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7.2.5 Configuration
O uso da violência pela igreja remonta a Agostinho, em sua controvérsia donatista. Donato foi um bispo sismático de Cartago (313 – 347), que liderou berberes e sem-terras contra as elites católicas. Os donatistas enfatizavam, sustentados pelo pensamento de Tertuliano e Cipriano, o papel substancial do sacerdote ao oficiar os sacramentos, não apenas instrumental, como defendiam Agostinho e o catolicismo em geral. Muito apegados às Escrituras cristãs, não toleravam aqueles padres que, por causa de perseguição, ofereceram libações ao imperador ou entregaram Bíblias para serem queimadas. Chamavam-nos de hereges ou traditores. Acreditavam que os tais só poderiam reassumir suas funções se fossem rebatizados. A oposição dos donatistas não se limitou à controvérsia, mas se materializou em violência (MARKUS, 1999, pp. 284-287; WALTER, 1988, pp. 493, 494). Foi neste contexto que Agostinho admitiu o uso da força para proteção da igreja. Lançadas as bases para a repressão, a igreja pôde valer-se de exércitos seculares, o que se viu posteriormente, de forma especial, no advento das cruzadas, no intento de libertar a Terra Santa. Para garantir que continuariam em poder cristão, ordens militares foram criadas, como os templários e hospitalários (READ, 2001, p. 119). Até mesmo exércitos papais foram, também, constituídos. Cabe ressaltar que conflitos religiosos se perpetuaram até os nossos dias, como são os casos do IRA (Irish Republicam Army), na guerra entre católicos e protestantes que divide a Irlanda, e os inúmeros conflitos dentro, do cada vez mais, faccionado islamismo. Além disso, há a “eterna” disputa por Jerusalém, entre maometanos e judeus. Portanto, historicamente, a religião foi causa e meio de muitas guerras e conflitos, verdadeiro estímulo para a violência.
Quando examinamos o Contestado, percebemos que o advento do monge militar José Maria é a tentativa de perpetrar uma revolução social. O papel do coronel, marcado pela lealdade de homens que deviam executar cegamente as suas ordens como obediência a um chefe de guerra (VINHAS DE QUEIROZ, 1981, p. 44), é espiritualizado e assumido por José Maria, transformando-se em esperança messiânica e escatológica. O poder de coerção social exercido pelos fazendeiros sobre o homem simples é substituído pela liderança religiosa do monge. Pela fé no messias do Contestado, a terra pretendida passa a ser a “terra prometida”, isto é, a terra garantida através da esperança escatológica. Radicam-se e radicalizam-se na nova fé. O encontro com o Frei Neuhaus, quando de sua tentativa de evitar o confronto iminente em Taquaruçu, mostra que, nesta fase do movimento, a religião Contestada passou a se opor ferozmente aos representantes da religião tradicional. O prestígio religioso de Manoel já lhe conferia, à época, poder absoluto no reduto. Diante da ameaça, o respeito religioso transforma-se em liderança militar. Trata o
Frei Rogério da forma desrespeitosa e ofensiva, chamando-o de “corvo” e de “cachorro”. Explica que respeita os padres de bem, mas que tal reconhecimento não cabia a ele, acusando-o de ladrão de dinheiro e freqüentador de baile. Houve quem afirmasse que os padres não tinham mais valor para eles (VINHAS DE QUEIROZ, 1981, p. 118).
Certamente, o que vemos aqui é uma “guerra de prestígio”. Por um lado, o frei faz uso de sua aura religiosa oficial tentando subjugar os sertanejos à obediência da religião tradicional. Por outro lado, Manoel percebe nisso uma intromissão e uma ameaça ao poder que havia conquistado pela religião. Não estava disposto a deixar o padre reconquistar admiração entre os adeptos do reduto. A estratégia de difamação é arma bastante eficaz nestes casos. Diante da consternação do sacerdote romano, Euzébio proclama a liberdade do novo século, com a espada em riste (VINHAS DE QUEIROZ, 1981, p. 119). Esse “Ipiranga Contestado”, mostra o grito de independência de um povo que não mais queria estar subjugado aos ditames de governantes federais que nunca haviam pisado naquelas terras. Para eles, o padre estava ali associado à República, enquanto o grito de liberdade ecoava a monarquia que havia sido recentemente extinta. A referência a um novo século, possivelmente, evoque a noção milenarista de um mundo novo, ou, no mínimo, a iminência dele. É possível que na mente de Manoel estivesse mais a figura de um império do que de um reino. O primeiro pressupõe conquista, enquanto o segundo se tem por direito. Aparentemente, em Manoel, assim como veremos depois em Adeodato, “embriagados” com o poder que detinham, tendiam a exagerar as atitudes, usurpando a “liderança” mística dos monges. A idéia da conquista é, em si mesma, agressiva, estimulando a violência. A monarquia, quer despótica ou não, promove o militarismo. Diferente do regime republicano, onde o governante depende do voto, no absolutismo o monarca é garantido pelo seu exército. Não raro, o rei ou imperador acompanha seus soldados às batalhas. Por esta argumentação, quando foi formulada a idéia de “reino”, a idéia de um exército parece necessária. Logo se elegeu São Sebastião ou São Jorge como o grande general. Quando o militarismo religioso assume papel de “polícia”, torna-se inquisição. No próximo capítulo veremos como isso afetou o Contestado.
O militarismo religioso no Contestado está presente até nas roupas que trajavam. Os homens vestiam uma espécie de “fardamento”, chapéu de pano adornado de fitas brancas e cabelo cortado tipo “escovinha” (ESPIG, 2008, p. 101). Outro elemento interessante da religiosidade Contestada desta fase é a utilização de tambor para convocar o povo para a “forma”. Tratava-se de um velho tambor de pele de carneiro. Embora esta cerimônia tivesse um pano de fundo “militar”, não devemos nos esquecer que, tanto para negros quando para índios, era um instrumento ritual. A utilização do tambor soa como a convocação para uma guerra santa, jungindo o religioso ao militar. Em Taquaruçu continuava o fanatismo. Quando a noite começava a chegar, olhavam freneticamente para as nuvens e viam castelos, torres,
igrejas e, ainda, o exército de São Jorge e São Sebastião. Alguém que nada visse era repreendido por não ter fé. Havia uma hierarquia militar espiritualizada. Não se tratava de ser mero “oficial”, mas um líder apoiado pelo sagrado. Alexandre de Souza, o Xandoca, por exemplo, era “intendente de São Sebastião” (VINHAS DE QUEIROZ, 1981, pp. 129, 138). A existência de uma “tropa de elite”, os Doze Pares de França, também comprova a união do religioso ao militar, na mentalidade Contestada. Eram vinte e quatro combatentes escolhidos a dedo, entre os mais capazes e mais corajosos. No romance carolíngio, eram doze homens contados em pares. Todavia, na mentalidade do sertanejo era questão de matemática, não de organização. Havia real espiritualização dos tais cavaleiros no movimento. Também conhecidos por “apóstolos de São Sebastião”, eram ponto de intersecção entre a tradição carolíngia e o catolicismo rústico do sertão catarinense. Como guerreiros revestidos de armadura espiritual, tinham como armas não apenas os facões e as garruchas, mas, também, suas rezas. Como eram os mais hábeis no combate corpo-a-corpo, eram os que acumulavam o maior número de mortes de “peludos”. Possivelmente, isso, na concepção dos adeptos em geral, era evidência contundente que as rezas deles tinham maior poder (ESPIG, 2008, p. 102). Em Caraguatá, o sertanejo utilizou tática de guerra índia. Como o único meio de se chegar ao reduto era através de um mato alto, cheio de “unhas de gato”, os caboclos “prepararam” picadas para que os soldados passassem, atraindo-os, assim, para uma emboscada. Segundo o depoimento de Eduardo Honorato, tal estratégia era utilizada pelos “bugres” (FELIPPE, 1995, p. 155).
Ainda associado ao militarismo religioso, havia no Contestado os “bombeiros”, a “agência de inteligência” da Guerra Santa. Era um grupo de sertanejos, adeptos do movimento, que se infiltravam nas comunidades vizinhas, até mesmo, em destacamentos do Exército enviados contra os redutos, responsáveis por informar os planos e a movimentação do inimigo. Provavelmente, foi um destes bombeiros que, recrutado localmente para lutar contra Taquaruçú, “acidentalmente” assustou o animal que puxava a carroça que carregava a metralhadora do General Gualberto, mergulhando-a no riacho poucas horas antes do início da refrega. Foram muito atuantes durante toda a Guerra. Sua mera existência já beneficiava os revoltosos, pois gerava desconfiança no exército para com a população local, dificultando o levantamento de informações (MOURA, 2003, p. 52).