5 Konsekvenser og utfordringer
5.2 Pre vs. post filtrering
E digo ao vento: Vai! Leva de mim a notícia do que sou. E à memória: Vem! Traz até mim a imagem do que fui.123
Os meus pais se casaram, aqui no Brasil, em 1914. Antes de eu nascer, eu já tinha duas irmãs. Nasci em outubro de 1925. Nasci em um hospital entre a Av. Paulista e a Peixoto Gomide, no centro, onde era o atendimento hospitalar. Eu morava na Saúde. Quando nasci morei lá mais ou menos 04 ou 05 anos, mas eu não me recordo como era a vizinhança. Mas a casa era ampla, com quintal e varanda. Havia flores, tudo era muito bonito.124
Embora as famílias dos pais de Helena tenham se conhecido em Portugal, foi no Brasil que se uniram por meio do casamento dos genitores desta depoente, que aconteceu em 1914. Em seu relato, afirma que nasceu em hospital, o que naquele período ainda não era comum, já que a maioria das gestantes era amparada pelas parteiras. O bairro em que viveu os primeiros anos de sua infância era próspero e contava com acesso fácil ao trem, ao comércio de modo geral e à escola. A depoente lembra também que sua casa era ampla, possuindo quintal, varanda e flores.
Depois, os meus pais foram morar em Avanhandava, no interior de São Paulo, onde nasceram os meus dois irmãos últimos, um em agosto de 1930 e outro em outubro de 1932. Depois, voltamos para São Paulo, de novo. Eu tenho a impressão de que eles foram para o interior por causa da Revolução, mais ou menos em 1930, porque São Paulo estava muito ruim. Eu tinha um tio, irmão de papai, que tinha uma fazenda em Avanhandava e convidou o meu pai para ir para lá, e ele foi, quero dizer os meus pais foram. Eu tenho a impressão de que o meu tio ajudou e muito em toda a mudança.125
123
António de Bacelar Carrelhas.
124
Helena, 79 anos, filha de imigrante português. Entrevista realizada pela autora em 23/11/2005.
125
No período entre o nascimento de Helena (1925) e o de seu último irmão (1932), São Paulo e todo o Brasil passaram por tensões políticas e econômicas. Com a quebra da bolsa de Nova York, em 1929, muitos investimentos feitos nas safras de café perderam-se. Em 1930, a Revolução empossou Getúlio Vargas na presidência. Dois anos depois aconteceria, ainda, o contramovimento das oligarquias paulistas, a chamada Revolução de 1932.
Na década de 1930, em outra região, um convite de casamento era enviado pelo noivo aos seus dois irmãos, como se pode observar no seguinte trecho da carta constante também no capítulo II.
Santos, 14 de abril de 1930. Saudações [...] Querido mano com respeito o que me mandas dizer eu vou fazer um esforço de embarcar daqui no primeiro trem no dia 26 para ir assistir o teu casamento agora com isto não te enfado mais aceita muitas lembranças [...] Antonio [...] no domingo com isto nada mais espero te encontrar no dia 26 com os irmãos.
Nesse mesmo período ocorria, em São Paulo, um movimento revolucionário que instalaria o governo de Getúlio Vargas, a Revolução de 1930. Mas foi em 1928 que as propostas políticas das diferentes camadas sociais se definiram, tentando expressar uma direção possível a partir da sua realidade social.126
O governo apresentava o projeto de redefinição da ação do Estado e de reorganização da sociedade. Esta elite propunha a liquidação sistemática de toda a organização do proletariado, incluindo os sindicatos e o seu partido parlamentar, o BOC (Bloco Operário Camponês).
126
Ao afirmar que os movimentos dos “revolucionários” tentavam ocultar a luta entre o capital e o trabalho, Decca127 expõe que a força da burguesia, sabendo neutralizar a democracia por meio da industrialização, mostrava também como uma determinada forma de organização do proletariado poderia conduzir ao seu insucesso político. Conforme afirmava Laite, “O Estado não quer, não reconhece a luta de classes. As leis trabalhistas são leis de harmonia social.”128
Sabendo que seriam prejudicadas com o novo Governo, as oligarquias paulistas promoveram um contramovimento, a Revolução Constitucionalista de 1932. “A classe dominante do Estado mais forte da União não podia aceitar um regime político que punha restrições à sua autonomia, o que redundava em empecilhos ao pleno desenvolvimento de suas riquezas e de seu progresso.”129 Porém, as oligarquias paulistas foram derrotadas. Embora São Paulo tivesse se destacado economicamente, ao reforçar a presença e a participação dos trabalhadores nesse movimento, a elite ameaçada reforçou os seus esquemas de
dominação.130
Clarinha discorre sobre esse período, lembrando-se dos comentários do seu pai acerca da Revolução de 1932: “Quando eu estava para nascer, eles [os pais] estavam escondidos dentro de um porão, por causa das bombas que caíam, uma estourou bem perto assim [...]. Assim, ele comentava [...] por causa da guerra de 32.”131 Portanto, não se pode acreditar que eram poucas as pessoas envolvidas e até ceifadas na revolução.
Viga, por sua vez, menciona que não nasceu em São Paulo, deixando transparecer que o motivo estava relacionado às sucessivas revoluções ocorridas na cidade.
127
Ibidem.
128
LAITE, Márcia de Paula. O movimento grevista no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1987. p.24.
129
CAPELATO, Maria Helena. O movimento de 1932 - a causa paulista. 2ªed. São Paulo: Brasiliense, 1981. p.56-57.
130
Ibidem.
131
Nasci no mês de outubro de 1932, em Avanhandava eu e o mano nasceu em 1930, eu acho que as coisas aqui não estavam boas, por isto o tio Antonio que possuía uma fazenda lá, levou os meus pais para morarem uns tempos com ele.132
Portanto, Viga, assim como as demais depoentes, nasceu no trasncorrer de um período que envolveu revoluções, episódios mundiais e agitações sociais, políticas e econômicas, tanto nacionais como internacionais.
Ao comentar que um dos seus tios participou do Exército Constitucionalista, Clarinha afirma que a ausência dele e a indefinição quanto ao seu paradeiro afligiram a sua família, mesmo que ele afirmasse, antes do engajamento, ser um dever lutar pela constitucionalização do país, sentindo-se orgulhoso por ser paulista.
O meu tio Antônio foi para a guerra, e não adiantou os apelos de sua noiva. Ele dizia que tinha um dever a cumprir. A minha avó o abençoou e ele partiu [...]. Depois de muito tempo, ele retornou, pareceu até um milagre, contavam os mais velhos, quando eu era pequena.133
Contextualizados estes momentos dos nascimentos das depoentes, que ocorrem nessa fase de agitação paulista, bem como o processo de separação entre mãe e filho que partia em defesa de seus valores, passa-se a descrever, segundo as lembranças evidenciadas pela memória individual, como eram as casas e as ruas em que essas mulheres viveram desde a infância até a idade adulta.
Clarinha, sobre a sua primeira moradia, comenta:
A minha casa era simples, modesta mesmo. A porta já dava para a rua, como em todas as casas da rua João Teodoro. Na parte de baixo, havia um porão, onde o meu pai guardava várias ferramentas e outros objetos. Aqui, eu vivi mais ou menos cinco anos. A vizinhança era boa, porque eram todos parentes, tios,
132
Viga, 71 anos, filha de imigrante português. Entrevista realizada pela autora em 22/04/2005.
133
avós, primos, parentes dos meus pais. O bairro era simples, muitas casas, antigas vilas de sobrados e vilas de casas, ao redor da Igreja de Santo Antônio do Pari.134
Ao descrever a sua residência, a depoente acaba falando também sobre a situação sócio-econômica de sua família. Conforme relata, sua casa possuía um porão, que serviu de refúgio durante o período da revolução não só para a sua família, como também para outras. Este tipo de moradia está até hoje presente nos bairros Pari e Brás. São residências simples, mas revelam certo grau de proteção contra estranhos, uma vez que da janelinha do porão pode-se observar o movimento dos transeuntes e dos automóveis.
Depois, mudei para a rua Itaqui. Lá já era diferente, era uma vila, com pequenos cômodos. Na minha casa, tinha um quarto grande, cozinha e uma espécie de sala, mas o banheiro e a lavanderia, como se fala hoje, eram vários tanques e varais onde todas as mulheres se juntavam e cantarolavam, lavando as roupas, enquanto nós brincávamos.135
Na descrição de Clarinha, pode-se perceber que sua segunda moradia se tratava de um cortiço. Provavelmente era um empreendimento especulativo, um negócio, dirigido à população de baixa renda, pertencendo ao tipo de imóveis descrito no segundo capítulo. A depoente comenta também o trabalho das mulheres como lavadeiras e o fato de cantarem ao mesmo tempo em que exerciam esta atividade, enquanto as crianças brincavam.
As mudanças ocorriam devido ao alto preço dos aluguéis. O meu pai recebia pouco, quanto mais distante o bairro, o aluguel era menor, mas também ficávamos mais distante dos familiares. Depois, mudamos para uma casa grande que a tia Glória comprou para o meu pai, com o dinheiro da herança de Portugal, na rua Isaura, no Tucuruvi. Lá havia vários pés de frutas e um campo com copos de leite. Na casa, tinha uma terraça, onde,
134
Clarinha, 72 anos, filha de imigrante português. Entrevista realizada pela autora em 08/01/2005.
135
muitas vezes, o meu pai se sentava ali e ficava a cantar modinhas alegres. Fiquei nesta casa até me casar.136
Ao falar de sua última moradia, Clarinha transmite alegria e emoção. Seu olhar parece se transportar para aquele tempo em que convivia com os seus pais e irmãos menores. A entrevistada demonstra, ainda, que as relações afetivas fraternas ou de amigos a aconchegavam. Conforme comenta, sempre estava tudo bem, mesmo quando alguma dificuldade ocorria:
Para mim, como era criança, era uma alegria só, gostoso passar de um lugar para outro. As crianças eram boas, passava a maior parte do tempo na brincadeira. No último bairro, só tínhamos contato com o pai da minha mãe, o meu avô, porque ali era tudo mato e havia poucos vizinhos, mas mesmo assim era divertido, e qualquer problema o meu avô estava perto.
Com o tempo, se transformou no bairro que é hoje, este movimento de carros, metrô e centros comerciais.137
O último bairro em que residiu antes de se casar foi Tucuruvi, e a chácara do seu avô localizava-se em uma gleba de terras na região norte da cidade, onde se formou o primeiro núcleo residencial daquele território, por onde passavam os trilhos do “trenzinho” da Cantareira. Outro transporte muito utilizado era a carroça, como afirma a tia-avó de Clarinha, Dona Guilhermina:
Para irmos à escola, eu e os meus irmãos, havia um senhor, o seu João, que nos levava junto aos galões de leite, acomodados na carroça, até chegarmos bem próximo à escola, onde descíamos e íamos estudar, a carroça passava por pedras e buracos, nós ríamos. As vezes chegávamos empeoeirados para estudar.138
136
Clarinha, 72 anos, filha de imigrante português. Entrevista realizada pela autora em 08/01/2005.
137
Clarinha, 72 anos, filha de imigrante português. Entrevista realizada pela autora em 08/01/2005.
138
Guilhermina, 82 anos, filha de imigrante português, nascida em São Paulo. Entrevista realizada pela autora em 23/04.2006.
Que outras lembranças Glorinha, Fátima e Viga teriam sobre suas moradias?
Logo após a Constituição de 1934 e durante a sua vigência, o novo regime asseguraria tranqüilidade ao operariado e regulamentaria o seu trabalho, porém extinguiria o seu direito de organizar sindicatos "paralelos", ou seja, não
oficiais.139 Em 1935, muitos “conceitos morais de nossos avós [...] baseados na
ignorância feminina, conservada para evitar esclarecimentos”140, se
erradicariam, promovendo o despertar da mente da mulher.
O fato de se viver em cortiços, durante o período de 1920 a 1940, ou mesmo até os dias atuais, foi e é gerado pela má distribuição de renda, pois o operariado, desde aquela época, trabalha durante muitas horas seguidas, cumprindo longas jornadas, e é recompensado com um salário reduzido. Enquanto isso, a especulação imobiliária e os donos dos meios de produção tiram proveito dos menos favorecidos.
Nasci na rua Itaqui, foi parto normal, com a ajuda da parteira, como era comum naquele tempo. Nasci em casa mesmo, em 1935. Esta rua ficava no Pari.
Fui criada nesse bairro, até os meus 06 ou 07 anos [...]. Na rua Itaqui havia um cortiço, tinha uma preta muito boazinha, eu me lembro o nome dela era Conceição e ajudava muito a gente porque a gente era muito pobre e ninguém queria saber da gente. Eu não tenho vergonha de falar, tenho orgulho, eu catei papel na rua para ajudar os meus pais, toda a vida eu trabalhei para ajudá- los, eu me orgulho tanto... O cortiço era assim, vários sobradinhos como a gente fala hoje, mas era uma sala com cozinha e um quarto grande em cima, o banheiro e o tanque eram comunitários, todas as pessoas usavam, mas havia muita higiene, tudo estava sempre limpinho.141
139
DEAN, Warren. A industrialização de São Paulo. Rio de Janeiro: DIFEL, s/d. p.226-227.
140
CARONE, Edgard. Movimento Operário no Brasil (1877-1944). São Paulo: DIFEL, 1984. p.468- 470.
141
Glorinha conta que nasceu e morou num cortiço, demonstrando em sua fala a importância das relações sociais, afetivas, de amizade e ajuda mútua presentes nessas moradias, bem como a sua situação econômica desfavorável e o seu orgulho de ter tido essas vivências.
As dificuldades se repetiam para os casais com muitos filhos e pouco estudo. Estes trabalhavam muito, e as crianças auxiliavam como podiam. Mas um hábito se manteve desde Portugal, o fato dos tios favorecerem os sobrinhos que os estimavam desde a infância, seja porque fossem solteiros ou porque não haviam gerado filhos. Este hábito era muito comum nas famílias da região norte de Portugal, que eram extensas e com muitos agregados.
Depois, eu fui parar na rua Isaura, no Tucuruvi. A casa ainda existe, era grande com quartos, sala, cozinha, banheiro dentro, lá fora ficava o tanque e o varal, havia muito quintal para eu e os meus irmãos brincarmos. Eu sei da história assim, a minha madrinha, que era muito rica, comprou um terreno para cada sobrinho, e o do meu pai já tinha a casinha, e não saímos mais dela. Então, pode-se dizer que eu fui criada lá, eu e os meus doze irmãos, somos quatro mulheres e oito homens. Eu não sei dizer a diferença de idade entre a gente. Mais tarde o meu companheiro comprou um sobrado pra mim, no Tucuruvi mesmo.142
A descrição da residência revela condições melhores de acomodação para a família extensa. Este depoimento contempla o hábito descrito anteriormente das tias solteiras ou sem filhos auxiliarem os sobrinhos com a herança recebida da terra natal.
As vilas, presentes ainda nos dias de hoje, já apresentavam casas individuais e alguns sobrados com banheiros internos, perdendo a característica de uso comunitário. Os cortiços e as vilas, portanto, marcaram presença em São Paulo, sendo que os primeiros constituíam solução comum para os trabalhadores pobres, além da moradia alugada.
142
Em São Paulo não havia favelas. O que predominou para a moradia de gente pobre foi sempre, em São Paulo, o cortiço. Algum terreno de centro de quarteirão, com pequenas habitações contíguas, com saída para a via pública por um corredor a céu aberto, entre muros. Ou então os porões habitados.143
Em função de suas condições financeiras, os trabalhadores tinham que deixar as moradias, as ruas e os bairros onde haviam sido acolhidos pelos parentes ou amigos. Muitas vezes, as mudanças envolviam profundas rupturas no meio afetivo e familiar, como comenta Clarinha, sugerindo a perda da identidade que se construía: “Ocorriam mudanças, por problemas financeiros, aluguel alto. O meu pai recebia pouco, quanto mais distante o bairro, o aluguel
era menor, mas também ficamos mais distantes dos familiares.”144
As mudanças políticas e econômicas que caracterizavam o país, na prática, acabavam contribuindo para o distanciamento dos parentes da comunidade lusitana inicial e facilitando a formação de núcleos familiares. Afastava-os, assim, de seus antigos hábitos e maneiras de falar, agir e cozinhar.
Fátima, de certa forma, partilha deste mesmo sentimento de perda, como expõe:
Eu nasci em casa, na rua Isaura, no bairro do Tucuruvi, em 1943. Eu morei nessa casa durante dezessete anos. A casa tinha uma varanda enorme onde ficávamos sentados, conversando. Era simples, tinha quartos, sala, uma cozinha grande e banheiro. A minha vizinhança era ótima, excelente, principalmente por causa dos pés de plantas, das árvores. A minha mãe, quando ia chamar alguém primeiro, ela olhava para as árvores porque sempre estávamos lá em cima nas copas, brincando. Depois, mudamos [...].
Assim, pode-se afirmar que o sentimento de pertencimento estava presente nos hábitos, nas moradias e nas relações pessoais de cada um dos lusitanos.
143
AMERICANO, Jorge. São Paulo, Nesse Tempo (1915-1935). São Paulo: Melhoramentos, 1962.
144
[...] mudamos para a rua Marechal Hermes da Fonseca, em Santana. Infelizmente, o meu pai precisou vender a casa onde eu nasci, por questões financeiras. Foi difícil me acostumar, mas só morei lá praticamente dois anos. Dela não saberia falar nada, porque me casei e voltei a morar em Tucuruvi, porque as minhas raízes estavam lá, eu creio.145
As depoentes, em muitas de suas reminiscências, sugerem que as freqüentes mudanças de ruas, bairros e empregos se apresentavam como um fugir constante, na tentativa de escapar da fome, dos aluguéis altos e da miséria. Em contrapartida, para as crianças, essa mudança era apenas mais uma alteração de local e de moradia, o que trazia a oportunidade de fazer novos amigos e de refazer-se nesse novo lugar, enquanto para os jovens tornava-se cada vez mais difícil desapegar-se da casa, da rua e do bairro.
O tempo da fuga está sempre conectado com a proteção e com o acolhimento dos pais. Então, está tudo resolvido neste amparo afetivo e forte, podendo-se continuar a fugir, já que em casa há alguém para quem voltar, alguém que está a esperar.146
Quando eu vim de Avanhandava, com mais ou menos quatro meses, nós viemos para o bairro do Chora Menino, depois para o Tucuruvi, onde vivi até me casar.
Do Chora Menino e a da rua Mambucá, não me recordo, talvez porque era criança demais, mais da casa que meu pai construiu eu me lembro, foi na rua Ismael Nei, no Tucuruvi, tinha um quintal amplo onde os meus pais cultivavam morango, hortaliças, árvores frutíferas, principalmente figo, havia muitas flores na parte da frente da casa. A casa possuía dois quartos amplos, sala, cozinha, banheiro, uma varanda que cobria toda a parte lateral da entrada para a sala, em baixo o meu pai havia construído um tonel, onde fabricava o seu próprio vinho, haviam dois quartos embaixo da casa tipo de um porão, onde ele colocava o vinho em barricas para descansar e dar ponto, também no outro ambiente ele guardava todos os seus apetrechos de carpintaria, ele era muito organizado, para se chegar a rua havia uma longa escadaria, porque o terreno era
145
Fátima, 61 anos, filha de imigrante português. Entrevista realiza pela autora em 23/12/2004.
146
BENJAMIN, Waler. “Rua de mão única.” In: Obras Escolhidas. vol.II. São Paulo: Brasiliense, 2000.
caído para dentro, mas o meu pai soube aproveitá-lo muito bem.147
Viga retornou a São Paulo após as Revoluções de 1930 e 1932. Conforme relata, pouco se recorda do primeiro bairro em que residiu, Chora Menino, mas da época em que viveu no Tucuruvi, onde viu e, de certa forma, ajudou seu pai a construir a sua moradia, lembra-se com detalhes, descrevendo as hortaliças, os morangos, as figueiras, o tonel de fazer vinho e a casa em si em seus pormenores.
Em suas palavras, Viga fornece pistas de que seu pai teria sido ou tentado ser um pequeno empreendedor, mas que não foi bem sucedido nos negócios.
Deste já citado depoimento, compreende-se que, para as crianças, as mudanças de residenciais representavam a possibilidade de fazerem novas