4.3 Algorithm details
4.3.3 Creation of average cycles
Há alguns tipos de trabalho, trabalhos menos palpáveis, cujo produto é a modificação do outro. Este tipo de atividade requer prioritariamente a utilização da fala como via de acesso à atividade. Como, por exemplo, no exercício profissional do assistente social, do psicólogo, do médico, etc. Nos tipos de trabalho onde o produto é o Outro, ou melhor, a modificação direta do Outro, estes são trabalhos relacionais cujos produtos estão dentro do Outro e tangíveis apenas via a comunicação do seu portador. Desta maneira então questionamos: Qual é o produto do trabalho do psicólogo? Qual é o produto do trabalho do assistente social? Qual é o produto do trabalho do médico? Com certeza, o trabalho destes profissionais não é o número de atendimentos realizados.
Através de conversa, da investigação com o levantamento das informações, da criação das hipóteses, das identificações de alguns fatos, médico, psicólogo e assistente social vão compondo as estratégias para trabalhar e gerar o seu produto. Neste tipo de trabalho (não material), o produto não é separável do ato de produção, ou seja, o ato de produção e de consumo são simultâneos. A sessão psicológica é produzida e consumida ao mesmo tempo (produzida pela própria relação estabelecida). A complexidade deste processo se dá na medida em que o paciente não é mero consumidor da sessão, ele é também objeto de trabalho, já que é sobre ele que incide o trabalho do psicólogo. Neste processo, o paciente e o psicólogo são transformados não apenas no momento da sessão, mas para além dela. Mas colocar o paciente somente como objeto de trabalho limita a análise, pois ao mesmo tempo em que o paciente é consumidor, ele é o objeto de trabalho, ele é sujeito da psicoterapia e co-produtor desta atividade. Como tal, o paciente é o responsável em demonstrar a sua transformação para que o psicólogo possa reconhecer seu trabalho.
O médico não é médico porque medica, ele se reconhece como médico na medida em que consegue promover a melhora da saúde do paciente, o psicólogo não psicologiza, o produto do seu trabalho é o Outro, ele promove a melhora da qualidade de vida do paciente, instrumentaliza o paciente a se estabelecer no mundo, o assistente social é o mediador para que o indivíduo consiga exercer sua cidadania.
Destacamos aqui que encontramos o mesmo processo também em profissões como, vendedores e recepcionistas. Qual é o trabalho do vendedor e do recepcionista? O que eles produzem? O vendedor vende! Mas vende o quê? Ele vende não apenas a mercadoria, mas o seu trabalho é a possibilidade de aumento do status do Outro. A atenção dispensada com a exposição de vários produtos, os elogios, o reasseguramento do status que a mercadoria implicará para o cliente. O trabalhador de vendas utiliza ao
máximo a sedução, para realizar o seu trabalho ele precisa que o Outro se deixe seduzir pelo seu discurso e pela mercadoria. Ele transforma o Outro pela sedução. Já o recepcionista trabalha com a informação, é ele o mediador do cliente ao serviço. Seu trabalho é prover o outro de esclarecimentos, e é com estes elementos que o Outro forma as suas opiniões sobre o serviço. Estes trabalhadores têm como ferramenta de trabalho a própria habilidade de comunicação e o seu produto também não é palpável.
Em todas estas profissões o produto do trabalho é a modificação direta do Outro, ele está direta e internamente no Outro. Para se reconhecer como médico ele precisa que o paciente tome a medicação, conforme foi prescrito por ele, é preciso que o paciente volte para o retorno da consulta, que os exames e o paciente digam que ele está seguindo as instruções e que está melhorando. Para se reconhecer como vendedor é preciso que o cliente expresse sua aceitação e compre alguma mercadoria oferecida.
Enfatizamos que nestas profissões citadas, para que haja o reconhecimento da sua identidade profissional é necessário que haja a troca, que se estabeleça a inter-ação, que o profissional receba o feedback do Outro. É através do feedback do Outro que cada um destes profissionais cria o seu espelho, pois diferente do marceneiro que toca a sua mesa e sente seu produto, o psicólogo, para se reconhecer como psicólogo, precisa do feedback do paciente, e esse feedback ele obtém de várias formas: na medida que o paciente adere ao tratamento e volta nas sessões, em como o paciente descreve a melhora de seu humor ou relata comportamentos e pensamentos modificados a partir do início do tratamento. E todas estas formas de reconhecimento da modificação do Outro se dão via o processo de comunicação.
Na maioria dos trabalhos, se pode traçar um esquema assim:
Modificar a natureza > modificar a si mesmo > produto > modificar o Outro
Quando o trabalho possui como produto direto o outro, o esquema fica assim: Modificar a si mesmo > modificar o Outro.
A mesa do marceneiro se concretizou, ela está ali, reconhecível de imediato, permite ao marceneiro a recuperação dos gestos que a realizaram. No trabalho do médico, psicólogo, assistente social, vendedor, recepcionista (entre outros) é muito difícil recompor o trajeto, é difícil reconhecer a marca específica do trabalho. Como o seu produto é o Outro, ele está condenado à relação. Ele depende, para se reconhecer, que o Outro o reconheça. A “impressão” do seu trabalho está contida no Outro, e é apenas através da comunicação do seu portador (o Outro) que o trabalho é re- apresentado a ele. Re-apresentado a ele através da fala, dos gestos, do sorriso, da escrita, ou seja, através da comunicação de volta que o Outro lhe fornece.
Nos trabalhos em que o produto é a modificação direta do Outro, se fixa a dupla relação de transformação, entre homem (ser humano) e objeto (o outro que recebe). O processo é simultâneo e direto, na medida em que se atende alguém/ cuida de outrem, o cuidador também se transforma e, na medida em que transfere para o outro parte de si, começa a sua procura no Outro de seu trabalho realizado, pois neste trabalho a produção e o consumo são sempre simultâneos.
“Quando o homem se relaciona com o mundo, imprimindo-lhe a sua marca, além da energia física ele despende também uma energia psíquica, enquanto dá significação às coisas. O trabalho humano se dá justamente neste terreno de dupla troca entre a objetividade do mundo real, que concretiza o ato para o indivíduo, e a subjetividade do homem que atribui um significado ao mundo real ao modificá-lo através da sua ação”. (Codo e Vasques-Menezes, 2002, p. 52)
6- COMUNICAÇÃO E TRABALHO
Existem infindáveis modalidades e processos de comunicação, que se apresentam diferentemente em cada caso. Vamos ater-nos aqui a duas análises específicas, e que julgamos relevantes para o entendimento do processo de comunicação imbricado com o trabalho. A primeira refere-se ao processo de comunicação organizacional, e a segunda ao processo de comunicação do grupo de trabalho.