Esta “capacidade para implantar

novos regulamentos de gestão, sistemas, práticas, métodos, etc, que aumentam a eficiência da gestão” também é chamada de inovação gerencial (PALACIOS; GIL; GARRIGOS, 2009, p. 293), de inovação em gestão (DAMANPOUR; WALKER; AVELLANEDA, 2009) e de inovação em processos administrativos, e conceituada como:

novas abordagens e práticas [...] para modificar a gestão dos processos organizacionais (Birkinshaw et al., 2008; Daft, 1978; Light, 1998) [...] dizem respeito a mudanças da estrutura, processos, sistemas administrativos, conhecimentos utilizados na realização do trabalho de gestão e habilidades gerenciais que permitem que uma organização funcione e tenha sucesso usando seus recursos de forma eficaz (DAMANPOUR; WALKER; AVELLANEDA, 2009, p. 655).

As inovações administrativas foram subdivididas em inovações organizacionais e inovações de marketing pela pesquisa realizada pela Organização para a Coorperação e Desenvolvimento Econômico (OECD), de acordo com a terceira edição do Manual de Oslo (OECD; EUROSTAT, 2005), que também é seguida pela Pesquisa de Inovação Tecnológica (PINTEC), realizada no Brasil trienalmente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a seguir conceituadas:

inovação organizacional é a implantação de uma nova estrutura ou método organizacional nas práticas de negócios da empresa, na organização do seu local de trabalho ou em suas relações externas, visando melhorar o uso do conhecimento, a eficiência dos fluxos de trabalho ou a qualidade dos bens ou serviços. É resultado de decisões estratégicas tomadas pela direção e deve constituir novidade organizativa para a empresa.

inovação de marketing é considerada a implantação de um novo método de

marketing com mudanças significativas na concepção do produto ou em sua

embalagem (desde que não afetem suas características funcionais ou de uso), no posicionamento do produto, em sua promoção ou na fixação de preços, visando melhor responder as necessidades dos clientes, abrir novos mercados ou a reposicionar o produto no mercado para incrementar as vendas. As novas estratégias ou conceitos de marketing devem diferir significativamente daqueles utilizados previamente pela empresa (IBGE/PINTEC, 2010, p. 24-25).

Esta subdivisão das inovações administrativas são pouco adotadas nos estudos desta área. O outro tipo consistir na inovação de produtos e/ou serviços, que possui foco externo à organização. Visa aumentar o desempenho e/ou reduzir o custo do produto e/ou serviço (IBGE/PINTEC, 2010). Dependendo da definição adotada, pode se caracterizar tanto em relação aos aspectos técnicos ou atributos novos do bem (produto/serviço): “Novos produtos geralmente contêm novas características técnicas que oferecem novas funcionalidades,

aumentam a qualidade do produto ou permitem áreas totalmente novas de aplicação” (SCHMIDT; RAMMER, [s.d.]), como em relação ao mercado: “Inovação de produtos ou serviços constituem a introdução de novos produtos ou serviços aos clientes existentes ou novos, e a oferta de produtos ou serviços existentes para novos clientes” (DAMANPOUR; WALKER; AVELLANEDA, 2009).

As inovações em processos tecnológicos são relacionadas ao sistema produtivo propriamente dito, utilizando como matérias primas predominantes: materiais para produtos e informação

para serviços (ABERNATHY; UTTERBACK, 1978; DAMANPOUR;

GOPALAKRISHNAN, 2001 apud DAMANPOUR; WALKER; AVELLANEDA, 2009). Possuem foco interno e são motivadas principalmente pela redução do tempo de entrega, aumento da flexibilidade operacional e redução dos custos de produção (BOER; DURING, 2001 apud DAMANPOUR; WALKER; AVELLANEDA, 2009), pelo aumento da eficiência e da qualidade da produção (SCHMIDT; RAMMER, [s.d.]), abrangendo todos os objetivos de desempenho da gestão da produção propostos por Slack, Chambers e Johnston (2008).

A PINTEC considera que a inovação tecnológica ocorre quando o produto é introduzido no mercado ou quando o processo passa a ser operado pela empresa (IBGE/PINTEC, 2010, p. 19). Define inovação em processo como “a introdução de novos ou substancialmente aprimorados métodos de produção ou de entrega de produtos” e especifica o que compreende e o que não compreende métodos de produção e processos de entrega na indústria e em serviços:

Métodos de produção, na indústria, envolvem mudanças nas técnicas, máquinas, equipamentos ou softwares usados no processo de transformação de insumos em produtos; nos serviços, envolvem mudanças nos equipamentos ou softwares utilizados, bem como nos procedimentos ou técnicas que são empregados para criação e fornecimento dos serviços. Os novos ou aperfeiçoados métodos de entrega dizem respeito a mudanças na logística da empresa, que engloba equipamentos,

softwares e técnicas de suprimento de insumos, estocagem, acondicionamento,

movimentação e entrega de bens ou serviços. As inovações de processo também incluem a introdução de equipamentos, softwares e técnicas novas ou significativamente aperfeiçoadas em atividades de apoio à produção, tais como: planejamento e controle da produção, medição de desempenho, controle da qualidade, compra, computação (infraestrutura de tecnologia da informação - TI) ou manutenção. O resultado da adoção de processo novo ou substancialmente aprimorado deve ser significativo em termos: do nível e da qualidade do produto (bem/serviço) ou dos custos de produção e entrega. [...] que não possam utilizar os processos previamente existentes, ou simplesmente aumentar a eficiência da produção e da entrega de produtos já existentes, sendo excluídas as mudanças pequenas ou rotineiras nos processos produtivos existentes e aquelas puramente administrativas ou organizacionais (IBGE/PINTEC, 2010, p. 19).

A classificação de inovações tecnológicas em produtos e processos foi confirmada pela identificação de suas diferenças fundamentais de autonomia, tacitividade e complexidade por uma survey aplicada em bancos comerciais de quatro estados dos Estados Unidos, utilizando a escala tipo Likert de 5 pontos, que obteve 27,7% de respostas válidas. A pesquisa revelou que inovações de processo são relativamente mais sistêmicas e complexas (indivisíveis, intelectualmente sofisticadas e originais) que inovações de produto (relativamente mais autônomas e simples), apresentando tacitividades semelhantes. Como implicações das diferenças de autonomia e complexidade, os autores concluíram que inovações de processo possuem origem mais interna, são mais caras (especialmente em grandes empresas) e percebidas como mais eficazes (GOPALAKRISHNAN; BIERLY; KESSLER, 1999).

Percebe-se nos conceitos apresentados que inovação de produto/serviço pode considerar aspectos técnicos e de mercado, enquanto a de processo apenas o técnico. Estas diferentes percepções podem ter levado a outras distinções das inovações. Além destas tipologias ou perspectivas, Dewar e Dutton (1986) e Ettlie, Bridges e O'Keefe (1984) distinguiram inovações com base na radicalidade das inovações: radicais ou incrementais.

Em termos técnicos, a novidade pode ser um aperfeiçoamento de algo já existente, resultando em mudança marginal (inovação incremental) ou a criação de algo revolucionário ou original, que resulte em mudança substancial (inovação radical). Em termos de mercado, pode ser a aplicação de algo existente, mas que seja novidade em uma subunidade, unidade ou numa empresa, em outros setores ou indústrias, em novos nichos de mercado (inovação incremental), ou ainda no próprio setor em nível nacional ou mundial (inovação radical). Além da divergência de critério de radicalidade a ser adotado, não há consenso na literatura quanto à sua aplicação aos tipos de inovação, sendo por vezes considerado apenas na inovação de produto, apenas nas tecnológicas, em todas ou até não sendo utilizados para classificá-las, pois depende das definições adotadas, que apresentam substanciais diferenças. Dewar e Dutton (1986) e Ettlie, Bridges e O’Keefe (1984) aplicam cada critério a um tipo de inovação. Diferenciam inovações de produto radicais de incrementais considerando o mercado: a radical se refere a inovações desconhecidas pelo mercado, e a incremental diz respeito a inovações para a firma que possam ser praticadas por outras firmas no mercado ou noutros mercados; enquanto inovações de processo são classificadas com base técnica: incremental em processo são melhorias nos processos de serviços ou nas operações, não importando se já ocorrera em outros mercados. Excluem a classificação das inovações administrativas.

Divergindo destes autores, Tsai (2001) e Liao, Fei e Chen (2007 apud PALACIOS, GIL; GARRIGOS, 2009, p. 293) consideram radicais e incrementais apenas inovações de produtos e serviços, utilizando o critério técnico em vez do de mercado: “Inovação de produto se refere ao fornecimento de produtos diferenciados, produtos/serviços novos ou melhorados ao mercado [...] pode incluir duas categorias: inovação radical e inovação incremental”. Desconsideram a classificação da inovação de processo e da inovação administrativa.

Schmidt e Rammer ([s.d.]) não as classificam em radicais e incrementais, mas utilizam o critério de mercado aplicado apenas a produtos, pois apuram os efeitos da introdução de novidades do mercado, ou “produtos novos que não foram oferecidos ao mercado antes por qualquer outra empresa”, revelando diferenças entre eles e os já conhecidos pelo mercado. A PINTEC também não classifica as inovações em radicais e incrementais, mas coleta dados sobre os graus de novidade em termos de mercado dos diferentes tipos de inovação (produto, processo, organizacional e mercadológica), e considera o critério técnico (novo ou substancialmente aprimorado) para todos os tipos de inovações. Define inovações tecnológicas como “produto e/ou processo novo ou substancialmente aprimorado para a empresa, não sendo, necessariamente, novo para o mercado/setor de atuação, podendo ter sido desenvolvida pela empresa ou por outra empresa/instituição” (IBGE/PINTEC, 2010, p. 18). Avança ao especificar produto novo como o que possui “características fundamentais (especificações técnicas, componentes e materiais, softwares incorporados, user friendliness, funções ou usos pretendidos) diferentes dos anteriormente produzidos pela empresa, excluindo mudanças puramente estéticas ou de estilo” (IBGE/PINTEC, 2010, p. 18). Diferencia-se dos estudos anteriores por estender seu entendimento às inovações administrativas, diferenciadas em mercadológicas e organizacionais e por pesquisar tanto critérios técnicos como de mercado, embora não os utilize para classificar as inovações. Inovações radicais e incrementais foram também diferenciadas em termos de exigências para serem geradas nas organizações: inovações incrementais “dependem essencialmente dos seus conhecimentos internos e ações coordenadas de diferentes partes e funções para inovar” (PABLO et al., 2007 apud DAMANPOUR; WALKER; AVELLANEDA, 2009, p. 656), enquanto “inovações radicais exigem mais o recurso conhecimento externo e a recombinação de informações mais especializadas para inovar, exigindo maior capacidade absortiva organizacional.” (DAMANPOUR; WALKER; AVELLANEDA, 2009, p. 657).

O desenvolvimento de inovações radicais ou de inovações incrementais implicam em distintos custos e riscos. Darroch e McNaughton (2002) ressaltam que inovações radicais são

empurradas ao mercado por serem desenvolvidas internamente por avanços da ciência, pesquisa e desenvolvimento (P&D) sem foco no mercado; enquanto as incrementais são desenvolvidas com base nos desejos dos clientes. Assim, as radicais são mais caras para desenvolver e correm maior risco de não aceitação pelo mercado, enquanto as incrementais possuem menor risco por serem baseadas nos consumidores e menor custo por serem aperfeiçoamento ou mudança marginal de algo existente.

Esclarecidas as tipologias da inovação e a diversidade de classificações adicionais, seguem características e relações entre inovações tecnológicas e administrativas.