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3. Drøfting

3.2. Krisesenterets arbeid

3.2.2. Praktisk støtte og tverrprofesjonelt arbeid

Considerando os pressupostos discutidos, compreendemos que o projeto político de desinstitucionalização propõe um novo modo de cuidar, reconfigurando a clínica no campo da saúde mental. Reconhecemos não apenas uma aproximação entre a clínica e a política, porém, um “emaranhamento quântico” entre ambos. Tomando emprestado este conceito da física, este fenômeno da quântica permite que dois ou mais objetos estejam de alguma forma tão ligados que um deles não possa ser corretamente definido sem que a sua contraparte seja referida, mesmo separados por milhões de anos luz20. Neste contexto, uma partícula não sobreviveria

sem a outra. Do mesmo modo, percebemos que no campo da saúde mental a política está

20Em pesquisa realizada 20 de abril de 2006, uma equipe do Grupo de Óptica Quântica do Instituto de Física da

Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) publicou um artigo descrevendo a primeira medição direta de um fenômeno do mundo quântico, o chamado emaranhamento ou entrelaçamento de partículas. Como o texto mesmo discorre: “numa linguagem mais coloquial, o que os físicos do Rio de Janeiro fizeram foi criar uma equação geral que lhes permite estimar, com precisão e de forma simples, a perda de emaranhamento de um sistema formado por duas partículas quando uma delas sofre os efeitos deletérios do ambiente” (PIVETTA, 2009, p. 1).

entrelaçada à clínica - as mudanças políticas da assistência convocam necessariamente uma nova clínica, assim como só conseguiremos cuidar se mudanças sociopolíticas existirem.

Compreendemos, assim, que o projeto de desinstitucionalização neste contexto se torna conceito central para o movimento de uma reforma psiquiátrica antimanicomial, com vistas nas transformações no campo da clínica. Paulo Amarante (2007) caracteriza a reforma psiquiátrica como um processo social complexo a partir de quatro dimensões: teórico conceitual ou epistêmica, jurídico-política, técnico-assistencial e sociocultural. Não nos estenderemos à discussão dessas quatro dimensões por ora, mas a resumiremos a partir das considerações de Yasuí (2006).

Diferentemente de Amarante, Yasuí (2006) renomeia a dimensão jurídico-política como política. Através de uma análise histórica da reforma psiquiátrica, destacou as tensões que interrogam a relação entre Estado e Sociedade. Na dimensão epistemológica, através de críticos da racionalidade científica moderna, buscou estabelecer uma ruptura epistemológica em relação à psiquiatria tradicional, presente nos princípios da reforma psiquiátrica, propondo um novo olhar sobre o sofrimento psíquico, construindo novas práticas sociais e outros paradigmas sobre a verdade científica. Na dimensão técnico-assistencial, buscou novos conceitos de produção de cuidados dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), compreendidos como estratégia de ruptura de um modelo assistencial hegemônico. Na dimensão sociocultural, propôs transformações no processo de formação de profissionais, “principais agentes responsáveis pela construção de um novo lugar social para a loucura” (p. IV).

Considerando essas quatro dimensões, separadas didaticamente apenas21,

deparamos com uma complexidade imensa no campo da reforma psiquiátrica brasileira com grandes desafios, principalmente aos profissionais de saúde responsáveis para a consolidação dessas transformações. Porém, mudanças só serão possíveis se a prática dos trabalhadores

21 Em um outo texto, Costa-Rosa e Yasuí (2008) caracterizam muito bem de que forma essas quatro dimensões

estão intrincadas: “A política de Saúde Mental, construída e pactuada por diferentes atores sociais desde meados da década de 1980, preconiza e almeja profundas transformações da atenção, isto é, o atendimento e os cuidados ao sofrimento psíquico e demais impasses subjetivos. Essas transformações apontam para mudanças na concepção do processo saúde-adoecimento, no modelo teórico e técnico-assistencial que organiza e sustenta as práticas dos profissionais; que orienta e sustenta o arcabouço jurídico e o universo de práticas e valores culturais. Mudanças que apontam, também, para proposições éticas em relação aos efeitos e desdobramentos das ações no campo da Saúde Mental [...]. Algumas dessas transformações estão na constituição maior do país e regulamentadas em forma de lei como, por exemplo, a participação da população no planejamento, gestão e controle das práticas de Atenção, e até mesmo na gestão dos dispositivos institucionais. Esse conjunto amplo de transformações práticas e proposições teóricas, tanto éticas quanto políticas, incorporado e vivenciado na atual Política de Saúde Mental é suficiente para que possamos falar em Estratégia Atenção Psicossocial” (p. 28, grifos nossos)

inseridos nas políticas de saúde mental estiver pautada na ruptura cotidiana do modelo tradicional da clínica, como já sinalizado por Costa-Rosa e Yasuí (2008).

Os autores conceituam o modelo tradicional baseado no binômio doença-cura, predominantemente, a partir da compreensão orgânica do sofrimento psíquico. O processo saúde-doença, além de hierarquizado por níveis de Atenção, concretiza suas ações de cuidado focadas na sintomatologia e, consequentemente, em intervenções prioritariamente medicamentosas e hospitalocêntricas. Visualizamos modelos verticalizados que reproduzem o Modo Capitalista de Produção, com práticas funcionais de adaptação de indivíduos “desajustados”.

Para Costa-Rosa e Yasuí (2008), só será possível a superação da clínica tradicional (ou Paradigma Hospitalocêntrico) no campo da saúde mental, quando consolidarmos o Paradigma Psicossocial ou Estratégia Atenção Psicossocial (EAPS). Nessa direção, é preciso que este novo Paradigma situe a saúde mental no campo da saúde coletiva, demandando outra compreensão do processo saúde-doença; o adoecimento psíquico seria resultante não apenas de determinações genéticas ou mudanças neuroquímicas, porém, respostas de:

[...]processos sociais complexos e que demandam uma abordagem interdisciplinar, transdisciplinar e intersetorial, com a decorrente construção de uma diversidade de dispositivos territorializados de Atenção e de cuidado. Mais ainda, para esse novo paradigma, produção de saúde e produção de subjetividade estão entrelaçadas e são indissociáveis, o que traz como consequência a radical superação das relações sociais e intersubjetivas sintônicas com O Modo Capitalista de Produção, que é o alicerce do Paradigma Psiquiátrico Hospitalocêntrico Medicalizador. (p. 29)

Para os autores, esses desafios se tornam mais difíceis porque esse novo paradigma não está presente na formação básica dos profissionais de Saúde, ao contrário, a formação continua organizada em especialidades, com foco na fragmentação da realidade.A atuação no campo vai requerer uma ruptura radical não apenas do paradigma tradicional da clínica, porém, também, dos conceitos estudados durante suas formações. Como sinalizam Alves e Guljor (2004):

A equipe de cuidado e o serviço precisam estar prontos para acompanhar a trajetória do sujeito em sofrimento, sem compartimentalizá-lo por especificidades de demanda ou “repassá-lo”, ao se deparar com a complexidade das questões... O agenciador tem como pressuposto básico a tomada de responsabilidade e, como consequência, constitui-se como mediador das relações daquele com o mundo (p. 230).

Nos aproximamos dos estudos de Passos e Barros (2001) quando asseguram que a transformação na clínica necessita questionar nossos especialismos, exigindo “a busca de

estratégias eficazes contra o conservadorismo das imagens identitárias” (p. 4). Explicitam a necessidade de problematizar nossa relação com as práticas históricas e seus efeitos, inclusive, nas formações acadêmicas. Ao proporem a articulação entre clínica e história, afirmam que somos convocados a inserir a dimensão política da clínica, uma vez que, compreendendo a história, podemos dela extrair seus processos de produção e desnaturalizar seus eventos fazendo emergir este jogo de forças que compõe a realidade. Os autores apostam no comprometimento da clínica com “este plano de produção ou de individuação sempre coletivo e que é indissociável do domínio da realidade individuada” (p.4). Da mesma forma, assumimos que a dimensão política da clínica só será possível intervindo na realidade e nos processos de produção de si e do mundo.

Passos e Barros (2001), ao defenderem a dimensão política da clínica, propuseram o conceito de “experiência de desvio” como forma de criar novos territórios existenciais. O sentido da clínica não se limitaria à inclinação sobre o doente, porém convocaria à produção de um desvio (clinamen). Para melhor esclarecimento, utilizam o conceito da filosofia grega, em que o desvio permite aos átomos, ao caírem no vazio em decorrência de seu próprio peso e velocidade, chocarem-se compondo novas coisas. “Essa cosmogonia epicurista atribui a esses pequenos movimentos de desvio a potência de geração do mundo” (p. 3).

Apesar da literatura fornecer perspectivas ampliadas sobre os modos de cuidado no campo da saúde mental, o cuidado delimitado aqui é aquele que Venturini (2005) denominou como “nova técnica terapêutica”: a desinstitucionalização (p. 17), que necessariamente propõe colocar a “Doença Mental entre parênteses” que, por sua vez, dialoga com tudo o que apresentamos até o momento sobre o ‘novo paradigma clínico’ ou ‘paradigma psicossocial’.

Colocar a doença entre parentes, como propôs Basaglia (2005), representaria evidenciar o sujeito e sua história, em suas mais diversas relações, recusando a hegemonia do modelo sintomatológico. Desloca-se o processo do tratamento “da doença” para “a pessoa do doente” (GOLDBERG, 1996, p. 21). O foco se devia à vida e todas as conjunturas que a compõe e não apenas a identificação dos sintomas. O que não quer dizer “negar os sintomas, mas capacitar a instituição para, ao compreender e dialetizar essa expressão, ir ao encontro de uma história” (NICÁCIO, 1994, p. 100).

Como descreve Venturini (2005), a opção dos Basaglias22, foi uma rigorosa opção

científica, subvertendo a arrogância dos intelectuais de falar pelo outro, dando voz aos não

22Referência à tradição basagliana, considerando toda a contribuição teórica de Franca Ongaro Basaglia e Franco

especialistas (paciente e familiares, por exemplo), possibilitando emergir um novo sujeito. O fim do manicômio representaria o questionamento prático e teórico dos aparatos culturais e científicos que sustentavam a loucura e sua relação de dominação pelo Estado. A proposta “clínica” (política, cultural, epistemológica) da desinstitucionalização consistiria na capacidade de voltar-se para o doente, e não a doença, conduzindo o tratamento na busca das plenas possibilidades existenciais da pessoa, assim como de seus direitos. Mas, como Venturini (2005) afirma, toda essa luta deve ser com muita paixão, “com a intensidade ideal e com a lucidez que sempre acompanharam esses extraordinários seres humanos” (p. 21).

Tenório (2001) corrobora com as pontuações acima ao afirmar que a clínica da reforma psiquiátrica propõe a reformulação das noções de cura e tratamento, partindo da crítica “a um estado de coisas que se pretende superar” (p. 55). Torna-se fundamental a discussão sobre autonomia e reabilitação, não mais de cura, assim como escuta e vinculação na via de uma proposta terapêutica. Nesse contexto, as práticas de cuidado não se submetem a um modelo centralizado, mas devem considerar as particularidades de cada situação. O autor, ao propor a superação da clínica, enfatiza a dimensão social política correspondente da proposta de desinstitucionalização. Uma vez que, para romper o paradigma clínico centralizador, é necessário descontruir as instituições que atuam no território social “intermediários de trocas sociais bloqueadas” (TENÓRIO, 2001, p.53).

É fundamental nos posicionarmos politicamente para acolher o sofrimento, compreendendo a tessitura na qual ele se constituiu. Somente assim teremos condições de provocar tensões e desvios, ousando não seguir a cartilha tão cara e ardilosa que nos sustenta. Para isso, são necessárias forças de resistência para arrancar as vendas e lentes que nos alienam e capturam cotidianamente.