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Can pragmatism lead too far?

Na maioria dos momentos do século XX, as mudanças ocorridas nas empresas brasileiras estiveram associadas às configurações organizacionais das empresas norte- americanas. Nesse tópico, inicialmente, serão apresentados os modelos de empresa que existiram no Brasil. Em seguida, a concentração estará sobre as mudanças organizacionais ocorridas no país na década de 1990.

A história da empresa brasileira estaria dividida em três fases. Uma primeira fase consiste no período em que características como lealdade e confiança seriam as centrais, esse momento se chama administração empírica. Nela, os donos das empresas amparavam seus critérios de escolha de funcionários sobre essas duas características, de modo que, ao ocupar cargos relevantes dentro da empresa, os empregados deveriam ser avaliados nestes requisitos. O conhecimento técnico também era considerado, porém em subordinação aos primeiros requisitos (GRUN, 1999).

A segunda fase, que corresponde à administração profissional, significa a inversão desses primeiros aspectos de priorização: ou seja, os aspectos técnicos se tornam mais importantes do que os aspectos de lealdade. Isso se torna possível devido à capacidade dos mecanismos de controle contábil indireto - esses conseguiam relativizar a importância da confiança entre o proprietário da empresa e o dirigente (GRUN, 1999).

No Brasil, essas fases representariam o capitalismo gerencial nacional. O surgimento dessa ideia estava acoplado à justificativa de que a grande empresa administrada profissionalmente deslancharia a economia brasileira. Nesse contexto, houve forte empenho do governo para alavancar, no espaço empresarial brasileiro, o fortalecimento da grande indústria, conforme já apontado no capítulo que trata sobre o surgimento do BNDE.

Seguindo a lógica internacional, um conjunto de mudanças no modelo de gestão da produção começa a ganhar relevância a partir da década de 1980, no Brasil. Essas mudanças estavam amparadas nas técnicas japonesas que envolviam os Círculos de Controle de Qualidade, os sistemas Kanban/Just-in-time e o Controle Total da Qualidade. Esses sistemas envolviam um processo de revalorização da manufatura, que eram cruciais para o Brasil - devido à ideia de que a fase de “substituições das importações” (conforme apresentada nos capítulos anteriores) já estava superada, a proposta agora era concorrer em um mercado mundial, em que a qualidade dos produtos e seus preços finais fossem fatores determinantes em um ambiente de competição (GRUN, 1999).

central à empresa) alcançaram domínio simbólico no espaço organizacional brasileiro até a segunda metade da década de 1990. Nesse momento, uma nova forma de organizar a gestão da empresa estaria surgindo no país. Essa seria amparada na transferência do poder de tomada de decisão do gerente para o acionista.

Dessa forma, Grun (1999) aponta que, no final da década de 1990, teríamos a coexistência de dois modelos de empresa no Brasil. Um primeiro, entendia a produção como central, dessa forma, o direcionamento dos investimentos seria para qualificação do pessoal, qualidade e tecnologia, sempre com uma orientação a longo prazo. O segundo modelo seria o da empresa que tem como proposta central e exclusiva atender os interesses dos acionistas: dessa forma, o poder de decisão é transferido do gerente para o conselho de administração (na maioria dos casos, composto por indivíduos que representam os acionistas) e os investimentos são calcados na orientação a curto prazo.

Grun (1999) aponta a existência de uma guerra cultural para descrever a coexistência desses dois modelos. A utilização dessa expressão se deve aos desdobramentos dos modelos estarem associados às trajetórias dos atores que passaram a defendê-los. De um lado, engenheiros e gerentes industriais e do outro lado, atores do mercado financeiro que se aproximam dos preceitos do neoliberalismo. Até os anos 1980 no Brasil, houve um predomínio no espaço organizacional das empresas e das indústrias do modelo baseado na qualidade total - que colocava os cargos de gerentes e engenheiros em uma posição central. Todavia, nos anos 1990, através da contração da economia e com o ciclo de privatização, a relevância do modelo organizacional que prioriza os interesses dos acionistas aumentou significativamente.

Nesse contexto, ganham espaço as organizações financeiras que se dispõem a assumir o controle das empresas que se encontram em dificuldades. O Banco Garantia seria o exemplo mais expressivo desse tipo de organização, que se especializou progressivamente em salvamentos de empresas (como, por exemplo, a Brahma, Lojas Americanas e Mesbla) (GRUN, 2005).

Dessa forma, as ferramentas financeiras desenvolvidas no capitalismo norte- americano na década de 1980, começaram a chegar ao Brasil na década de 1990, devido ao novo contexto econômico. Nessa década, ocorreram inúmeros fenômenos que reconfiguraram a dinâmica organizacional brasileira, bem como privatizações das empresas estatais, fusões e aquisições. Vários acontecimentos contribuíram para a ocorrência dessas mudanças na dinâmica organizacional brasileira. Dentre esses, destacam-se os governos Fernando Collor de Mello (1990/1992), Itamar Franco (1993/1994) Fernando Henrique Cardoso (1995/2002).

Nesses governos, os papéis desempenhados pelo Estado evidenciaram a existência e o predomínio da política do livre funcionamento dos mercados. Seguindo as prescrições do Consenso de Washington, o governo Collor operacionalizou a abertura comercial nacional e os processos de privatizações. Tais ações foram seguidas pelos governos subsequentes: Franco e Cardoso.

Notadamente no governo Cardoso, são operacionalizadas uma série de privatizações que eram articuladas através de consórcios. Grun (2009) descreve que os modelos de privatização (desenhados no governo Cardoso) privilegiavam os banqueiros de investimento em detrimento dos fundos de pensão. Embora os fundos de pensão aplicassem significativas proporções de dinheiro nos processos de compra, não participavam da gestão do negócio, pois o controle das empresas privatizadas ficava sob a custódia dos bancos de investimentos.

Conforme demonstrado no capítulo anterior, nesse período, a atuação da BNDESPAR estava voltada ao âmbito do CONTEC e para o desinvestimento da sua carteira de ações. Contudo, três fenômenos peculiares aconteceram nesta época, envolvendo a atuação da BNDESPAR como viabilizadora de processos de privatizações. Conforme exposto, a subsidiária participou de três dessas operações20: LIGHT; VALEPAR E TELEBRÁS. Através

desses casos apresentados, percebe-se que a articulação de instituições estatais foi crucial para a operacionalização das privatizações. É notável a BNDESPAR ser acionada para evitar o fracasso das operações.

A transferência para setores privados de grandes empresas estatais foi um importante fator de mudança nos arranjos organizacionais do período: tanto pelos processos de fusões e incorporações associadas às privatizações, quanto pelo surgimento e fortalecimento de agentes como os fundos de pensão e bancos, bem como a crescente presença de investidores internacionais. Nos fenômenos de privatizações, houve participações de grupos e investidores norte-americanos - esses trouxeram para o Brasil as experiências vivenciadas nos mercados financeiros internacionais (DONADONE e SZNELZAR, 2004). Dessa forma, a dinâmica organizacional brasileira recebeu influências diretas do modelo de capitalismo que vigorava nos Estados Unidos, visível em ferramentas como a governança corporativa e os fundos de participação privada.

Donadone e Sznelwar (2004) indicam que os movimentos de privatização ensejaram novos entendimentos às formas de controle acionário das empresas brasileiras (por meio da crescente presença de fundos de pensão, bancos, instituições financeiras e fundos de

20 Ver o tópico 3.2.1 do capítulo 3: Atuação da BNDESPAR na década de 1990: o programa CONTEC e as

investimentos). Houve uma mudança no formato do controle acionário, pois agora haveria um compartilhamento de controle entre sócios nacionais e estrangeiros, além da formação de alianças estratégicas entre grupos nacionais e internacionais.

Esses fenômenos encaminham uma ampla reconfiguração na atuação dos principais atores brasileiros, pois agora o Estado se ausentou de espaços importantes. Donadone e Sznelwar (2004) explicam:

A saída do Estado de importantes setores do aparelho produtivo, a exemplo dos setores siderúrgico, petroquímico, de ferrovias, de energia etc., implicou um redesenho do tripé clássico que deu sustentação ao desenvolvimento nacional até os anos 80, ou seja, o capital privado nacional, o capital estrangeiro e o capital estatal. Com a retirada deste, os dois primeiros se rearticularam. Nesse sentido, o processo de privatização foi o ponto de partida de movimentos de reestruturação societária e produtiva em vários setores (Donadone e Sznelzar, 2004: 67).