4.3 Algorithm details
4.3.1 Pre-processing
A comunicação não existe por si mesma, como algo separado da vida da sociedade. Bordenave (1982) defende que sociedade e comunicação são uma coisa só.
“Não poderia existir comunicação sem sociedade, nem sociedade sem comunicação. A comunicação não pode ser melhor que sua sociedade nem esta melhor que sua comunicação. Cada sociedade tem a comunicação que merece. Dize-me como é a tua comunicação e te direi como é a tua sociedade.” (p.16-17)
Bordenave (1982) refere que a comunicação foi o canal pelo qual os padrões de vida de sua cultura foram-nos transmitidos, pelo qual aprendemos a ser membros da nossa sociedade. São incontáveis os atos de comunicação que realizamos diariamente, podemos começar a contar do bom dia que damos ao esposo antes de sair de casa para o trabalho, da leitura do jornal, da conversa frívola com os vizinhos no elevador, da decodificação e reconhecimento dos sinais de trânsito até a chegada ao trabalho, o cumprimento dos colegas no trabalho, leitura dos inúmeros documentos do trabalho, relatórios, e-mails, correspondências, atendimento telefônicos, conversas com os
colegas e com o chefe, definição com os colegas sobre o local de almoço, escolha do cardápio, conversa de restaurante, conversa com a família no jantar, programas de televisão, diálogo amoroso com o esposo antes de dormir e finalmente o “boa-noite” encerrando aquele dia.
A comunicação confunde-se, assim, com a própria vida. Temos tanta consciência de que nos comunicamos como de que respiramos ou andamos. Somente percebemos a sua essencial importância quando, por alguma razão (doença ou acidente), perdemos a capacidade de nos comunicar.
Adotamos e internalizamos nossa cultura não por “instrução”, todo o aprendizado das crenças, valores, hábitos e tabus acontecem antes de nosso ingresso na formalidade do aprendizado escolar. Ninguém nos ensinou propositadamente como está organizada a sociedade, tão pouco nos foi “ensinado formalmente” o que pensa e sente a nossa cultura. Este aprendizado aconteceu indiretamente, pela experiência acumulada nos numerosos pequenos eventos, insignificantes em si mesmos, mas através dos quais travamos relações com diversas pessoas e aprendemos a orientar nosso comportamento para o ajustamento social. Tudo isso foi possível graças à comunicação diária com pais, amigos, familiares, igreja, ônibus, lojas etc, que transmitiram as qualidades e características essenciais da vida da nossa sociedade.
Skinner (1978) inicia o livro Comportamento Verbal com a seguinte frase: “Os homens agem sobre o mundo e o transformam, e são, por sua vez, transformados pelas conseqüências de suas ações.” Este autor define o comportamento verbal como todo aquele comportamento mediado por outra pessoa, e assim inclui no verbal, gestos, sinais, ritos e obviamente a linguagem. Assim, podemos dizer que o homem, ao falar, transforma o outro e, por sua vez, é transformado pelas conseqüências da sua fala. Descreveremos, então, quatro exemplos para entendermos melhor este processo de
mútua transformação:
Um artesão ensina seu filho a fazer potes de cerâmica: compartilha com ele o conhecimento e a experiência. Ambos usam palavras, gestos, objetos e movimentos como meio de trocar suas percepções e intenções. O barro da terra se transforma em uma nova realidade. Nesta situação, ao mesmo tempo, o pai e o filho se modificam: o velho torna-se, mais que pai, mestre; e o filho não é mais apenas filho/aprendiz, ele converte-se em artesão.
Um médico atende um paciente. Nesta consulta, ele colhe todas as informações que considera necessárias, pede exames, faz algumas orientações e aguarda o resultado dos exames para fazer o diagnóstico. Por ser um caso complicado, faz pesquisas, discute e troca experiências com alguns colegas. No momento da outra consulta, fala ao paciente qual é o diagnóstico, esclarece as dúvidas, pelas expressões e pelos questionamentos do paciente busca identificar o grau de compreensão, e como será a adesão deste ao tratamento. Neste encontro não apenas o paciente foi transformado pelas orientações do médico, mas o próprio médico, depois deste paciente, ele já não será mais o mesmo, com ele também ocorreu uma transformação.
Um ator que atua em uma peça de teatro. Durante a peça, o ator e a platéia se comunicam: o ator diz suas palavras, faz seus gestos, caminha, pula, se ajoelha. A platéia embora, não fale com as palavras, o faz com seu silêncio respeitoso, com suas lágrimas emocionadas, com seu aplauso entusiasmado. Com estas respostas do público e neste momento, ator e o público se transformam: o ator se sente mais seguro, bem compreendido, até mais querido. O público, por sua vez, ao final da peça, volta à rotina de sua própria vida, não volta para casa o mesmo. Algo aconteceu, o contato com a peça e com o desempenho do ator fizeram surgir novas percepções, novas reflexões, novos questionamentos. Público e ator retornam para casa alterados, com outro humor, às
vezes mais calmos, às vezes mais angustiados, mas com certeza transformados, diferentes de quando entraram no teatro.
Um locutor de rádio que anima diariamente as manhãs de qualquer cidade. Sentado na sua salinha ele se comunica com seu público. Para manter a atenção de seus ouvintes, enquanto transmite os acontecimentos do mundo, ele usa, além de suas palavras, a música e os efeitos de som. Através de um complexo mecanismo tecnológico (a emissora) ele simultaneamente “conversa” com milhares de pessoas. Embora os ouvintes não tenham condições de dialogar com o locutor, como o artesão com o seu filho, ou o médico com o seu paciente, uma interação é também estabelecida, apesar de não presencial é sinalizada por outros recursos (telefone, audiência, cartas, etc). Mesmo sem o contato direto, o locutor apresenta-se como um mediador, um porta voz de vários desejos, e mesmo que imperceptivelmente, o locutor e os ouvintes estabelecem as mútuas transformações.
A rádio atinge milhares de pessoas, as informações e as mensagens que o locutor transmite no ar são carregadas de significado. Chegam ao lavrador como a esperança, pois é através do rádio que este trabalhador recebe as informações sobre o tempo, ou da valorização/desvalorização da sua produção. O locutor, mesmo sem conhecer aquele lavrador, repassa para ele as informações que o auxiliarão no planejamento de suas ações.
Nos quatro casos observamos a grande gama e complexidade na qual a comunicação se realiza. As pessoas não se comunicam no vazio, mas dentro de um ambiente, como parte de uma situação, como momento de uma história.
Na vida em sociedade os homens desejam cooperar, partilhar as coisas, dividir o conhecimento, as emoções, as informações, o homem almeja reconhecer-se e ser reconhecido como humano. Em toda interação humana, alternamos nossos papéis,
somos constantemente transmissores e receptores de mensagens e afetos. Cada posição assumida será sempre determinada pela situação, pela necessidade impetrada, pois desde o mais simples ato de comunicação, o passado, o presente e o futuro estarão sempre presentes. A cada processo de comunicação é impetrada uma transformação no Outro.