No campo da teoria organizacional a teoria das capacidades dinâmicas é influenciada pela teoria de sistemas sociotécnicos e pela teoria contingencial, pois visa atender a novas condições de mercado: “o dinamismo do mercado molda o padrão de capacidades dinâmicas e influencia as escolhas estratégicas entre a exploração e o aproveitamento do conhecimento, juntamente com as escolhas entre o conhecimento interno e externo” (EASTERBY-SMITH; PRIETO, 2008, p. 244).
O entendimento de sistemas abertos partiu da Teoria Geral de Sistemas elaborada por Bertalanfy na década de 1950, cujos princípios gerais se mostraram aplicáveis a todas as ciências. Sistema foi definido como um conjunto de elementos independentes que interagem para atingir um objetivo. Tais elementos e suas relações determinam como o sistema trabalha, e sua configuração define a forma como seus elementos estão organizados ou arranjados. Segundo o autor, sistemas podem ser físicos (tangíveis) ou abstratos (intangíveis), simples (poucos elementos com relação entre si simples e direta) ou complexos (muitos elementos inter-relacionados de forma complexa e indireta), abertos (interagem com o ambiente externo) ou fechados, estáveis (mudanças no ambiente provocam poucas mudanças nos sistemas) ou dinâmicos (mudanças ambientais mudam significativamente os sistemas), adaptáveis (mudam de acordo com o ambiente) ou não adaptáveis (não acompanham as mudanças ambientais), permanentes ou temporários.
Esta teoria apresenta como premissas: sistemas existem dentro de sistemas, são abertos e estão em permanente intercâmbio com outros sistemas. Os elementos da estrutura de um sistema lhe fornece condições de atuar, suas relações fazem parte de si, são conjuntos de partes com funções individuais que interdependem da ação comum. Uma alteração em uma das partes certamente resultará em alterações em outros componentes. Todo sistema tende à morte, pelo desgaste de seus elementos (entropia). A área de estudos organizacionais a adotou, originando a teoria sistêmica das organizações.
A Teoria Sistêmica de Katz e Kahn considera as organizações sistemas sociais abertos que importam insumos do ambiente, os processam e exportam ao ambiente os bens produzidos, recebendo feedback para se manterem em funcionamento e em equilíbrio por meio de intervenções. Sua analogia com organismos vivos se encontra na possibilidade de crescimento, de se tornar mais complexas à medida que crescem, de exigirem crescente
interdependência de suas partes à medida que crescem e por haver crescente integração acompanhada de crescente heterogeneidade.
Considera que organizações possuem comportamento probabilístico e não determinístico, seus subsistemas interdependentes, capacidade de crescer, se expandir e se desenvolver por meio do intercâmbio dinâmico e da adaptabilidade ao ambiente. Pode conciliar dois processos opostos e necessários à sua sobrevivência: permanecer estática ou em equilíbrio, mantendo seu status quo interno (homeostasia), e mudar para conseguir um novo e diferente estado de equilíbrio com o ambiente externo (adaptabilidade), cujos efeitos podem ser sinérgicos: o todo ser maior que a soma das partes.
Seu surgimento contrariou o modelo racional de Taylor e Fayol, que considerava a organização um sistema fechado e determinístico, e seguia o imperativo tecnológico, provocando um impasse dissolvido pela teoria dos sistemas sociotécnicos.
Diante destas diferentes e quase excludentes concepções sobre determinantes da produtividade das organizações: a teoria clássica com sua ênfase no sistema técnico/ tecnológico versus a teoria sistêmica enfatizando o sistema social, estudos empíricos revelaram que se consideradas um único sistema, o tornava efetivo por atender aos requisitos dos sistemas sociais e técnicos, originando a corrente sociotécnica (TRIST; EMERY, 1967). A teoria dos sistemas sociotécnicos classifica as empresas como sistemas abertos, cujo objetivo é obter o melhor ajuste ou otimização entre os sistemas social e técnico. Considera que a organização possui capacidade de autoregulação e pode alcançar um mesmo objetivo por diferentes caminhos e utilizando diferentes recursos (TRIST; EMERY, 1967).
O sistema técnico compreende a maneira pela qual a organização transforma entradas em saídas, em termos de competências e conhecimentos exigidos (técnicas, métodos, ferramentas, configurações, ambiente de trabalho, procedimentos, normas operacionais) pelo tipo de equipamento, estruturas físicas e matéria-prima. É responsável pela eficiência potencial. Por outro lado, o sistema social são as pessoas (valores, educação/qualificação, necessidades) e suas relações sociais, ligadas à cultura e à sociedade as quais pertencem. Transforma a eficiência potencial em eficiência real (PASMORE,1988 apud LANNES, 1999).
O sistema técnico impõe restrições ao social por moldar e exigir adaptação das ações das pessoas: “O nível de variedade, desafio, retroalimentação, controle, tomada de decisão e integração provido para os membros do sistema social é uma função da maneira pela qual a tecnologia está arranjada” (PASMORE et al., 1982, p. 1184 apud LANNES, 1999).
Estes sistemas são inter-relacionados, interdependentes e se influenciam mutuamente, e, portanto, organização eficiente é a que considera importações dos ambientes de ambos. Isto implica que não podem ser pensadas de forma independente, pois toda modificação de um elemento reflete em todo o sistema.
Esta abordagem substituiu princípios da Escola Clássica como especialização, individualização, separação entre controle e execução pelos princípios de aprendizagem, autonomia, iniciativa, flexibilidade e envolvimento dos trabalhadores (FERREIRA, 2001). Revelou uma “filosofia organizacional cuja tendência era desenvolver habilidades ou conhecimentos múltiplos no indivíduo e aumentar imensamente o repertório de respostas do grupo” (EMERY, 1997). Propôs o estudo das interações nos níveis individual, de grupos de trabalho, de unidades de vários níveis de gestão, e da empresa como um todo. Possibilitou uma visão de fato sistêmica das organizações e mais realista de como os sistemas técnico e social podem influenciar e atuar no seu ambiente, visando intervenções centradas no desenvolvimento e na mudança organizacional.
O sistema tecnológico funciona como uma das condições limitativas determinantes do sistema social da empresa e tem um papel intermediário entre os fins de uma empresa e o seu ambiente exterior […] a componente tecnológica não somente estabelece os limites nos quais se pode agir, mas também, pelo processo de adaptação, cria as necessidades que devem ser tomadas considerando a organização interna e os objetivos da empresa (EMERY, 1963).
Seu entendimento de que existem formas variadas de ajustamento do sistema social em relação às contingências do sistema técnico foi confirmado e complementado pela teoria contingencial.
De acordo com os seguintes autores, Chiavenato (2007) certificou que a teoria contingencial surgiu da contribuição de pesquisas que revelaram que: a tecnologia adotada pela empresa determina sua estrutura e seu comportamento (WOODWARD, 1958); o ambiente determina a estrutura e o funcionamento das organizações, sendo a forma mecânica mais apropriada para condições ambientais estáveis e a forma orgânica mais adequada a ambientes onde predominam as mudanças e a inovação (BURNS; STALKER, 1961); a estrutura organizacional é determinada por planos globais (estratégias) de alocação de recursos para atender as demandas do ambiente (CHANDLER, 1962); e que os problemas organizacionais básicos são a diferenciação e a integração, exigindo esforços convergentes e unificados para
que áreas especializadas possam atingir objetivos globais (estratégias) (LAWRENCE; LORSCH, 1972).
A abordagem contingencial salienta que a estrutura e o funcionamento de uma organização são dependentes da sua interface com o ambiente externo. Consequentemente, não se atinge a eficácia seguindo um modelo único e exclusivo, ou seja, não há uma única melhor maneira de se organizar. Tudo depende das características ambientais e tecnológicas relevantes para cada organização, indicando o ambiente e a tecnologia como variáveis produtoras de maior impacto sobre a organização (CHIAVENATO, 2007) para atingir os objetivos estratégicos. Conhecidas a origem e as influências teóricas das capacidades dinâmicas, o próximo item aborda sua composição, antecedentes e consequências.
2.3 Componentes das Capacidades Dinâmicas: Capacidades Absortiva, Adaptativa, De