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Precision farming: An Option for Improving Land and Labor Productivity in the Sudano-Sahelian

A religião tem se constituído como um espaço privilegiado de experiência que é qualificada por Rodolf Otto (2005:37-38) de “experiência do sagrado” e por Joachim Wach (1986:15) de “experiência social do sagrado”. A experiência religiosa, segundo Aldo Natale Terrin (2003:93), tem um caráter misterioso e se dá num momento “supra-racional” ou “irracional” e quem a vivencia, geralmente, se entrega ao mistério. De acordo com Edênio Valle (1998:17), qualquer lugar e qualquer objeto do cotidiano poderão se revestir de um caráter hierofânico e ser “revelador do sagrado”. Talvez seja por isso que Wach (1962:55-57) declara que o sagrado da experiência não é algo imaginário ou hipotético, mas alguma coisa que, por se fazer presente, é absolutamente real. Nesse sentido, a experiência religiosa se torna um

elemento vital para se interpretar as crenças, a identidade religiosa e os fatos sociais que ocorrem na vida de um indivíduo, igreja ou religião. A experiência religiosa, qualquer que seja ela, consiste na percepção de uma realidade “misteriosa”, que é distinta e superior ao próprio ser humano e que se atribui sentido existencial.

As experiências religiosas do pastor José Rego do Nascimento foram determinantes para redimensionar e resignificar, num primeiro momento, sua vida religiosa ministério e, num segundo, influência carismática entre os batistas mineiros. As experiências religiosas de Nascimento foram marcantes e serviram de estrutura simbólico-religiosa para lhe deram “distinção” e “iconicidade” no meio batista. As primeiras experiências religiosas de Nascimento aconteceram na Paraíba, estado onde nasceu, na cidade de João Pessoa, na Segunda Igreja Batista. Nascimento, aos oito anos de idade, começou a receber a formação evangélica e já havia iniciado o processo de catequização, o que o tornaria, segundo Xavier (1997:42) um “fiel” batista por fé e convicção.

Tal fato mostra a força do movimento batista. Ora, Nascimento, aos oito anos de idade, já demonstrava certa sensibilidade para as “coisas espirituais” ou da religião. Nessa fase da vida, segundo Xavier (1997:42), Nascimento sentia que “Deus” o conduziria pelo caminho do “poder espiritual”. Todavia, o processo de doutrinamento só se realiza efetivamente quando a catequese atinge o nível da disposição sentimental, ou seja, quando se enraíza nos sentimentos, sensações e emoção. Supostamente a ordenação dos sentimentos religiosos fez uma diferença substancial na vida de Nascimento, especialmente na vida religiosa e nas experiências de êxtase. É por isso que Bastide (1990:30) declara: a religião é, antes de tudo, sentimento e este é coisa individual.

Como a ênfase está no sentimento desenvolvido por Nascimento e naquilo que Deus iria fazer – “conduzir pelo caminho do poder espiritual” – há, na primeira experiência religiosa de Nascimento, dois importantes elementos, que são a fé e a convicção. Esses dois elementos reforçam a ideia de que a religião batista, naquele contexto, já apresentava sua força doutrinária. Nesse aspecto, o sentimento de Nascimento era, na verdade, uma forma encontrada de afirmar sua qualificação para realizar o que “Deus” desejava e também para confirmar o que ele próprio estava intencionado.

A imaginação sociológica permite ver que, por de trás do sentimento de Nascimento, havia uma “teodiceia” que se fundamentava na ideia de um “ser pessoal” e “poderoso” que

conduziria sua história e também a de todos os outros homens. No entanto, a “teodiceia” de Nascimento estava enraizada em uma “sociodiceia” para usar a linguagem de Bourdieu (2005:49). Essa “teodiceia” levou Nascimento a buscar experiências pessoais e grupais para justificar a sua “vocação”, posicionamento e sua vivência religiosa nas fases posteriores de sua vida. Diante disso, as experiências religiosas que Nascimento teve podem ser pensadas para a consolidação de um tipo de líder carismático. Nascimento seria, então, guiado não só para aceitar os dogmas do movimento batista, mas para seguir o caminho para onde Deus apontasse. Nas fases posteriores de sua vida, todos os eventos passaram a ser explicados a partir de suas experiências religiosas e também de sua “teodiceia”. Até mesmo a mudança de sua família para o Rio de Janeiro em 1933 foi compreendida por Nascimento como mais uma condução de Deus na sua história de vida.

A segunda experiência de Nascimento, denominada de experiência de “conversão”, ocorreu quando ele tinha 15 anos. Sua “conversão” foi precedida por um processo de evangelização desenvolvido por um seguidor da Igreja Assembleia de Deus, cujo nome é Altamiro. Segundo Xavier (1997, p. 44), “Altamiro evangelizou Rêgo do Nascimento. E o fez com tal poder e unção que, enquanto ele falava, este sentiu seu coração arder”. A evangelização tanto quanto a conversão podem ser explicadas como o primeiro passo de Nascimento na condução pelo caminho do poder espiritual.

A “conversão” de Nascimento deve ser considerada, de fato, a primeira experiência religiosa marcante, pois ela aconteceu em plena adolescência. Trata-se de um fato comum de acordo com os psicólogos da religião. Depois da experiência religiosa, tida como “conversão”, Nascimento teve a segunda experiência religiosa marcante, o “batismo nas águas”. Essa experiência aconteceu na Igreja Batista de Anchieta uma igreja batista tradicional, conforme Tognini e Almeida (2007:88). O batismo nas águas foi uma experiência determinante para

Nascimento, pois, através dessa ordenança, conforme creem os batistas, ele passou a ter uma maior dedicação a Deus.

Nascimento, mesmo sendo evangelizado por um pentecostal, acabou batizando-se numa igreja batista. Todavia, mesmo filiando-se a uma igreja batista, como fiel batizado, Nascimento participava, quase que diariamente, dos cultos realizados pela Igreja Assembleia de Deus, cujo templo ficava próximo à sua casa. A participação de Nascimento, nos cultos de uma igreja pentecostal, no início do século XX, não era algo comum e, possivelmente, tinha a ver

com o evangelista Altamiro e com as doutrinas pentecostais que a igreja ensinava. Segundo Xavier (1997:44), a Igreja Assembleia de Deus atraía em muito a atenção de Nascimento porque nela havia muito entusiasmo e forte ênfase no avivamento. Considerando esses aspectos, o entendimento é o de que a vivência de Nascimento junto à Igreja Assembleia de Deus foi também determinante para a incorporação de uma religiosidade mais emocional e avivada, típica do pentecostalismo clássico.

As influências da Assembleia de Deus, do avivalismo e de uma religiosidade mais emotiva e entusiástica, desde muito cedo, se fizeram notar na vida religiosa de Nascimento. No pentecostalismo daquela época, era comum realizar “cultos de libertação” nas casas dos fiéis, o que garantia espaço a testemunhos de curas, milagres e libertação. Nascimento praticamente não perdia o culto que era realizado na casa de uma vizinha, conforme informa Xavier (1997:44). Com isso, Nascimento sentia-se não só avivado e revigorado espiritualmente, mas também conduzido pelo “poder de Deus”. Certa vez, conforme Xavier, num final de tarde, depois de sair do trabalho, Nascimento teve outra experiência religiosa marcante também num templo da Assembleia de Deus:

“A estação onde ele deveria descer ficava em um plano mais alto que a rua. O trem parou na estação e, dali, José Rego divisou o templo da Assembléia de Deus (...). De onde estava assentado, viu o povo cantando enquanto a banda de música tocava. Os crentes cantavam com muito entusiasmo naquele galpão todo iluminado. Então o espírito derramou água viva dentro de mim. Senti um gozo e uma alegria espiritual extraordinários. Então, eu deduzo que já nasci predestinado a ser um carismático (...) depois vim a entender isso” (Xavier, 1997, p. 44 - 45).

Uma outra experiência mística de Nascimento aconteceu na Bahia, na cidade de Vitória da Conquista, e teve a influência de Appleby e de suas ideias sobre o avivalismo. Trata-se da “experiência do batismo no Espírito Santo”. Sobre essa experiência Xavier (1997) apresenta o fato com uma riqueza de detalhes:

“Rego estava no gabinete. A porta estava fechada. Olhou para sua escrivaninha e sobre ela estava mais um folheto de Dona Rosalee. Este chamava-se ‘Como diversos servos de Deus foram cheios do Espírito Santo’. Ele começou a ler o folheto. Ali dizia que Billy Sunday, sempre que pregava, tinha a Bíblia aberta em Isaías 61, que diz: ‘O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para pregar as boas- novas aos quebrantados, enviou-me a curar os quebrantados do coração, a proclamar libertação aos cativos (...). Então, Rêgo orou: Senhor, eu quero o batismo para isso. Para ser este homem. Peço-te que me batizes. Ele tinha ficado de pé para orar. De repente se viu invadido por um fogo, que lhe entrou pelo peito e produziu nele uma dinamização tal, que ele caiu sentado na cadeira. Ria, Ria e chorava ao mesmo tempo. (...) depois, quando quis andar, quase não conseguia. Parecia que seus ossos doíam” (XAVIER, 1997, p. 54).

Essa experiência mostra que Nascimento acreditava mesmo que Deus o conduzia pelo caminho do “poder espiritual.” Além do sentimento que ele carregava, outro elemento foi acrescentado, que é a ideia de sua “predestinação” ao carismatismo desde quando havia nascido. A ideia de “predestinação” confirmava seu sentimento antigo que o seu caminho e sua história religiosa estavam definidos e traçados por Deus. A dedução que Nascimento faz acerca da “predestinação” reforça a sua adesão à “ideologia do carisma” e do “poder de consagração”, o que, segundo Bourdieu (2005:55), são poderes simbólicos que fazem com que o carismático acredite em seu próprio poder e na força de sua missão carismática. Assim, essa experiência religiosa de Nascimento, devido à sua natureza, foi entendida como mais um “toque do Senhor”.

A experiência do “batismo no Espírito Santo” de Nascimento, conforme apresentada por Xavier, foi uma experiência individualizada do sagrado. Isso não significou que essa experiência tenha ficado restrita a Nascimento, já que ela trouxe conseqüências sociais e religiosas para sua vida, ministério e igreja. Os resultados dessa experiência são assim apresentados por Xavier: “Aparentemente, nada mudou nele. O que ele sabia continuou sabendo; o que ele cria continuou crendo; mas a dedicação, a partir daí, foi bem maior. O ardor era tão grande! Isso se manifestou no crescimento da igreja” (XAVIER, 1997, p. 54). Os grifos são nossos.

Entre todas as experiências religiosas vividas por Nascimento, a que mais se destaca é a experiência ocorrida na biblioteca do Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil (STBSB), no Rio de Janeiro, em 1958. Essa experiência foi tão importante que pode ser qualificada de fundante, pois a partir dela se inicia entre os batistas mineiros uma nova concepção de sagrado e diferentes ideias acerca da forma e da prática religiosa, cujo foco era o êxtase e a visitação poderosa do “Espírito Santo”. O documento que relata detalhadamente a experiência religiosa ocorrida na biblioteca é uma carta de Nascimento encaminhada a Tognini, que inserimos no anexo nº 01, na íntegra.

A experiência de êxtase deve ser considerada como fundamental não só para a reforma de uma religião, mas também para a fundação de uma nova, tal como estava para acontecer no movimento batista. Essa experiência de êxtase foi marcada pela hierofania e como apontado por Eliade (2002:9), algumas hierofanias têm um destino local; outras, por sua vez, adquirem ou têm valores universais. Como a experiência religiosa de Nascimento ocorrida na biblioteca

do Seminário foi tomada pela hierofania, ela teve uma grande abrangência inicial no Rio de Janeiro e Minas Gerais, depois para outros estados, e como tal, pode ser pensada como uma experiência religiosa do sagrado e uma experiência fundacional. Como o sagrado tem uma diversidade de modalidades, conforme Eliade (2002:7-10), geralmente a experiência religiosa quando caracterizada como fundante se respalda numa hierofania.

Em se tratando de experiência religiosa, há a suspeita de que vários indivíduos tiveram experiências hierofânicas semelhantes a de Nascimento. Contudo, somente a experiência de Nascimento é que pode ser qualificada de fundante, devido ao seu impacto no meio batista, desencadeando um cisma pentecostal. Por meio dessa experiência, se iniciou uma reordenação na religiosidade batista, através da implantação da doutrina e de uma prática de teor carismático. Xavier aponta alguns detalhes dessa experiência.

“O Pastor Rego foi convidado pelo Grêmio do Seminário Batista do Sul para pregar na Semana de Renovação, na semana que compreendia os dias 11 a 18 de outubro de 1958. Num desses dias, a pedido dos seminaristas, estudou o tema ‘O Pentecoste se Repete?’ No dia 16, numa sexta-feira à noite, os seminaristas foram visitados pelo

Senhor com grande poder e se renderam diante do Altar. Assim aconteceu:

Naquela noite, o pastor Rego voltava dos trabalhos noturnos de uma igreja na cidade e encontrou alguns seminaristas o esperando. (...) Apesar de estar cansado e com muito calor, foi levado pelos seminaristas para a biblioteca, para uma reunião de oração. Alguns hinos foram cantados, um texto bíblico lido e começaram a orar. Um seminarista orou, depois outro e então um terceiro. Por volta da quarta oração, Deus

derramou o poder. O Espírito veio sobre o grupo e os envolveu. Alguns

seminaristas caíram no chão, outros se inclinaram sobre as mesas...” (XAVIER, 1997, p. 58-59). Os Grifos são nossos.

Essa experiência religiosa de Nascimento no Rio de Janeiro é tida como “incomum”, “fora de série” e, por isso mesmo, denominada de experiência extática, “espiritual” e sobrenatural. Esse tipo de experiência se destaca, em grande medida, nas expressões religiosas pentecostais e carismáticas, pois a ênfase recai na manifestação de êxtase, momento em que o “Espírito Santo” toma posse dos fiéis. Nesse tipo de religião, as experiências religiosas apontam para um “transcendente”, para uma esfera fora do cotidiano e do humano, o que pode ser identificado como da ordem do sagrado. O mundo da religião tem uma importante matriz, que é a experiência do sagrado, logo a experiência religiosa ao fazer parte desse mundo é carregada de mistério “inexplicável”. Ela está presente em todas as religiões e dois sentimentos co-originários e opostos dela fazem parte, que são os sentimentos “tremendum” e “fascinans”, de acordo com Otto (2005:21–59). Nessa perspectiva, a religião deve ser

reconhecida não só por seu aspecto simbólico, mas também pelo aspecto de sacralidade da experiência religiosa.

A experiência de Nascimento no Seminário (STBSB) foi fundante porque ela, além de ser uma experiência intensa, “incomum” e hierofânica, relatada como “uma visitação do Senhor”, serviu, na prática, para afirmar que o “pentecostes” poderia se repetir. Ela pode ser pensada como experiência fundante devido ao espaço e ao lugar em que aconteceu, ou seja, no Seminário, educandário responsável pelo ensinamento da ortodoxia e da tradição batista. Nesse sentido, o Seminário tornou-se um espaço sagrado e, como declara Eliade (2002:40), todo espaço sagrado implica uma hierofania, uma irrupção do sagrado, que tem por resultado tornar esse “território” qualitativamente diferente.

O STBSB, como um espaço acadêmico relevante para os batistas e para sua ortodoxia, possivelmente não era dado às experiências modificadoras da religião. Logo, não era uma instituição afeita à hierofania, pois considerou como uma heresia e uma “aberração” o êxtase ocorrido na sua biblioteca, conforme declaração feita pela direção do seminário em “O Jornal Batista” (nov. 1958:7). Certamente, a ênfase desse educandário era a manutenção das doutrinas batista e da sua tradição. Como a década de 1950 foi um período de alteração do campo religioso e das diferentes religiões que o compõem, o STBSB, sendo um lugar de manutenção e de reprodução da ortodoxia batista, não ficou isento, tornando-se o palco para que Nascimento tivesse sua experiência religiosa fundante. Nesse aspecto, como não existem limites e fronteiras para a experiência religiosa, mesmo a fundante, que, por se assemelhar às experiências pentecostais e carismáticas, também rompia limites e fronteiras doutrinárias e institucionais. Isso evidencia que a interpretação e percepção do sagrado feitas por Nascimento eram “idênticas” e similares à forma pentecostal de fazê-lo.

Aquela experiência religiosa fundante, ocorrida no STBSB, merece destaque em nossa análise porque ela serviu para colocar Nascimento diante de uma religiosidade institucionalizada e “comum” e, ao mesmo tempo, para fazer dele um agente catalisador de uma nova ordem religiosa entre os batistas. Essa experiência religiosa fundante estava relacionada ao avivalismo difundido por Appleby e sintonizada com o que acontecia nos anos de 1950, em outras denominações pertencentes ao protestantismo histórico. O episódio acontecido na biblioteca do Seminário, na verdade, facilitou a introdução de novas concepções acerca do “batismo no Espírito Santo e dos dons espirituais” nas igrejas batistas. Sendo assim, na

particularidade de um sujeito religioso, a experiência religiosa fundante parece ter sido uma antecipação daquilo que os batistas no seu todo poderiam experimentar. De acordo com Valle, essa experiência pode ser interpretada como anterior à sua predicação.

“Numa linguagem mais sofisticada, pode-se dizer que a experiência é anterior à sua predicação. O indivíduo sabe de sua experiência “pré-dicativamente” (Husserl). Essa vivência passa a pertencer-lhe e a ser sentida como parte dele próprio. É em um segundo momento que a experiência se complementa e se totaliza predicativamente” (VALLE, 1998, p. 28).

Devido a natureza antecipadora da experiência religiosa fundante, enfatizamos que ela passou a pertencer ao sujeito que a vivenciara. Nesse sentido, a coisa antecipada eram as experiências extáticas pertinentes ao avivalismo, que, por sua vez, procediam da irrupção de um novo sagrado e que seria experimentado por várias igrejas batistas a partir da experiência fundante. Na verdade, a visita de Nascimento ao Seminário se deu porque ele era o orador oficial da semana de estudos promovida pelo Grêmio Estudantil, conforme Tognini e Almeida (2007:55). Mas, não era só por isso. Ele estava no Rio de Janeiro porque a IBL estava tomando a frente do processo de implantação do avivalismo no movimento batista, e isso, por causa do seu trabalho como pastor da igreja. No dia 16 de outubro, segundo Xavier (1997:58- 59), desafiado pelos seminaristas, Nascimento se propôs a estudar o tema: “O pentecoste se repete?”

“...numa sexta-feira, foi realizada, na sala da biblioteca do Seminário, uma noite de oração, sob a direção de Rego. Cinqüenta seminaristas, quatro visitantes e Rego se reuniram na, então, pequena sala da biblioteca e foram até a madrugada, cantando e orando, mas fazendo tal bulha que se poderia ouvir à distância” (PEREIRA, 1982, p. 255-256).

A reunião de oração promovida na biblioteca do Seminário, estando ou não programada, provocou um alarde no movimento batista, pois nela ocorreu a experiência que se tornou estruturante de uma nova proposta religiosa entre os batistas. Em carta escrita a Tognini15, Nascimento declara que todos os indivíduos que estavam em oração tiveram a experiência do êxtase, culminando numa possessão da divindade, já que o “Espírito caiu sobre a casa, possuindo a muitos”, ou seja, os seminaristas e os visitantes que estavam na biblioteca.

15

A experiência de êxtase ocorrida na biblioteca foi um fenômeno visível a quem participava do encontro. Devido a sua natureza extática, a experiência impactou aqueles que oravam, e eles, segundo Nascimento, “possuídos de grande emoção (...) cantavam num clima de muita alegria e vibração”. Estava aberto, naquela reunião, o espaço para as experiências de êxtase, o que de fato veio a acontecer, conforme narrativa feita em carta por Nascimento: “Em seguida, voltamos a orar. Recomeçou a visitação do Espírito”. Assim, a partir experiência de êxtase e de seu impacto nas pessoas que participavam dela foi inaugurada uma rede de poder e uma nova forma de encarar a fé batista. Sobre o êxtase, esclarece Mendonça:

“Regra geral, o êxtase está ligado à possessão. O indivíduo é possuído pela divindade. Neste estado ele perde sua personalidade e passa a falar e agir como mero instrumento do sobrenatural, seja pelo efeito de técnicas ou de alucinógenos. No primeiro caso, estão o espiritismo e os cultos afro-brasileiros e, no segundo, o já citado Santo Daime. Aproximam-se muito do primeiro caso, também, os cultos pentecostais e os que não tipicamente pentecostais, buscam formas de emotividade intensa” (MENDONÇA, 2008, p. 129).

À luz das concepções que Mendonça apresenta a respeito da possessão, a compreensão que se tem é que a mencionada “possessão do Espírito” naqueles que oravam resultou num clima de emoção e tomada de sua personalidade, inclusive de Nascimento. Por isso, a atmosfera de alegria e vibração típica de experiências religiosas extáticas. Por causa dos resultados práticos à pergunta “O pentecoste se repete?”, a reunião de oração em que aconteceu o êxtase, segundo Xavier (1997:59), ficou famosa. Nascimento, por sua vez, a partir da experiência extática e fundante que se processou, tornou-se objeto de crítica, controle e vigilância por parte dos representantes do movimento batista. A Administração do Seminário e o seu Corpo Docente, por não pactuar com as ideias pentecostais nem com a experiência extática ocorrida, iniciaram o processo de controle e vigilância religiosa. Eles enfatizaram que aquela reunião coordenada