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Herdeiros do século XIX, os sertanejos do Contestado não viam a República com bons olhos. Os positivistas do Rio de Janeiro esqueceram de consultar as grandes massas espalhadas pelo território nacional se preferiam o regime republicano. Além disso, a monarquia estava ligada à religião. O próprio messianismo era a afirmação de um rei, de um regime monárquico. Destarte, o jagunço Contestado tinha como meta o estabelecimento de uma monarquia sobrenatural na terra, um reino místico de José Maria. A conseqüência inevitável é que percebiam a República como um regime diabólico, que deveria ser exterminado. Ainda sobre isso, é importante considerar a influência social na opção monárquica. Para os cangaceiros dos monges, a República significa o regime que apoiava os coronéis que os haviam expulsado e preteridos na posse da terra. A monarquia trazia aos “nunca incluídos” a lembrança de uma época quando ninguém os incomodava na vida simples do campo.

No período no qual os redutos foram constituídos, a idéia monárquica foi ainda mais fortalecida. Certamente, a intenção era fazer da autoridade espiritual, a temporal, isto é, caracterizar a liderança humana com o poder sobrenatural e a orientação do Santo guerreiro. Chico ventura, em carta, afirma sobre o reduto de Caraguatá, que ali não era lugar para os que temiam a morte, pois estavam cumprindo as ordens do “rei José Maria”. Qualquer ataque seria rechaçado, pois confiavam em Deus que havia de livrá-los. Explica

que o motivo da aglomeração era a formação de uma irmandade que tinha como único objetivo obedecer à “santa religião”. Portanto, as únicas ordens que obedeciam eram aquelas encontradas na “lei do governo do céu”. A “lei que Deus deixou no mundo” era a monarquia. Esta era a singular forma de governo celestial (VINHAS DE QUEIROZ, 1981, pp. 138, 139). Quando vemos tal afirmação, devemos entender que a sacralização da monarquia não era fruto de uma regra fanática, um princípio estabelecido por alguém, mas que era a forma de governo conhecida, avalizada pelo catolicismo rústico que sempre praticaram. Nas Escrituras cristãs, o único regime de governo encontrado é a monarquia. Além disso, esta também é o claro pressuposto da teocracia pretendida. É curioso que a democracia, conforme entendida hoje, também foi fruto de religião, especialmente dos protestantes americanos. Embora os princípios republicanos remontem à teoria de Platão e à prática de Marco Aurélio, foram o pensamento e forma de governo protestantes que influenciaram diretamente o modelo democrático americano, que se tornou um tipo de padrão para o mundo. Eram religiões extremamente democráticas, que tinham como centro forte senso igualitário. Isto também explica o seu rápido florescimento na antiga colônia inglesa (HATCH, 1989, pp. 3-11).

Embora não seja sempre esse o resultado, percebemos um possível papel da religião: o estabelecimento de uma forma de governo oposta à opressora. Antes de migrarem (fugirem) da Inglaterra para os Estados Unidos, os protestantes puritanos haviam vivido o chamado Interregno, um período quando o país ficou sem rei, tendo como governo o parlamentarismo puro. Oliver Cromwell foi o primeiro ministro. Portanto, a forma de governo estabelecida foi diametralmente oposta ao governo de um só. Agora, era um número considerável de pessoas que governava a nação, sem o absolutismo de um monarca. Embora no estabelecimento da “Nova Inglaterra”, os puritanos perseguidos pela monarquia britânica, ainda estivessem sob seu domínio, buscaram, posteriormente, a “liberdade”. Esta passou a ser a “virtude das virtudes”, idolatrada na ilustre estátua da mais famosa dama, doada pelos franceses no estabelecimento do governo republicano, em linha com as tendências mundiais da época, iluministas e anti-absolutistas. No Contestado, vemos o mesmo fenômeno, mas na contra-mão do que aconteceu na Inglaterra e nos Estados Unidos. Sacralizaram a monarquia, exatamente o oposto da forma de governo que foi estabelecida no Brasil. Tal fenômeno parece demonstrar que a forma de governo não é o principal, mas os princípios fundantes que o regem, real garantia da concretização dos anseios de um povo.

Provavelmente, a opção monárquica não é ideológica, mas prática. Os sertanejos não pretendiam o estabelecimento de uma monarquia, por considerar que tal forma de governo fosse superior à República, mas pelo simples fato de que, no passado recente deles, quando ainda imperava a monarquia, eles vivam tranqüilos no sertão, realidade

transtornada pelos vários interesses da República. Conforme se expressa Maurício Vinhas de Queiroz, o sertanejo deu uma resposta mística contrária à República, um regime que apoiava os coronéis e os interesses estrangeiros, em detrimento do habitante da terra (VINHAS DE QUEIROZ, 1981, p. 139). O conceito de monarquia que tinham, portanto, era pragmático: para eles, ela havia funcionado melhor. Uma vez que a república foi o regime que trouxe o mal físico e material, nas constantes privações a que foram submetidos, quando a Santa Religião foi finalmente firmada, tal sistema de governo logo foi identificado como sendo do diabo, diferente da monarquia, que, para eles, passou a ser o governo do céu. É possível enxergar uma nuance interessante, comparando o estabelecimento do protestantismo americano com o Contestado brasileiro. Max Weber, afirma que o capitalismo foi incrivelmente incentivado pela secularização da ética do trabalho, conforme concebida originalmente pelos protestantes, especialmente, os calvinistas. O trabalho era visto como sagrado, feito para a “glória de Deus”. Assim, as primeiras gerações, embora acumulando muitos bens pela dedicação no trabalho, viviam de forma não opulenta, aplicando parte dos recursos que possuíam em obras religiosas e de assistência. Todavia, as novas gerações foram se secularizando, abandonando os princípios religiosos originais, porém, preservando o mesmo empenho no trabalho. Assim, o acúmulo de riquezas sem a contrapartida da humildade religiosa, gerou a ganância e a ostentação (WEBER, 1999, pp. 123-125).

Aparentemente, a organização e a prosperidade americanas deram base para o colono se estabelecer e se “esquecer” de Deus, enquanto no Contestado, a desorganização geral e o caos social levaram o sertanejo na direção exatamente oposta: viu no sagrado a sua única esperança. Nisso se percebe que o grande clamor não era por um reinado espiritual, mas um reino terreno, garantido pelo sobrenatural. Para o campesino dos redutos, a monarquia não significava um retorno ao passado, mas o estabelecimento do reino da lei de José Maria, futuro e superior mesmo à experiência monárquica passada (VINHAS DE QUEIROZ, 1981, p. 140). Portanto, devemos compreender que não era a intenção do movimento, em nenhuma medida, entronizar o descendente do imperador destituído no Brasil ou criar nova dinastia. Com “monarquia”, idealizavam a sociedade terrena e perfeita, garantida pelo sobrenatural. A idéia da monarquia encontrava, ainda, forte apoio na mentalidade popular. Como vimos, a popularidade da obra “A História de Carlos Magno e os Doze Pares de França”, que destacava as idéias abraçadas no movimento, tais como o reinado, a nobreza, a valentia, a fidelidade religiosa, a castidade, etc, exaltava esse regime de governo como sendo superior e o único relacionado a Deus. Além disso, as festas do Divino e do São Bom-Jesus, que incluíam a coroação simbólica de alguém, contribuíam para preservar na memória popular idéias e conceitos monárquicos (VINHAS DE QUEIROZ, 1981, p. 141).