A cidade de São Paulo, até 1870, restringia-se a uma área entre os rios Tamanduateí e Anhangabaú. A partir do final do século XIX, seu espaço urbano começou a ser ampliado, com os sucessivos loteamentos de inúmeras chácaras que circundavam o núcleo original da cidade. Tais ampliações e loteamentos estavam intimamente ligados à constituição dos futuros bairros.
Ao lado do centro velho de atividades comerciais, sobretudo varejistas, surgiram os bairros Santa Ifigênia e Campos Elíseos, locais de preferência dos ricos fazendeiros de café. Estes, no entanto, no início do século XX, se transferiram para o bairro Higienópolis.
O bairro se situa nesse continuum da atividade de seus habitantes como local de dimensões vivenciadas do espaço. As delimitações entre os espaços público e privado se processam pelo fluxo de contatos e trocas das forças psico- sociais.150 Tais trocas são marcantes no depoimento de Clarinha, que revela a importância das relações familiares e religiosas em sua formação.
Morei mais ou menos cinco anos no Pari.151 Todos lá eram parentes, tios, avós, primos. Eram parentes ou do meu pai ou da minha mãe. Quando tinha a festa, a homenagem a Santo Antônio, a minha tia cruzava na janela de seu sobrado as
150
VERÁS, Maura Pardini Bicudo. O bairro do Brás em São Paulo: Um século de transformações no espaço urbano ou diferentes versões da segregação social. Tese (Doutorado em Ciências Sociais), PUC-SP, 1991.
151
Hoje, o Bairro do Pari tem 429 anos. Localiza-se praticamente no centro da cidade de São Paulo. Sempre se ouviu falar no “caminho do Pari”, que eram variantes do caminho do mar ou para a baixada santista. Este foi o método usado pelos primeiros moradores do bairro para a pesca nas límpidas águas do Tietê. Em 1900, o Pari, o Brás e a Mooca eram povoados insignificantes, com algumas casas de sapé erguidas no meio do matagal espesso.
O primeiro recenseamento do bairro data de 1763. Nessa época, o Pari tinha onze casas e setenta e dois habitantes que viviam da pesca. A Igreja estimulou o crescimento do bairro, que foi reorganizado e passou a ostentar grandes e finas mansões de tradicionais famílias paulistas.
A expansão comercial do Pari aconteceu em virtude da expansão do centro, especialmente para as ruas Direita, São Bento, XV de Novembro e Boa Vista.
Em 1964, uma parte do bairro foi desmembrada, sendo dividido em Vila Guilherme e Pari. A construção da Igreja de Santo Antônio de Pari data de 1914. Possui torres imensas, construídas pelos próprios moradores, que, ao regressarem do trabalho, iam direto para a lida, em meio aos tijolos e ao cal.
bandeiras de Portugal e do Brasil. Era uma agitação, uma alegria só [...]. Os patrícios corriam pra cá e pra lá, era um falatório só. O nosso bairro era simples, tinha muitas casas, antigas vilas de sobrados, vilas de casas, ao redor da Igreja de Santo Antônio do Pari.152
Glorinha comenta que também morou no Pari: “A rua Itaqui, localizada no Pari, eu nasci e morei num cortiço ali, fiz amizades, tive amigos de verdade,
gente que não ligava para as nossas poucas posses.”153
A demolição de velhos bairros, a reconstrução sobre novos terrenos, a sua valorização ou não, a especulação e os planos de renovação são as causas ou os resultados dos interesses econômicos do setor imobiliário.154 Nigriello afirma que a demolição é uma “perda da memória do espaço construído, cuja importância não se limita ao patrimônio histórico de valor arquitetônico, mas abrange todo o tecido urbano, enorme patrimônio da comunidade”. 155 Nesse sentido, pode-se afirmar que a história do bairro está intimamente ligada à história da cidade de São Paulo, à história de vida de cada pessoa, aos relacionamentos sociais e aos vínculos afetivos. Por conseguinte, dificilmente se pode pensar nessas “construções” isoladamente.
O bairro Pari foi, inicialmente, constituído por portugueses, já que estes foram os primeiros a habitá-lo, seguidos dos italianos. Os lusitanos marcaram
sua presença tanto nas edificações quanto nos pontos comerciais deste distrito.156
Sobre as observações que são feitas a respeito deste bairro no presente estudo, vale lembrar que as entrevistadas, quando a ele se referem, baseiam-se no que a elas foi transmitido pelos seus avós e pais.
152 Clarinha, 72 anos, filha de imigrante português. Entrevista realizada pela autora em 08/1/2005. 153 Glorinha 69 anos, filha de imigrante português. Entrevista realizada pela autora em 02/02/2005. 154
VERÁS, Maura Pardini Bicudo. Op. cit., 1991.
155
NIGRIELLO, Adreína. Conservar para desenvolver. Tese (Doutorado em Estruturas Ambientais Urbanas), FAU, USP-SP, 1987.
156
Para leitura mais detalhada, sugere-se as fontes impressas: O Estado de São Paulo, de 25/03, 29/04/1999 e 09/03/1995; Diário Popular, de 05/03/1985; a Folha de São Paulo, de 17/10/1999; e o Jornal de Portugal, de 21 à 27/11/1999, que se encontram disponíveis no Arquivo Municipal de São Paulo.
Entre os anos de 1882 e 1891, os italianos lideravam o ranking dos imigrantes mais numerosos que chegavam a São Paulo, registrando 202.503 entradas. Em seguida vinham os portugueses, que somavam 25.925, e os espanhóis, que representavam 14.954 imigrantes, além das outras diversas procedências, que somavam 19.804 entradas, num total de 263.196 imigrações, segundo a Sociedade Promotora (1892), em Relatório ao Vice-Presidente do Estado de São Paulo. Diante de tais dados, pode-se afirmar que a imigração iria consolidar e caracterizar vários bairros de São Paulo.157
A urbe se modificou no seu uso e no seu espaço. “A vida urbana invadiu o campo”158 e as chácaras sofreram as conseqüências, cedendo espaço para a formação dos bairros residenciais. As antigas “casas de fins de semana” dos fazendeiros foram transformadas em moradias permanentes, e, assim, áreas foram loteadas e preparadas para as habitações da camada dominante. Os terrenos eram extensos e as chácaras foram transferidas para a cidade,
“iniciando-se um processo de progressivo retalhamento da área rural”.159
Ao lado dos belos palacetes ainda se podia observar moradias modestas. Em conflito com algumas ruas bem pavimentadas e com os numerosos edifícios, muitas vias, com edificações esparsas, apresentavam-se com formas delineadas, mas cobertas de terra batida, o que as tornava inacessíveis em dias chuvosos.
Os bairros se formavam distintamente e a aristocracia cafeeira não poupava seu dinheiro, impondo projetos audaciosos de arquitetura baseada nas construções dos castelos europeus, principalmente nos Campos Elíseos. Porém, ao lado dessas construções instalavam-se as camadas médias da população, com moradias operárias que concentravam artesãos e mestres imigrantes – sobretudo portugueses, italianos e espanhóis –, entre outros.
157
VERÁS, Maura Vera Pardini Bicudo. Op. cit., 1991.
158
LANGENBUCH, J. Richard. Apud VERÁS, Maura Pardini Bicudo. Op. cit., 1991. p.232.
159
A camada pobre da cidade ocupava os bairros populares, tais como o Brás, o Pari e a Mooca, caracterizando o processo de segregação que se intensificaria mais tarde. Villaça160 enfatiza que a organização territorial de São Paulo era demarcada por faixas divisórias representadas pelo rio Tamanduateí, pelo córrego Anhangabaú e pela estrada de Ferro SPR (Santos a Jundiaí). A leste estavam os bairros populares, com as residências operárias, a indústria e o comércio, destacando-se o Brás como o primeiro deles. A oeste estava o centro da cidade, onde se formavam os bairros da aristocracia rural e da burguesia industrial: Campos Elíseos, Vila Buarque, Higienópolis e Avenida Paulista.
Os primeiros bairros operários foram constituídos próximos às zonas industriais, acompanhando as vias férreas, em terrenos de várzea de baixo preço. Paulatinamente, foram desenvolvidos os bairros Brás, Belenzinho, Mooca, Luz e Bom Retiro. Mais tarde, surgiram os bairros Liberdade e Vila Mariana, em direção a Santo Amaro; Consolação, em direção a Pinheiros, no sentido de São Roque e Sorocaba; Cambuci e Vila Deodoro, no caminho do Ipiranga, em direção à baixada santista. Estes locais foram se formando como núcleos de povoamento que circundavam os eixos viários, favorecendo o percurso casa- trabalho e vice-versa.
As vias férreas, com suas passagens de nível, porteiras e estações, promoviam o isolacionismo e, assim, propunham movimentos para a cidade e o seu dinamismo, possibilitando resistências e avanços na formação da consciência de classe do operariado emergente.
A própria política imigratória de organização dos estrangeiros em unidades familiares favoreceu o lugar de seus alojamentos, fazendo surgir bairros com caráter de parentela coesa e justificando o estreitamento dos vínculos “comunitários” – a conterraneidade, a língua, os hábitos alimentares e a cultura, expressas nas reminiscências das entrevistadas: “Eram todos parentes,
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VILLAÇA, Flávio. A estrutura territorial da metrópole sul brasileira: áreas residenciais e comerciais. Tese (Doutorado em Geografia), FFL, USP-SP, 1978. p.33-34.
tios, avós, primos, parentes dos meus pais.”161 Na fase de depressão da economia cafeeira e do desemprego crônico, estes tipos de bairros ganharam destaque na luta pela sobrevivência.
A proximidade e os vínculos comunitários faziam com que muitos imigrantes portugueses permanecessem unidos, estabelecendo laços de amizade, religiosos ou matrimoniais, como ocorreu com os pais de Helena. Oriundos da mesma região do Porto, eles se estabeleceram no bairro da Saúde, onde seus avós já tinham alguns conhecidos.
Eu morava na Saúde,162 quando nasci, morei mais ou menos uns quatro ou cinco anos [...]. Dos avós, não me recordo, mas a minha mãe sempre falou que eu os conheci, eram afáveis e bondosos e, por terem deixado um filho em Portugal, sempre voltavam lá, até que vieram a falecer. Já a avó paterna nunca saiu de Portugal. Sei que os meus pais já se conheciam e coincidentemente se reencontraram no mesmo bairro e se casaram. Eu e as minhas irmãs fomos batizadas na Igreja de Nossa Senhora da Saúde, como era o costume [...] da vizinhança.163
A devoção à Nossa Senhora da Saúde teve início em Portugal, por ocasião de uma “peste” que se manifestou em meados do século XVI, e, portanto, foi trazida ao Brasil pelos portugueses. Mas foram os padres agostinianos que foram encarregados, conforme determinação do arcebispo Dom Duarte, de realizar o trabalho missionário na capela. O primeiro santuário brasileiro dedicado a esta santa foi construído por volta de 1915, mas como o número de devotos aumentou, bem como a população local, em 1928 foi iniciada a construção da nova igreja.
161
Clarinha, 72 anos, filha de imigrantes portugueses. Entrevista realizada pela autora em 08/01/2005.
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Saúde é um bairro com ruas largas e praças envoltas por fileiras de árvores. Os primeiros lotes apresentavam área de 300 m2. O bairro possui imobiliárias, supermercados, comércios variados, escolas públicas e particulares, shopping center, universidade, várias linhas de ônibus, contando com muitas facilidades de acesso e moradia.
163
Os elos que foram construídos pelos imigrantes portugueses estavam além do espaço físico propriamente dito. Entre eles havia ligações profundas emanadas pela fé, pela amizade, pelos laços afetivos, pelos parentescos e pelo trabalho. Estavam sempre envolvidos por várias maneiras de ser e agir e tinham em mente uma mesma idéia: trabalhar é preciso, não importa no que ou onde. No entanto, conforme Berrini e Scarano afirmam, “[...] eles mudaram, como mudou São Paulo que conheceram: mudou o Largo de São Bento, o Piques, a
Avenida Paulista, mudaram as pessoas.”164
Para amparar sua família, o imigrante português teve que realizar atividades diferentes daquelas que antes executava, como criar pequenos rebanhos de gado – caprino, ovino ou suíno –, negociar flores e chefiar equipes responsáveis pelo calçamento da cidade, função ocupada na Prefeitura
Municipal de São Paulo.165 Um recém-chegado imigrante, por exemplo, que
antes era carpinteiro, foi responsável pelo conserto de panelas num pequeno comércio de secos e molhados, ambulante, funcionário da Ford e da empresa ferroviária e desempenhou, ainda, outras atividades166, as quais serão exploradas mais adiante.
Nos anos de 1923 e 1924, São Paulo sofreu intensamente com a seca, tendo os níveis dos seus rios, nos quais se localizavam as usinas hidrelétricas, diminuídos. Conseqüentemente, a cidade sofreu falta de energia elétrica, o que forçou um racionamento e obrigou a Light a retirar muitos bondes (que dependiam de eletricidade) de circulação. Depois de estabelecida a crise, a prefeitura disponibilizou para o transporte público diversos ônibus, que continuaram a trafegar pela cidade mesmo após a normalização do fornecimento de energia.
164
BERRINI, Beatriz; SCARANO, Julita. “Imigrante Português / Empresário Paulista.” In: Câmara Portuguesa de Comércio de São Paulo (1912-1992). São Paulo: Gráfica Brasiliana, 1992. p.169.
165
Clarinha, 72 anos, filha de imigrante português. Entrevista realizada pela autora em 08/01/2005.
166
As crises na energia elétrica e no transporte influenciaram não só a grande indústria, como também o cotidiano dos moradores da cidade. Muitos chegaram até a falecer por falta de transporte para chegarem ao hospital ou à Santa Casa de Misericórdia, onde poderiam ser assistidos e medicados. Mais tarde haveria, ainda, outras crises, como o crack da bolsa de New York e a Revolução de 1930.
A crise na bolsa de Nova York, em 1929, atingiu profundamente a cidade de São Paulo, o Brasil e o mundo, num efeito dominó. Contudo, no final dos anos vinte, a construção do Edifício Martinelli, com seus 26 andares, foi concluída, e a Revolução de 1930 pôs fim aos mais de quarenta anos da
conhecida República Velha.167
Surgiu, nessa ocasião, o “Plano de Avenidas”, elaborado pelos urbanistas Ulhôa Cintra e Prestes Maia, que redesenharam a área central de São Paulo a partir dos anos 30. Este plano viário surgiu para viabilizar o tráfego de automóveis e ônibus, que não deixariam mais de circular pela cidade.
Neste clima conturbado, as famílias de Helena, Viga, Clarinha e Glorinha decidiram mudar de local as suas residências, as duas primeiras partindo em direção ao interior, mais especificamente para a região centro-oeste do Estado de São Paulo, e as outras se deslocando para a Zona Norte da cidade de São Paulo.
Os trabalhadores ocuparam zonas distantes do centro da cidade principalmente a partir do final da década de 1930 e início de 1940, mediante a valorização crescente dos bairros mais centrais, já dotados de infra-estrutura urbana. Com a crescente urbanização, o trabalhador foi, portanto, sendo expulso para as áreas cada vez mais afastadas, onde eram insuficientes ou mesmo inexistentes os recursos necessários para uma moradia confortável.
167
Os avós e pais das depoentes, no entanto, uma vez que provinham de uma tradição de desbravamento, sentiram-se estimulados a se apropriarem de locais, apesar de distantes, amplos. Nesse sentido, Clarinha descreve o novo local de habitação de sua família: “O meu pai e o vô diziam que o lugar era um campo, um campo imenso, não havia tantas casas e para a minha mãe era um
vilarejo, com poucas casas, muito descampado.”168 A depoente assim caracteriza
a Zona Norte de São Paulo em 1940, onde, de certa forma, os imigrantes puderam acomodar seus filhos e netos, garantindo-lhes habitação e segurança.
Nesse período, ainda que algumas das entrevistadas já trabalhassem no ramo da fiação ou estivessem cursando o Grupo Escolar ou o Curso de Corte e Costura, observa-se que sonhavam e se imaginavam heroínas, pois auxiliavam na manutenção do lar e na criação dos irmãos menores. Entretanto, o bem-estar da família sempre esteve acima de qualquer idéia que pensassem em colocar em prática, já que a figura materna, representada pelas amas, as trazia para a realidade, para o cotidiano dos deveres e do trabalho, revelando que seus sentimentos imagéticos estavam distantes da relação cotidiana. As estrofes apresentadas a seguir reproduzem esta subjetividade e, ao mesmo tempo, o despertar para a realidade, que paira em suas memórias.
Sonho que sou uma amazonas andante. Por desertos, por sóis, por noite escura, Heroína do amor, busco anelante. O palácio encantado da Ventura!169
Mas a cidade de São Paulo não parava e, neste período, estava sendo reestruturada. As depoentes, como em todo processo de construção, foram compondo as suas identidades nesse cotidiano de desenvolvimento e modernização tecnológica. Elas ainda passariam pelas diversas possibilidades de
168
Clarinha, 72 anos, filha de imigrante português. Em entrevista realizada pela autora em 08/01/2005.
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QUENTAL, Antero Soares. Sonetos. Lisboa: Couto Martins, 1943. p.133. (adaptado pela autora para as entrevistadas)
trabalho, pelos estudos, pelo celibato ou pelo casamento, pelo falecimento de seus antecessores e de seus irmãos e irmãs, mas também pelo nascimento de seus filhos, sobrinhos e netos. Novos amigos e oportunidades surgiriam, sonhos se renovariam, pessoas não seriam esquecidas e lágrimas seriam derramadas, mas elas próprias dizem “tudo foi bom e é bom porque podemos estar lembrando e contando agora”.
FIGURA 5 – Reprodução da formatura do 4º ano primário no Grupo Escolar Silva Jardim. Fonte: Álbum de família da entrevistada.
3.3 DEPOIS DO NASCIMENTO E DA INFÂNCIA, INICIA-SE O